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Alcorão


Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb

 

"AN NASR" (O SOCORRO)

 

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Quando te chegar o socorro de Deus e  o triunfo,
E vires entrar a gente, em massa, na religião de Deus,
Celebra, então, os louvores do teu Senhor e implora o Seu perdão, porque ele é Remissório.

 

Às Sombras do Alcorão

Esta pequena Surata traz boas novas ao mensageiro de Allah, referentes ao advento da vitória, o triunfo e a aceitação em massa da religião de Allah, pelas pessoas. A Surata o instrui a se voltar para seu Senhor em adoração devotada e pedir, humilde, Seu perdão. Ela também apresenta a natureza e a justiça dessa Fé, e sua ideologia - como a humanidade elevada ascende a um cume ideal e resplandescente, que só é alcançado quando se atende ao chamado do Islam.

Dentre as muitas tradições referentes a esta Surata, citamos a de Imam Ahmad, a seguir:

Aisha disse que o Mensageiro de Allah, até o final de sua vida, costumava repetir frequentemente, 'Exaltações e Loas a Allah, cujo perdão imploro; arrependo-me dos meus pecados.' Ele também dizia 'Meu Senhor me disse que eu veria um sinal na minha nação. Ele, o Remissório, me ordenou que O louvasse, e que Lhe pedisse perdão quando visse este sinal. Na verdade, eu o faço. Quando a vitória for concedida por Allah, e o triunfo chegar ... (transmitido por Muslim)

Em seu comentário sobre o Alcorão, disse Ibn Kathir:

'É unanimemente aceito que a Conquista é uma referência à conquista de Meca. As tribos árabes, antes de aceitar o Islam, aguardavam um acordo sobre o conflito entre os coraixitas e os muçulmanos, dizendo: 'Se ele, Mohammad, prevalecer sobre seu povo, é porque, então, ele é um profeta.' Consequentemente, quando o acordo foi selado, eles, em sua maioria, aceitaram o Islam. Nem bem tinham passado dois anos após a conquista de Meca e toda a península arábica estava dominada pelo Islam, e, graças a Allah, todas as tribos árabes declararam sua fé no Islam.

Em seu Sahih, Al-Bukhari relatou:

Amr ibn Salamah disse que quando Meca foi conquistada, todas as tribos se apressaram em declarar, ao Mensageiro de Allah, a aceitação do Islam. Eles esperavam que isso acontecesse, dizendo: Ele será um profeta se realmente prevalecer sobre os outros.

Esta versão é uma das que concordam cronologicamente com o início da Surata, no sentido de que sua revelação foi um sinal de que algo se sucederia, com algumas instruções ao Profeta, sobre o que ele deveria fazer quando o evento ocorresse.

Há, no entanto, uma outra versão, semelhante na conclusão, e que escolhemos. É a de Ibn 'Abbas, que diz:

'Omar permitiu que eu me juntasse à companhia dos mais velhos em Badr, alguns dos quais estavam intraquilos e perguntaram por que eu tinha tido a permissão de estar com eles, quando eu era tão jovem. Mas 'Omar disse a eles 'Saibam que ele é de elevada categoria'.  Um dia 'Omar convidou a todos e a mim também. Senti que ele queria mostrar a eles quem eu era e, então,  lhes perguntou 'O que vocês entendem quando Allah diz Quando te chegar o socorro de Deus e   o triunfo?' Alguns deles responderam 'Ele nos ordenou que O louvássemos e buscássemos Seu perdão, enquanto Ele nos ajuda a triunfar e nos concede suas bênçãos.' Os outros ficaram em silêncio. Então, 'Omar me perguntou 'Você concorda com esta opinião, Ibn Abbas?' Respondi negativamente. Omar me perguntou de novo 'Então o que você diz?' Respondi que 'era um sinal de Allah para Seu Mensageiro, indicando que a vida dele estava chegando ao fim, significando que quando a vitória de Allah e o Triunfo chegar, seu fim estará próximo, portanto, louva teu Senhor e busque Seu perdão.' ''Omar comentou 'nada mais poderia acrescentar ao que você disse.' (transmitido por al-Bukhari)

Portanto, é possível que o Mensageiro, ao testemunhar o sinal de seu Senhor, tenha percebido que ele havia cumprido sua missão na terra e que estava chegando a hora de partir, o que, na verdade, era o significado do que Ibn 'Abbas tinha dito.

