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Alcorão


Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb

 

A ERA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Pela era,
Que o homem está na perdição 
Salvo os fiéis que praticam o bem, aconselham-se na verdade  e recomendam-se, uns aos outros, a paciência e perseverança!

 

Às Sombras do Alcorão

Esta pequena surata de três versículos, delineia um sistema completo para a vida humana, baseado no ponto de vista islâmico. Ela define, de forma bem concisa e clara, o conceito básico da fé no contexto de sua realidade mais ampla. Em umas poucas palavras, toda a constituição islâmica foi abrangida e, de fato, a nação do Islam está descrita em suas qualidades essenciais e sua mensagem em um verso somente: o terceiro. Esta é a eloqüência de que somente Allah é capaz.

O grande fato que esta surata afirma é simplesmente que, através da história do homem, só existe um caminho valioso e confiável - aquele que a surata indica e descreve. Todos os outros caminhos levam apenas à perda e à ruína. Como se depreende, o primeiro passo é a adoção da fé, seguido das boas ações e exortação para perseguir a verdade e a determinação.

Então, o que significa a adoção da fé? Não daremos aqui sua definição jurídica. Em seu lugar, descreveremos sua natureza e sua importância na vida humana. A fé é a característica pela qual o ser humano transitório alcança a proximidade com o Absoluto e Originador Permanente do universo e de tudo que existe nele. Ele, assim, estabelece uma ligação com o mundo inteiro, que se espalha daquela única Origem, com as leis que o governam e com os poderes e potencialiddes criadas nele. Como resultado, ele escapa das fronteiras estreitas de seu eu trivial para a amplidão do universo, de seu poder inadequado para a imensidão das energias universais desconhecidas, e dos limites de sua vida curta para a "Eternidade", que somente Allah compreende. Esta proximidade garante ao ser humano um certo poder, metas ilimitadas e liberdade. Isto o dota da grande alegria da vida, sua beleza e seus componentes, com cujas "almas" ele convive em mútua amizade. Assim, a vida se torna uma jornada agradável para a humanidade em qualquer lugar e em qualquer tempo. A alegria prazerosa e o verdadeiro conhecimento íntimo da vida e de toda a criação provêm dessa felicidade duradoura. Este é um ganho incalculável, cuja falta não se pode medir.

As qualidades da fé são também precisamente aquelas da humanidade dignificada e sublime, tal como a adoração de um único Deus que eleva o homem acima da servidão a outros homens e estabelece dentre dele a verdade da igualdade de todos os homens. Assim, nem ele produz o que quer que seja, nem curva sua cabeça para ninguém que não seja o único, o Absoluto. Como resultado, o homem desfrutará da verdadeira liberdade, que se irradia de dentro de sua consciência, seguindo sua percepção do fato de que só existe um poder e um Senhor neste mundo. Esta libertação desenvolve-se espontaneamente desta consciência, porque esta é a única seqüência lógica.

Devoção é a segunda qualidade da humanidade dignificada. Esta qualidade prescreve para o homem a fonte da qual derivam seus conceitos, valores, critérios, considerações, doutrinas, leis e tudo o mais que o conduza para uma relação com Allah, com o mundo em geral e com os seres humanos. Assim, a eqüidade e a justiça substituem desejos pessoais e interesses próprios. A percepção do crente da importância do seu caminho de vida se fortalece e o mantem acima de conceitos, valores e interesses ignorantes, e acima de todos os valores estritamente mundanos. Porque ele compara estes aspectos com aqueles que provêm diretamente de Allah e que, por esta razão, precedem em valor e são os mais idôneos e os mais merecedores de devoção e consideração.

