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Alcorão


Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb

 

OS ESPARTO

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Que pereça o poder de Abu Lahab e que ele pereça
também!
De nada lhe valerão os seus bens, nem tudo quanto lucrou.
Entrará no fogo flamígero,
Bem como a sua mulher, a portadora de lenha,
Que levará ao pescoço uma corda de esparto.

 

Às Sombras do Alcorão

Abu Lahab (pai da chama), cujo verdadeiro nome era Abduluzza ibn Abdulmuttalib, era tio do Profeta. Ele era assim chamado por causa da aparência radiante que exibia em seu rosto. Juntamente com sua esposa, Abu Lahab era um dos mais inflexíveis inimigos do Mensageira e das idéias que ele propagava.

Ibn Ishaq contou um relato feito por Rabiah ibn 'Abbad Ad-Daili, que dizia:

"Quando eu era jovem, certa vez, eu e meu pai estávamos assistindo ao Mensageiro de Allah, pregando o Islam para as tribos árabes, dizendo: "'O filhos de ... (chamando cada um por seus respectivos nomes), eu sou o Mensageiro de Allah, enviado para ordenar-lhes que se submetam a Ele e O adorem e nada mais além d'Ele, e que acreditem em mim e me protejam até que eu cumpra o que Allah me confiou." Um homem de rosto brilhante, estrábico, estava atrás de mim e disse, após o término da fala do Mensageiro, 'Ó filhos ... este homem quer que vocês renunciem a Al-lat e a Al-Uzza (os dois mais importantes ídolos adorados pelos árabes pagãos) e a seus gênios associados, os filhos de Malik ibn Aqmas, e os substituam por esses absurdos e inovações trazidos por ele. Não lhe dêem ouvidos e não sigam o que ele prega.' Perguntei, então, a meu pai quem era aquele homem e ele me disse que era Abu Lahab, o tio do Profeta." (Imam Ahmad e Tabarani também têm a mesma versão).

Este é apenas um exemplo da intimidação de Abu Lahab, e da má-vontade em relação ao Mensageiro e a seu chamado. Sua esposa Arwa, filha de Harb Ibn Ummya, um irmã de Abu Sufyan, sempre o apoiou em sua implacável e virulenta campanha.

Assim era a atitude de Abu Lahab em relação ao Profeta, desde o início de sua Divina missão. Al-Bukhari contou, sob a autoridade de 'Ibn Abbas, que certo dia, o Profeta foi a Batha' (uma grande praça em Macca), subiu uma colina e reuniu o povo coraixita. Quando todos estavam reunidos, Mohammad se dirigiu a eles e disse,

Se eu dissesse a vocês que um inimigo está se aproximando e que atacará amanhã pela manhã, ou à tarde, vocês acreditariam em mim? 'Sim?, responderam. 'Então, escutem-me' e ele prosseguiu, ' eu os estou advertindo de uma tormenta horrível (de Allah).' Abu Lahab estava lá e partiu para cima do Profeta, 'Maldito seja!' Foi para isto que nos chamou aqui?' Uma outra versão diz: 'Abu Lahab se levantou, sacudindo a poeira de suas mãos, e disse 'Malditos sejam todos os seus dias ...') . E, então, o capítulo foi revelado.

Um outro exemplo foi quando o clã hashemita (o próprio clã do Profeta) decidiu acatar a fidelidade tribal e, sob a liderança de Abu Talib, protejer o Profeta, apesar da rejeição à religião que ele pregava. Abu Lahab foi o único a tomar posição diferente. Ele se juntou aos coraixitas e estava com eles na assinatura do documento que impôs boicote total ao clã Hashimi.

Abu Lahab também ordenou que seus dois filhos renunciassem às filhas de Mohammad, com quem eles estavam comprometidos antes de Mohammad se tornar profeta e, dessa forma, onerá-lo com as despesas de manutenção e bem-estar delas.

Portanto, Abu Lahab e sua esposa, Arwa, que também era chamada de Umm Jamil, continuaram em sua persistente campanha contra o Profeta e sua mensagem. O fato de que eles eram vizinhos próximos do Profeta, fez com que a situação ficasse ainda pior. Dizem que Umm Jamil costumava pegar espinhos e farpas e os colocava no pátio da casa do Profeta (embora se pense que a frase "a portadora de lenha", no capítulo, seja usada metaforicamente para indicar suas mentiras e maldades contra o Profeta).

Este capítulo foi revelado como um contra-ataque contra seus companheiros hostis, Allah tomou a Si o comando da batalha.

Que pereça o poder de Abu Lahab e que ele pereça também.

