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Alcorão


Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb

 

OS CORCÉIS

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Pelos corcéis resfolegantes,
Que lançam chispas de fogo,
Que atacam ao amanhecer,
E que levantam nuvens de poeira,
E que irrompem, nas colunas adversárias,
Que o homem é ingrato para com o seu Senhor,
- Ele mesmo é testemunha disso! -
E que é violento quanto ao amor aos bens terrenos.
Ignoram eles, acaso, que quando os que estão nos sepulcros forem ressuscitados,
E for revelado tudo quanto encerram os corações (humanos),
Nesse dia, o seu Senhor estará bem inteirado deles?

 

Ás Sombras do Alcorão

Este capítulo é apresentado em toques rápidos e violentos. O texto passa, velozmente, de uma cena para outra. Quando chegamos ao último versículo, tudo, as expressões verbais, as conotações, o assunto e o ritmo - são arrumados de forma semelhante à de um corcel buscando o ponto final.

O capítulo se inicia com a cena dos corcéis de guerra correndo, resfolegando, lançando chispas de fogo com seus cascos, iniciando um ataque de surpresa na madrugada e iluminando uma nuvem de poeira, abrindo caminho no meio dos inimigos, falando-lhes de surpresa e espalhando terror e medo em seus corações.

Segue-se, então, um quadro sobre a personalidade humana: uma cena de ingratidão, ignomínia, cobiça e mesquinharia. Logo em seguida, há uma descrição de túmulos que se abrem com o seu conteúdo disperso e os segredos dos corações expostos. Finalmente, a nuven de poeira, a ingratidão e a mesquinharia, o conteúdo dos túmulos e os segredos arrancados à força, tudo caminha para o mesmo fim. Eles chegam a Allah e decidem: "Certamente, nesse dia, o seu Senhor estará bem inteirado deles".

O ritmo do capítulo é forte e aniquilador, se encaixando bem com a atmosfera empoeirada e clamorosa gerada pelos túmulos revolvidos e pelos segredos violentamente arrancados dos corações. Estas caracteríísticas do ritmo imposto também são apropriadas para o quadro da ingratidão, da falta de reconhecimento e da extrema mesquinharia. A estrutura para esta cena é fornecida pela atmosfera poeirenta e tumultuada dos cavalos correndo e trovejando. Assim, moldura e tela estão em perfeita harmonia entre si.

"Pelos corcéis resfolegantes, que lançam chispas de fogo, que atacam ao amanhecer, e que levantam nuvens de poeira, e que irrompem nas colunas adversárias, que o homem é ingrato para com o seu Senhor. - Ele mesmo é testemunha disso! - e que é violento quanto ao amor aos bens terrenos".

Allah jura pelos cavalos de guerra e descreve seus movimentos um após o outro - correndo, resfolegando e relinchando. Eles golpeiam as rochas com seus cascos, produzindo chispas de fogo. Eles promovem seu ataque cedo, ainda na madrugada, a fim de pegar o inimigo de surpresa, produzindo um nuvem de poeira durante a batalha inesperada. Eles penetram rapidamente nas fileiras do inimigo, criando desordem e confusão entre eles. Os sucessivos estágios eram bem conhecidos daqueles a quem o Alcorão se dirigiu pela primeira vez. O fato de Allah jurar pelos cavalos nos sugere enfaticamente que o movimento retratado é um movimento cativante e os homens deveriam responder a ele imediatamente. Isto, eles só o fazem após perceberem como é preciosa a providência divina que está refletida em Seu cuidado. Além do mais, há a harmonia entre esta cena e as cenas que são tema do juramento Divino, isto é, a condição da alma humana quando destituída de fé. O Alcorão chama a atenção do homem para este estado, a fim de que ele possa reunir todo o seu poder de vontade para combatê-lo. Porque Allah está perfeitamente consciente de quão profundamente enraizado está no homem e como é grande a pressão exercida sobre ele.