Uma terceira qualidade da fé e da humanidade dignificada, é a clareza da relação entre o Criador e o criado, a criatura limitada se conecta com a Verdade Permanente sem qualquer intermediário. O coração do homem se ilumina, sua alma se alegra e ele ganha confiança e objetivos. O medo, a ansiedade e a agitação, como também a arrogância ilícita sobre a terra e a injustificável tirania sobre as pessoas são eliminados. A determinação ao longo do caminho determinado por Allah é a próxima qualidade desta humanidade. Ela deve ser mantida por que o bem não acontece casualmente, incidentalmente ou sem deliberação, mas nasce de motivos definidos e de idéias em direção a certas metas. As pessoas unidas em torno da causa de Allah cooperam. Assim, com uma única proposta definida e uma única bandeira distinta, a comunidade muçulmana se ergueu. Para todas as gerações que, de igual modo, estão unidas, isto é verdade. Outra qualidade é a crença na dignidade do homem aos olhos de Allahl. O olhar do homem sobre si mesmo se eleva e o impede de aspirar a posições mais altas do que aquelas que o Criador definiu para ele. O conceito mais elevado que o homem pode ter de si mesmo é sentir que ele é dignificado aos olhos de Allah. Qualquer ideologia ou conceito que degrada esta avaliação e atribui uma origem desonrosa para o homem, separando-o da Sociedade Mais Alta com Allah, significa, com efeito, convidá-lo para a abjeção e depreciação, embora isto não possa ser dito tão abertamente. Consequentemente, os efeitos do Darwinismo, Freudianismo e Marxismo estão entre os mais terríveis desastres com que a humanidade se deparou. Porque eles ensinam à humanidade que toda degradação e animalismo inequívoco são fenômenos naturais com os quais devemos estar familiarizados e dos quais não precisamos nos envergonhar.

Pureza de motivação é ainda uma outra qualidade da humanidade dignificada, estabelecida pela fé. Ela faz perceber, diretamente, a dignidade do homem aos olhos de Allah., Sua supervisão sobre a consciência dos homens e Seu conhecimeno sobre os mais íntimos empreendimentos. O ser humano normal, ao qual as teorias de Freud, Karl Marx e outros do tipo não deformaram, se preserva para que outro ser humano não possa vir a conhecer que sentimentos doentios ele pode ter eventualmente. O crente sente a impressionante presença de Allah em sua consciência mais íntima e saber isto o faz tremer. Conseqüentemente, ele cuida de sua autopurificação e limpeza espiritual. Um sentido moral refinado é o fruto natural da fé em um Deus justo, gentil, compassivo, generoso e paciente, que abomina o mal e ama o bem e que conhece o olhar furtivo e o pensamento secreto. A partir daí, surge a responsabilidade do crente com os resultados oriundos de sua livre vontade e da amplitude da supervisão de Allah sobre ele. Isto estimula dentro dele uma consciència saudável, sensitividade, serenidade e previsão. é mais uma responsabilidade comum do que individual, pois é uma responsabiliade para com toda a humanidade em relação à divindade pura e simples. O crente sente tudo isto em cada ação. Ele atinge o mais elevado grau de auto-respeito e calcula os resultados antes de tomar qualquer atitude. Ele tem seu valor no mundo e o domínio completo da existência e tem um papel em seu caminhar suave.

A qualidade final é a elevação do homem acima do anseio por ganhos mundanos e a opção mais valiosa por Allah, recompensa duradoura pela qual todos os homens deveriam lutar, como o Alcorão ensina a fazer e que resulta na elevação, purificação e limpeza de suas almas. De enorme ajuda a esse respeito é o fato de que o crente tem um objetivo amplo de se instalar: entre esta vida e a próxima e entre os céus e a terra. A elevação do homem diminui sua ansiedade sobre os resultados e frutos de seus atos. Ele faz o bem somente porque é bom e porque Allah exige isto. Não lhe interessa se isto lhe acrescenta bondade adicional em sua própria curta existência. Allahl, para quem ele realiza o bem, nunca morre nem se esquece ou ignora qualquer ato dos homens.