No entanto, existe um outro relato, narrado por Al-Hafiz al-Baihaqi, também atribuído a Ibn 'Abbas, que, segundo este relato, disse.

Quando esta Surata foi revelada, o Mensageiro de Allah chamou Fátima e disse 'Minha morte me foi anunciada'. Ela foi vista chorando e depois sorrindo. Mais tarde, ela explicou: 'Chorei quando ele me disse que sua morte estava se aproximando. Mas, ele me disse 'Acalme-se, porque você será a primeira da minha família a se juntar a mim', e, então, sorri.'

De acordo com esta última tradição citada, o tempo da revelação da Surata foi fixado como chegando depois do sinal, isto é, o Triunfo e a adesão em massa ao movimento do Islam. Quando os eventos aconteceram desta maneira, o Mensageiro de Allah sabia que sua vida logo chegaria ao fim. Mas, o primeiro relato é mais autêntico e se encaixa melhor com a orientação do início da Surata, principalmente porque o incidente com Fátima é relatado de uma forma diferente, o que dá mais peso ao que sugerimos. Esta outra forma é a seguinte:

Umm Salamah, a esposa do Profeta, disse: O Mensageiro de Allah chamou Fátima no ano da Conquista e disse alguma coisa a ela. Ela chorou. Em seguida, ele falou de novo e ela sorriu. Depois que ele morreu, indaguei dela sobre aquele acontecimento e ela me explicou. "O Mensageiro de Allah me disse que logo morreria, e eu chorei. Então ele me disse que eu seria a próxima mulher mais celebrada no Paraíso, depois de Maria, a filha de Imran, e então sorri."

Esta narrativa concorda com o sentido geral do texto alcorânico e com o que Imam Ahmad relatou e que aparece no Sahih de Muslim - isto é, havia um sinal (na Surata) entre Allah e Seu Mensageiro e quando a Conquista acontecesse ele logo encontraria seu Senhor, por isso, ele falou com Fátima da forma descrita por Umm Salamah.

Consideremos, agora, o texto real da Surata e sua injunção para todos os tempos:

Quando te chegar o socorro de Deus e   o triunfo, e vires entrar a gente, em massa, na religião de Deus, celebra, então, os louvores do teu Senhor e implora o Seu perdão, porque ele é Remissório.

O início do primeiro versículo apresenta implicitamente um conceito do acontecerá neste universo: os eventos que ocorrerem nesta vida,  o papel verdadeiro do Mensageiro de Allah e de seus seguidores no avanço do Islam, e até que ponto isto vai depender de seus esforços. Quando te chegar o socorro de Deus e  o triunfo, denota que é a vitória de Allah e Allah é Aquele que realiza no seu devido tempo, da forma como Ele decidir e com o objetivo que Ele determinar. O Profeta e seus companheiros nada tinham a ver com isso tudo e não obtiveram qualquer ganho pessoal. Basta a eles que Allah o faça por intermédio deles, indique-os como seus guardiães. É tudo que adquirem da vitória de Allah, a Conquista e a aceitação em massa das pessoas da Sua religião.

De acordo com este conceito, a responsabilidade do Mensageiro e de seus companheiros, a quem Allah escolheu e deu o privilégio de serem instrumentos de Sua vitória, era a de retornar a Ele no ápice da vitória, celebrando e expressando sua gratidão e buscando Seu perdão. Gratidão e louvação são para este Ser tão generoso, que os escolheu como padrão de comportamento de Sua religião; pela misericórdia e bênção Ele fez sua religião vitoriosa; e pela Conquista de Meca, e pela aceitação em massa do Islam.

Buscamos Seu perdão por vários motivos, sentimentos imperfeitos, como a vaidade, que algumas vezes entram sorrateiramente no coração de alguém, num momento de vitória esmagadora alcançada após uma longa luta. Os seres humanos dificilmente conseguem impedir  e, por isso, o perdão de Allah deve ser buscado. O perdão também deve ser procurado pelo que pode se insinuar no coração durante uma luta longa e cruel, e pela arrogância resultante da demora da vitória ou dos efeitos do desespero convulsivo, como o Alcorão nos mostra em algumas de suas partes:

Pretendeis, acaso, entrar no Paraíso, sem antes terdes de passar pelo que passaram os vossos antecessores? Açoitaram-nos a miséria e a adversidade, que os abalaram profundamente, até que mesmo o Mensageiro e os fiéis, que com ele estavam, disseram: Quando chegará o socorro de Deus? Acaso o socorro de Deus não está próximo? (2:214)

Também é necessário buscar o perdão de Allah para os erros, louvando-O e agradecendo-O por Suas bênçãos, que são eternas e infinitas.