"Que o homem é ingrato para com o seu Senhor. - ele mesmo é testemunha disso! - e que é violento quanto ao amor aos bens terrenos". É fato que o homem reaje com ingratidão a todas as benesses de seu Senhor. Ele nega os favores que Allah lhe concede. Sua ingratidão e o seu não reconhecimento estão refletidos em uma quantidade de ações e afirmações verbais que testemunharão contra ele. Ou, talvez, no Dia do Julgamento ele poderá testemunhar contra ele mesmo, admitindo sua ingratidão: "Ele mesmo é testemunha disso!" Porque no Dia do Julgamento, ele falará a verdade plena, ainda que seja contra ele, sem qualquer controvérsia ou desculpas. "E que é violento quanto ao amor aos bens terrenos". O homem é um egoísta apaixonado. Mas, ele ama somente o que ele imagina que seja bom para si: riqueza, poder e o prazer deste mundo. Esta é a sua natureza, a menos que ele tenha uma fé capaz de modificar seus conceitos, valores e mesmo suas preocupações. A fé modifica sua ingratidão, transformando-a em humildade agradecida, a avidez e a mesquinharia em benevolência e compaixão. Isto o torna consciente de seus próprios valores que são merecedores de ser o objeto de ambição e competição árdua. Na verdade, são muito melhores do que dinheiro, poder e prazeres mundanos.

O homem sem fé é uma criatura ignóbil que possui apenas ambições triviais e preocupações insignificantes. Quanto maior os seus desejos, quanto mais forte sua ambição e mais altos seus objetivos possam parecer, mais ele permanece chafurdado na lama desta terra, confinado dentro dos limites desta vida, prisioneiro de si mesmo. Ele não pode ser libertado ou elevado, a não ser que se prenda a um mundo superior a esta terra, que se prolonga para além desta vida; um mundo que se origina de Allah, Que é o Ser Primeiro e volta a Allah, o Eterno; um mundo no qual esta vida e a vida futura convergem e que não tem fim.

Consequentemente, o toque final do Capítulo fornece a cura para a ingratidão, a avidez e a mesquinharia. - Ele pinta a cena da ressurreição de uma forma que faz o homem estremecer, e tira de sua mente o amor pela riqueza e a complacência para com as coisas humanas, libertando sua alma e colocando-a a salvo das coisas mundanas: "Ignoram eles, acaso, que quando os que estão nos sepulcros forem ressuscitados, e for revelado tudo quanto encerram os corações (humanos), nesse dia, o seu Senhorr estará bem inteirado deles?" é uma cena violenta e ameaçadora na qual testemunhamos "o conteúdo disperso dos túmulos e a revelação dos segredos dos corações" que estavam firmemente guardados, mantidos á distância de qualquer um. Os termos árabes aqui utilizados para "disperso" e "revelação" são poderosos, sugerindo uma atmosfera de violência e força.

Saberá o homem quando isto acontecerá? A simples consciência de tudo é suficiente para inspirá-lo a procurar uma resposta e a explorar cada avenida na sua busca, ao tempo em que percebe tudo o que pode resultar desses movimentos violentos. Esses movimentos ágeis e ligeiros finalmente chegam ao lugar onde cada assunto e destino já está estabelecido: "nesse dia, o seu Senhor estará inteirado deles". Assim, o nosso fim está em nosso Senhor. Ele, "naquele dia" saberá tudo, nossos atos e segredos. Allah certamente sabe tudo, a todo o tempo e em todas as condições, mas seu conhecimento "daquele dia" produz alguns efeitos para os quais nossa atenção se volta aqui. é um conhecimento que necessita de um ajuste de contas e de uma recompensa. Este significado implícito é aquele aqui esboçado.

O capítulo é uma peça rápida, veemente e sem paradas, com um término repentino de sentido, expressão e ritmo. Ele reflete um método alcorânico ímpar de se expressar.


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