O prêmio não é para ser recebido aqui, porque esta vida não é a última. Assim, o crente adquire o poder de continuar a realizar boas ações, sustentado por esta crença irresistível. é isto que garante que fazer o bem se torne um modo deliberado de vida e não um incidente casual ou acontecimento sem motivo. é esta crença que alimenta o crente com o poder e a força para encarar o mal, seja manifesto no despotismo de um tirano ou nas pressões da Ignorância ou na fragilidade de sua força de vontade para controlar suas paixões que surgem primeiramente de seu sentimento da brevidade de sua vida para alcançar metas e alegrias e desta incapacidade de compreender os mais profundos resultados do bem e testemunhar a vitória do bem sobre o mal. A fé agarra-se a esses sentimentos radical e perfeitamente.

A fé é a grande raiz da vida, de onde o bem nasce em suas variadas formas e à qual todos os seus frutos estão presos. O que não nasce da fé é um ramo cortado de uma árvore: murcha e perece, é, na verdade, um produção ruim, limitada e precária! A fé é o eixo para com o qual toda a estrutura fina do trabalho da vida está conectado. Sem ela, a vida é um acontencimento perdido, perdida através da busca de produção e fantasia. É a ideologia que coleciona ações diversificadas sob um sistema consonante, seguindo o mesmo caminho e engatado a um mesmo mecanismo, possuindo uma razão definida e um objetivo predeterminado.

Por conseqüência, todos os atos que não vêm desta origem e não estão relacionados com aquele caminho são completamente desconsiderados pelo Alcorão. O Islam é invariavelmente sincero sobre isto. No capítulo 14, "Abraão", lemos o que pode ser traduzido por:

As obras daqueles que negaram seu Senhor assemelham-se às cinzas esparramadas em um dia tempestuoso. Não terão poder por tudo quanto tiveram acumulado. Tal é o profundo erro.

No capítulo 24, "A Luz", temos:

Quanto aos incrédulos, as suas ações são como miragem no deserto; o sedento crerá ser água e, quando se aproximar dela, não encontrará coisa alguma.

Estas são citações claras que desacreditam toda ação que não esteja relacionada com a fé, a qual, por sua vez, dá um motivo que está conectado com a origem de sua existência e um objetivo que é compatível com o propósito do mundo em toda a criação. Esta é uma visão lógica de uma ideologia que atribui a origem de todos os eventos a Allah. Quem quer que se dissocie Dele, desaparece e perde a realidade de sua existência.

A fé é um sinal de saúde na natureza da pessoa e de firmeza em sua disposição. Indica também a harmonia do homem com a natureza do universo inteiro, e é um sinal do efeito mútuo entre o homem e o mundo à sua volta . Sua vida, tanto quanto seu comportamento, é continuamente para frente, e deve levar a uma direção que termine em sua adoção da fé, uma vez que este universo mesmo possui os sinais e testemunhos sobre o poder absoluto que o criou. Fosse o contrário, e alguma coisa estaria errada ou faltando na condição do recipiente, isto é, o ser humano - porque seria um sinal de corrupção que somente leva à perda e anula qualquer ação que poderia, de alguma maneira, ter a aparência de correta.

Tão extenso e abrangente, tão sublime e belo, tão feliz é o mundo do crente que o dos descrentes à sua volta parece-lhe minúsculo, trivial, baixo, fraco, feio e miserável - isto é, na condição de ruína e completa perda.

Fazer o que é correto é a conseqüência natural da fé e uma atividade espontânea gerada ao mesmo tempo em que a realidade da fé se instala dentro do coração e mente do homem. Porque a fé é um conceito positivo e ativo que, uma vez penetrado na consciência humana, se apressa em ativá-la para o mundo externo, transformando-se em boas ações. Este é o ponto de vista islâmico da fé. Deve ser dinâmica. Caso contrário, ela é impostora ou não existe, assim como uma flor que não pode impedir sua fragrância que, se presente, naturalmente se espalha, ou então não está na flor em absoluto.