O termo árabe, aqui traduzido como "perecer" , também significa fracasso, remoção. O termo é usado duas vezes e em dois diferentes sentidos. A primeira vez como uma súplica, enquanto que na segunda ele significa a concessão da súplica e a sua realização. Assim, em um pequeno versículo, uma ação é realizada e as cortinas se fecham sobre a cena da batalha completada. O que acontece em seguida, é meramente uma descrição dos fatos, com o reparo de que "sua fortuna e seus lucros de nada lhe valerão". Ele não tem saída. Ele está derrotado, vencido e amaldiçoado. Este era o seu destino neste mundo, mas, no além, "entrará no fogo flamíneo". E sua mulher, a portadora de lenha, ficará lá com ele, tendo em volta de seu pescoço uma corda de esparto, com a qual ela será levada ao Inferno; ou a qual ela usava para apertar os fardos de lenha, de acordo com a interpretação, seja metafórica seja literal, que o texto adota.

A linguagem deste capítulo atinge um grau notável de bela harmonia entre o assunto em questão e a atmosfera construída em volta dele. Abu Lahab entrará no fogo com "Lahab", cujo termo árabe significa as chamas do fogo; e sua mulher, que carrega lenha, um combustível, se encontrará com o mesmo fogo, tendo à volta de seu pescoço um esparto. "Jahannam", ou Jehanna com a ardente "Lahab" queimando, será habitado por Abu Lahab. E sua mulher, que oculta espinhos e farpas, material que significativamente, pode aumentar as chamas de um fogo, e os coloca no caminho do Profeta, será arrastada para o Inferno, com uma corda amarrada em seu pescoço, embrulhada como um fardo de lenha. Que perfeita a comparação entre as palavras e as cenas; a punição é apresentada como sendo da mesma natureza das ações - lenha, cordas, fogo e Lahab!.

Foneticamente, as palavras se arrumam de um jeito que cria uma maravilhosa harmonia entre os sons feitos pelo empurrar da lenha e o pescoço pelas cordas. Ler, em árabe, o versículo, "Tabbat yada abi Lahabin watab" , faz com que sintamos um puxão, análogo àquele dos fardos de lenha ou do arrastar, sem querer, de uma pessoa pelo pescoço, direto para o fogo violento; tudo está em harmonia com o tom belicoso, violento e furioso que perpassa o tema do capítulo. Portanto, em cinco pequenos versículos, de uma das mais curtas suratas do Alcorão, as melodias vocais se enquadram cuidadosamente com os movimentos reais da cena descrita.

Este estilo, extremamente rico e brilhante, levou Umm Jamil a reclamar que o Profeta estava, na verdade, "satirizando" a ela e a seu marido. A arrogante árabe não suportava ser citada com tal sentença humilhante, "a portadora de lenha, que levará uma corda de esparto em volta do pescoço". Seu ódio ficou ainda mais violento quando a surata se tornou popular entre as tribos árabes, que adoravam este estilo literário!

Ibn Ishaq relatou:

" Foi-me dito que Umm Jamil, tendo ouvido o que o Alcorão falava sobre ela e seu marido, chegou ao Profeta, que estava com Abu Bakr na Ka'aba. Ela carregava um punhado de pedras. Allah desviou seu olhar do Profeta e ela somente viu Abu Bakr, a quem disse, "Onde está o seu confrade? Ouvi dizer que ele está me satirizando. Se eu o encontrar atiro estas pedras em seu rosto. Eu também tenho talento para a poesia." Em seguida, ela disse, antes de partir: Não obedecemos a desprezíveis! E nem aceitaremos o que ele diz!" Abu Bakr se voltou para o Profeta e disse "Você acha que ela o viu?" "Não", respondeu o Profeta, "Allah fez com que ela não me visse.

Al-Hafiz Abu Bakr Al-Bazar também relatou, pela autoridade de Ibn Abbas, que quando esta surata foi revelada, a esposa de Abu Lahab estava em busca do Profeta. Quando ele estava com Abu Bakr, ela apareceu e este sugeriu ao Profeta "Ela não o incomodará se você se ocultar". "Não se preocupe", ele disse de um jeito calmo. "Ela não me verá". Ela chegou até Abu Bakr e disse "Seu amigo nos satirizou!" Abu Bakr respondeu "Pelo Senhor desta Ka'aba, ele não o fez". "Ele não é poeta e o que ele diz não é poesia," ele acrescentou. Ela, então, disse, "Eu acredito em você" e foi embora. Abu Bakr perguntou ao Profeta se ela o havia visto e ele disse "Não, um anjo estava me protejendo todo o tempo em que ela esteve aqui." Tal era a sua fúria e indignação com o que achava ser poesia e que Abu Bakr imediatamente refutou.

Portanto, a cena humilhante de Abu Lahab e sua esposa foi registrada para durar para sempre neste livro eterno, o Alcorão, para mostrar a cólera de Allah com eles, por sua animosidade contra Seu Mensageiro e as idéias que ele pregava. Todos aqueles que escolhem semelhante atitude em relação ao Islam, consequentemente, encontrarão a mesma desonra, calamidade e frustração, tanto nesta vida como na outra, como punição adequada e recompensa!


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