E se pudesses contar as bênçãos de Allah, jamais serias capaz de numerá-las (16:18)

No entanto, muito dos esforços que se façam a esse respeito, nunca são suficientes. Um outro pensamento tocante é que a busca pelo perdão no momento do triunfo estimula a mente das pessoas com o sentimento de impotência e imperfeição, numa época em que  auto-estima e vaidade parecem naturais. Todos esses fatores asseguram que nenhum tirano afligirá o conquistado. O vitorioso é levado a perceber que é Allah quem o indicou, um homem sem poder e destituído de qualquer força, para um objetivo determinado; portanto, o triundo e a conquista, assim como a religião, são d'Ele, para quem tudo retornará no final.

Este é o ideal sublime, dignificado, que o Alcorão exorta as pessoas a buscarem, um ideal no qual a celebração do homem está em esquecer-se de seu próprio orgulho, e onde a liberdade de sua alma está na submissão a Allah. A meta é a total liberdade da alma humana de suas algemas egoístas, sua única ambição é alcançar o prazer de Allah. Com essa liberdade é preciso praticar um esforço que ajude o homem a florescer no mundo, promover a civilização humana e a fornecer orientação correta, construtiva, uma liderança justa devotada a Allah.

Por outro lado, os esforços do homem para se libertar das garras do egoísmo, algemado pelo sabor das coisas mundanas, ou subjugado aos seus desejos, são inteiramente em vão, a menos que ele se liberte. Allah ultrapassa a tudo, principalmente no momento do triunfo e da coleta dos despojos.

Este padrão de comportamento, que Allah quer que a humanidade aspire e alcance, foi um aspecto característico dos Profetas em todos os tempos. Foi o caso do profeta Yusuf (José), quando tudo o que ele mais almejava foi conseguido e seu sonho tornou-se realidade:

José honrou seus pais, sentando-os em seu sólio, e todos se prostraram perante eles; e José disse: Ó meu pai, esta é a interpretação de um sonho passado que meu Senhor realizou. Ele me beneficiou ao tirar-me do cárcere e ao trazer-vos do deserto, depois de Satanás ter semeado a discórdia entre meus irmão e mim. Meu Senhor é Amabilíssimo com quem Lhe apraz, porque Ele é o Sapiente, o Prudentíssimo. (12:100)

Então, no clímax do momento, José afastou-se das comemorações e dos júbilos e se voltou para seu Senhor, louvando-O com o mais profundo sentimento de gratidão:

Ó Senhor meu, já me agraciaste com a soberania e me ensinaste a interpretação das histórias! Ó Criador dos céus e da terra, Tu és o meu Protetor neste mundo e no outro. Faze com que eu morra muçulmano, e junta-me aos virtuosos. (12:101)

Os sentimentos de arrogância e renome, a felicidade do reencontro com a família, tudo se desvanece e o que sobresai é José pedindo a Allah que o ajude a permanecer submisso (muçulmano) até a sua morte e que permita que ele se junte aos servos justos. Isto também aconteceu ao Profeta Salomão, quando teve relance do trono da Rainha de Sabá:

E quando Salomão viu o trono ante ele disse: Isto provém da graça de meu Senhor, para verificar se sou grato ou ingrato. Pois quem agradece, certamente o faz em benefício próprio; e saiba o mal-agradecido que meu Senhor não necessita de agradecimentos. (27:40)

E assim foi com Mohammad durante toda a sua vida. No momento do triunfo, quando a Conquista de Meca foi alcançada, ele entrou montado em seu camelo, com sua cabeça curvada. Ele esqueceu da alegria da vitória e, agradecido, curvou sua cabeça em busca do perdão de seu Senhor, embora ele tivesse conquistado Meca, a cidade cujo povo o tinha perseguido e expulsado. Esta também foi a prática de seus companheiros, depois dele.

Assim foi aquela grande geração de homens que alcançou um elevado grau de padrão de grandeza, poder e liberdade.

 


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