De tudo isto, reconhecemos os valores da fé: dinamismo, atividade, criatividade e produtividade devotados ao prazer de Allah e não estreiteza, negatividade ou isolamento dentro do eu. Não são apenas intenções sinceras e inocentes que nunca se transformam em ação. Esta é uma caractereística marcante do Islam que faz da fé um poder criativo na vida prática.

Tudo isto é lógico apenas na medida em que a fé permanece como a ligação com o caminho Divinamente ordenado. Este caminho é caracterizado pelo dinamismo perpétuo no mundo entre as pessoas. Está estruturado de acordo com um plano específico e orientado em direção a um objetivo definido. Além do mais, a fé impulsiona a humanidade para implementar aquilo que é bom, puro, construtivo e útil.

Aconselharem-se uns aos outros a seguirem a verdade e a determinação, revela um quadro da sociedadde islâmica que tem sua própria entidadde muito especial, uma inter-relação única entre seus membros e um único destino e que compreende completamente, não só esta entidade, como também seus deveres. Ela percebe a essência de sua fé e quais são as boas ações, que inclui, entre outras tarefas, a liderança da humanidade ao longo de seu próprio caminho. Para executar esta tremenda obrigação, o aconselhamento e a exortação tornam-se uma necessidade.

Do significado e natureza da palavra "aconselhar", surge o mais elevado e mais magnificente quadro daquela nação ou sociedade integrada, coordenada, correta e iluminada, que fornece direito, justiça e bondade sobre esta terra. é assim que o Islam quer que a nação islâmica seja. O aconselhamento mútuo, objetivando aquilo que é correto, é uma necessidade, porque sempre é difícil manter-se o que é correto, tendo em vista que os obstáculos em seu caminho são inumeráveis: paixões e predileções egoísticas, falsos conceitos no ambiente, tirania, iniquidade e despotismo de alguns. Consqüentemente, a exortação mútua aqui desejada, significa lembrança, encorajamento e manifestação da unidade no objetivo e destinação, e igualdade na responsabilidade e encargos. Também coleta os esforços individuais em um todo unificado e, assim, aumenta os sentimentos de fraternidade em todo o guardião da verdade, porque existem outros com ele para exortar, encorajar, apoiar e amar. Este é precisamente o caso do Islam, o caminho correto de vida cujo estabelecimento exige o cuidado de uma comunidade co-ordenada, interdependente, auto-suficiente e auto-sustentável.

O conselho e a exortação para ser inabalável são também uma necessidade, porque o sustento da fé e das boas ações e o abastecimento do direito e da eqüidade são as tarefas mais difíceis de se cumprir. Isto torna a resistência completamente indispensável. A resistência é também necessária para aquele que está se adaptando ao modo islâmico de vida, confrontando os outros, quando afligido por maus tratos e privação. A firmeza inabalável é necessária quando o mal e a hipocrisia triunfam. é necessária para a travessia do caminho, construindo com a lentidão do processo de reforma, a obscuridade dos postes da estrada e a estrada longa que leava ao destino.

A exortação para a resistência e a firmeza amplia as aptidões, inspirando unidade de objetivo e direção e o sentimento de união em cada um, equipando-os com amor, força e determinação. Isto gera vitalidade na comunidade onde o verdadeiro Islam pode sobreviver e através do quel ela é implementada

Julgando pela doutrina que o Alcorão esboça para a vida do grupo vitorioso que alcança a salvação, ficamos seriamente preocupados em ver a perda e a ruína em que a humanidade hoje se encontra em qualquer lugar desta terra. Estamos chocados pelas frustrações que a humanidade sofre no mundo atual e por testemunharmos como ela se volta , em vão, contra a bondade que Allah lhe conferiu. Ficamos mais aflitos ainda, pela ausência de uma autoridade justa e confiável que se levante em prol da Verdade. Além do mais, os muçulmanos, ou antes, as pessoas que se dizem muçulmanas, estão cada vez mais afastadas de tudo o que é bom e mais avessos à ideologia, que Allah ordenou para a sua nação, e à única estrada que ele prescreveu para livrá-los da perda e da ruína. As pessoas, no domínio verdadeiro onde esta justiça tomou seu caminho, desertaram da bandeira que Allah levantou para elas, aquela da fé, para que a levantassem, ao invés, as bandeiras da raça que nunca deram a eles nada de bom através de sua história ou lhes trouxe reputação, tanto na terra como no céu. O Islam foi aquele que levantou a bandeira na total conformidade com a vontade de Allah, voando em Seu nome e identificada apenas com Ele. Sob esta bandeira, os árabes triunfaram, foram predominantes e deram à humanidade uma liderança justa, forte, iluminada e vitoriosa pela primeira vez em sua história e na longa história da humanidade. O Professor Abul Hassan Ali Nadwi esboça as características desta liderança única no capítulo 3 do livro valioso, "Islam e o Mundo":

Uma vez os muçulmanos se ergueram, rapidamente romperam as fronteiras da Arábia e se atiraram ardorosamente na tarefa do trabalho mais completo do destino humano. Sua liderança manteve a garantia de luz e felicidade para o mundo; deu a promessa do retorno da humanidade para uma sociedade ímpar, de orientação divina. Algumas das características da liderança muçulmana foram: Os muçulmanos tinham a vantagem única de estar de posse do Livro Sagrado (o Alcorão) e da lei sagrada (a Sharia). Eles não tinham que recuar em seus próprios julgamentos sobre questões vitais da vida, e assim estavam a salvo das complexas dificuldades e perigos que se subordinam a tal curso. A Palavra Divina iluminou todas as avenidas da vida para eles e os capacitou para que progredissem em direção a um caminho que nitidamente eles consideravam. Com eles não era para ser um caso de experiência ou erro. Diz o Santo Alcorão:

Pode, acaso, equiparar-se aquele que estava morto e o reanimanmos à vida, guiando-o para a luz, para conduzir-se entre as pessoas, àquele que vagueia nas trevas, das quais não poderá sair? (6:122)

Eles julgavam tendo por base a Palavra Revelada; eles não divergiam sobre os ditames da justiça e eqüidade; sua visão não estava obscurecida pela inimizade, ódio ou desejo de vingança.

Ó fiéis, sede perseverantes na causa de Deus e prestai testemunho, a bem da justiça; que o ódio aos demais não vos impulsione a serdes injustos para com eles. Sede justos, porque isso está mais próximo da piedade, e temei a Deus, porque Ele está bem inteirado de tudo quanto fazeis. (5:8)

Eles não tinham que se atirar ao fascínio repentino das profundezas da degradação. O Alcorão já os havia moldado. O Profeta os guindara a um elevado nível de nobreza e pureza, através de anos de incessante cuidado. O Profeta os condicionara a uma vida de austeridade e correção; ele havia instilado em seus corações as virtudes da humildade e da submissão corajosa; ele os havia purificado do desejo e da luta por poder, fama ou riqueza. Ele havia determinado, como um princípio fundamental da política islâmica, que "Neste governo, não devemos conceder favores a ninguém que os solicite, ou que, por qualquer meio, se mostre ansioso por isto".

Os muçulmanos foram tão afastados da hipocrisia, arrogância e maldade quanto o branco está do preto. As palavras a seguir do Alcorão não ficaram retidas neles, noite e dia, em vão:

Aquela Casa do Paraiso Nós a daremos para aqueles que não pretendam elevadas posses ou maldades sobre a terra; e o Fim será (melhor) para os justos. (28.33) ?

Ao invés de aspirarem a posições de mando e confiança, eles as exerciam com grande relutância e, quando aceitavam uma posição oficial, eles a aceitavam como um crédito de Deus, a Quem eles deviam prestar contas de seus pecados de omissão e erro, no Dia do Julgamento. Diz o Sagrado Alcorão:

Deus manda restituir a seu dono o que vos está confiado; quando julgardes vossos semelhantes, fazei-o com eqüidade. Quão excelente é isso a que Deus vos exorta! Ele é Oniouvinte, Onividente. (4:58)

Ele foi Quem vos designou legatários na terra e vos elevou uns sobre os outros, em hierarquia, para testar-vos com tudo quanto vos agraciou. Teu Senhor é Destro no castigo, conquanto seja Indulgente, Misericordiosíssimo. (6:165)

Além disso, os muçulmanos não eram agentes de qualquer raça ou país em particular; nem foram designados para estabelecer o imperialismo arábico. Sua missão foi uma missão universal de fé e liberdade. Eles estavam felizmente livres de todas as obsessões doentias de cor e nacionalidade territorial. Todos os homens eram iguais perante eles. O Alcorão, a propósito, disse:

Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado. (49:13)

Certa vez, o filho de Amr ibn al-‘As, o Governador do Egito, golpeou com um chicote um plebeu egípcio. O assunto foi levado ao conhecimento do Califa ‘Umar. O Califa não mostrou a menor consideração para com o elevado status do pai do ofensor e ordenou ao ofendido que imediatamente se vingasse pelo prejuízo causado a ele. Para o pai do ofensor ele mandou esta repreensão, "Por que você os fez escravos quando eles nasceram livres?"’

Os árabes não eram avarentos em disponibilizar os benefícios da Fé, cultura e ensinamentos para os não árabes. Eles não se preocupavam com a nacionalidade ou os laços familiares dos recebedores, quando se tratava de conceder honrarias ou posições de Estado. Na verdade, eles eram uma nuvem de felicidade que se espalhava de boa vontade por todo o mundo e da qual todos, em qualquer lugar, livremente aproveitavam de acordo com suas próprias capacidades.’ Os árabes permitiram uma parceria livre e equânime com todas as nações no estabelecimento de uma nova estrutura sócio-política e no avanço da humanidade em direção a um ideal moral mais completo e mais rico. Não havia divisões nacionais, barreiras de cor, interesses próprios, sacerdócio e nobreza hereditária na Comunidade Islâmica. Ninguém usufruía de benefícios especiais. Não havia nada que impedisse os não árabes de superar os árabes nos vários setores da vida. Mesmo como Doutores em Fiqh e Hadith, uma quantidade de não árabes alcançou a distinção pela qual os muçulmanos em geral, e os árabes em particular, se sentem orgulhosos. Ibn Khaldun escreve:

"É um acontecimento fantástico da história que, embora sua religião seja de origem árabe e a Lei que o Profeta trouxe tenha uma feição árabe, com poucas exceções, todos os homens eminentes no conhecimento do Millat Muçulmano, tanto no campo da teologia, como também nas ciências seculares, sejam não árabes. Mesmo aqueles que são árabes de nascimento, são não árabes pela educação, língua e estudos.

Durante os últimos séculos, também, os muçulmanos não árabes continuaram a produzir líderes, estadistas, sábios e santos de mérito excepcional. Obviamente, isto não teria sido possível se os árabes tivessem sido preconceituosos em partilhar suas oportunidades com as pessoas de outras nacionalidas no mundo islâmico. A humanidade tem muitos lados - físico, emocional, social, moral, mental e espiritual. Não podemos nos descuidar de qualquer um deles em benefício do outro. A humanidade não pode progredir para o seu mais alto nível a não ser que cada institnto humano desempenhe o seu próprio papel. Seria inútil esperar pelo estabelecimento de uma sociedade humana rica até que um ambiente intelectual, material, moral e espiritual seja criado, no qual um homem seja capaz de desenvolver suas potencialidades latentes em harmonia com o plano de criação de Deus. Sabemos,por experiência, que esta meta deve permanecer um sonho enquanto as rédeas da civilização não forem tomadas por aqueles que dêem a devida importância para os campos da vida, tanto material como espiritural e possam, juntamente com um sentido moral e espiritual elevado, avaliar as solicitações da natureza humana e a interrelação entre o indivíduo e a sociedade".

Ele, então, fala do reino do primeiro dos quatro Califas que governaram depois do Profeta:

"Conseqüentemente, achamos que nenhum período da história registrada da raça humana foi mais auspicioso, no verdadeiro sentido do termo, do que aquele que é conhecido entre os muçulmanos como o Khilafat-i-Rashida. Durante aquela época, todos os recursos materiais, morais e espirituais do homem foram postos em prática para torná-lo um cidadão ideal de um Estaddo ideal. O Governo!! Foi julgado pelo padrão de comparação da moralidade e a moral estabelecendo a justiça na sociedade humana. Embora a Comunidade Islâmica fosse o Estado mais poderoso e mais rido daquela época, seus heróis populares e personalidades ideais costumavam ser tirados dentre aqueles que possuiam, não glórias mundanas, mas pureza e nobreza de caráter. Não havia disparidade entre poder e moralidade. O avanço material não era permitido em detrimento do progresso moral. É por isso que a incidência de crime no mundo islâmico era muito baixo apesar da abundância de riqueza e da grande heterogeneidade de sua população. Para resumir, esta época foi a mais bela primavera que a raça humana já experimentou até os dias de hoje."

Conhecemos alguns aspectos daquele período glorioso da história humana, cuja geração viveu sob a Constituição islâmica, os pilares sobre os quais este Capítulo particular se eleva e cuja bandeira foi carregada pelo grupo de crentes que desempenhou boas ações e encorajou uns aos outros para seguirem a verdade e a serem determinados. Agora, à luz de tudo isso, qual é a "perda" que o homem está sofrendo em toda a parte e qual o tamanho de sua derrota na batalha entre o bem e o mal, por causa de um olho cego que se desviou daquela grande mensagem que os árabes transmitiram para a humanidade, quando eles levantaram a bandeira do Islam e assim assumiram a liderança da humanidade? Tendo abandonado o Islam, a nação árabe está na dianteira da caravana que está se dirigindo para a perda e a ruína. Desde então, as bandeiras da humanidade têm sido Satã, a hipocrisia, o erro, a escuridão e a perda. Nenhuma bandeira foi levantada para Allah, a verdade, a orientação, a luz ou o sucesso. A bandeira de Allah, contudo, ainda está esperando pelos braços que a levantarão e a nação sob cujo estandarte avançará em direção à justiça, a orientação e o sucesso.

Tudo isto foi dito sem a preocupação com ganhos ou perdas nesta vida que, embora de grande importância, é muito insignificante em comparação com a outra vida. Há uma vida eterna e um mundo de realidade - o verdadeiro ganho e a verdadeira perda, a obtenção ou a privação do Paraíso e o prazer de Allah. Lá, o homem realiza a mais alta perfeição permitida a ele, ou desmorona completamente, porque sua humanidade é esmagada e acaba tão sem valor como uma pedrinha ou, mesmo, em uma condição pior.

No dia quando o homem olhará o que suas mãos fizeram e o descrente gritará: "Eu queria ser pó".

Este Capítulo é inequívoco ao indicar o caminho que afasta a humanidade da perda, "exceto aqueles que tem fé e fazem as boas ações, e se aconselham uns aos outros a seguirem a verdade e se aconselham uns aos outros a serem determinados". Há um caminho certo e apenas um - aquele da fé, das boas ações e a existência de uma comunidade muçulmana, cujos membros se aconselham entre si a seguir a verdade e a mostrar resistência e firmeza.

Conseqüentemente, sempre que dois companheiros do Mensageiro de Allah estavam para se separar um do outro, eles liam este Capítulo, após o que se apertavam as mãos. Isto era o indicativo de uma garantia da aceitação completa desta doutrina, para preservar esta fé, piedade e vontade para aconselharem-se entre si a seguir a verdade e a continuar firmes. Era um pacto mútuo para permanecerem bons elementos em uma sociedade islâmica, estabelecida de acordo com aquela doutrina e preservar a fundação desta sociedade.


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