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Alcorão |
Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb
Às Sombras do Alcorão
Eu sei que vocês estão carentes e rodeados de inimigos e temores ... Venham aqui para terem segurança, alegria e paz ... Assim, os dois capítulos se iniciam com, Diga: Amparo-me no Senhor da Alvorada, e, Diga: Amparo no Senhor dos humanos Muitos relatos foram transmitidos com relação à revelação e à popularidade deste capítulo e todos eles se encaixam bem com a interpretação acima, que é a de Allah, o Misericordioso, mostrar os seus cuidados e oferecer abrigo aos Seus servos fiéis. O próprio Mensageiro de Allah amava este capítulo, como bem transparece em suas tradições. De acordo com Uqba ibn 'Amir, o companheiro
do Profeta, o Mensageiro certa vez disse: Jabir, o companheiro do Profeta, disse: O Mensageiro de Allah certa vez me disse, 'Jabir, recite!' e eu perguntei 'O que devo recitar?' Ele respondeu, 'Recite "Diga: Amparo-me no Senhor da Alvorada" e "Diga: Amparo-me no Senhor dos homens."' E assim o fiz e ele comentou, 'Recite-os (tantas vezes quanto você puder) porque você jamais recitará nada que seja equivalente a eles.' (Transmitido por Na-Nissai). Tharr ibn Hubaish disse que ele havia perguntado a Ubay ibn Ka'ab, o companheiro do Profeta, sobre Al-Um'awwathatain (como os dois capítulos são chamados) dizendo, "Abu Al Munthir, 'seu irmão, Ibn Masoud, diz isso e aquilo. (Por algum tempo, Ibn Masoud pensou que esses dois capítulos não eram parte do Alcorão, porém, mais tarde, ele admitiu seu erro). O que você pensa a respeito?" Ele respondeu: Eu perguntei ao Mensageiro de Allah sobre isto e ele me disse que havia sido instruído a dizer o contexto dos capítulos e que ele havia seguido aquela instrução. Certamente que dizemos o mesmo que o Mensageiro de Allah disse. (Transmitido por Al-Bukhari). Todos esses relatos lançam poderosa luz sobre aquele fato implícito, qual seja, a bondade e o amor de Allah, para os quais os dois capítulos chamam nossa atenção. Neste capítulo, Allah, o Exaltado, se refere a Ele mesmo pelo Seu atributo, O Senhor da Alvorada. O termo árabe "falaq" significa "alvorada", mas também pode significar "todo o fenômeno da criação", referindo-se a tudo que tem vida. Esta interpretação está amparada no que Allah diz no Capítulo 6, "O Gado": Deus é o germinador das plantas graníferas e das nucleadas! Ele faz surgir o vivo do morto e extrai o morto do vivo. Isto é Deus! Como, pois, vos desviais. É Ele Quem faz despontar a aurora e Quem vos estabelece a noite para o repouso; e o sol e a lua, para cômputo (do tempo) (6:95-96) Se adotarmos o significado "alvorada", então o refúgio que buscamos contra o invisível e o misterioso é com o Senhor da Alvorada, Que confere segurança, da mesma forma que Ele ilumina o dia. Se, contudo, "faliq" é tomado no sentido de "criação", então o refúgio contra o mal de algumas criaturas deve ser buscado no Senhor de toda a criação. Em ambos os casos, a harmonia com o tema do capítulo foi mantida. Do mal de quem por Ele foi criado. A frase não contém exceções ou especificações. O contato mútuo entre as várias criaturas, embora indubitavelmente seja vantajoso, causa alguns males. O crente se ampara em Allah, a fim de encorajar o bem que tal contato produz. Porque foi Ele quem criou todas as criaturas e, certamente, só Ele é capaz de propiciar as circunstâncias certas que as levam para um caminho onde somente o lado bom de seus contatos prevalece. Do mal da tenebrosa noite (ghasiq), quando se estende (waqab). Do ponto de vista linguístico, "ghasiq" significa "despejar, vazar, substancialmente" e "waqab" é o nome dado a um pequeno buraco na montanha, através do qual a água é lançada, "waqab" é o verbo denotativo de tal ação. Aqui, o significado mais provável é a noite, com tudo que a acompanha assim que, rapidamente, encobre todo o mundo. É terrível em si mesma; além disso, enche o coração com a possibilidade de um desconforto inesperado, desconhecido, causado por uma besta selvagem, um vilão inescrupuloso, um inimigo golpeador ou uma cobra sibilante, assim como pelas ansiedades e preocupações (que traz depressão e intranqüilidade) e os maus pensamentos e as paixões, que são passíveis de serem revividas no escuro da noite, durante o estado de solidão da pessoa. Este é o mal contra o qual o crente necessita da proteção de Allah. Do mal dos que praticam ciências ocultas. Rrefere-se aos vários tipos de magia, seja no sentido de enganar os sentidos físicos humanos, seja influenciando a força de vontade das pessoas e projetando idéias em suas emoções e mentes. (Este versículo, em particular, se refere a uma espécie de ofício de bruxa exercido pelas mulheres na Arábia daquele tempo e que consistia em amarrar nós em cordas e as atirar com uma imprecação). A magia é a produção de ilusões, sujeita aos desígnios de um mágico e que não oferece nenhuma espécie de fatos novos ou altera a natureza das coisas. É assim que o Alcorão descreve a magia, quando conta a história de Moisés no Capítulo 20, "Ta Há": Perguntaram: Ó Moisés, arrojarás tu ou seremos nós os primeiros a arrojar? Respondeu-lhes Moisés: Arrojai vós! E eis que lhe pareceu que suas cordas e cajados se moviam, em virtude da sua magia. Moisés experimentou certo temor. Asseguramos-lhes: Não temas, porque tu és superior. Arroja o que levas em tua mão direita, que devorará tudo quanto simularem, porque tudo o que fizerem não é mais do que uma conspiração de magia e jamais triunfará o mago, onde quer que se apresente. (20:65-9) Assim, suas cordas e cajados, na verdade não se transformaram em cobras, embora assim parecesse aos observadores, inclusive Moisés, a ponto de se sentir inquieto por dentro. Ele estava contido pela transformação de seu cajado numa cobra verdadeira, feita por Allah, a fim de destuir os impostores. Esta é a natureza da magia e como devemos concebê-la. Através dela alguém é capaz de influenciar as mentes de outras pessoas, ensejando que pensem e ajam de acordo com as suas sugestões. Não devemos seguir adiante com este assunto. Ele é, na verdade, um mal contra o qual devemos buscar a proteção de Allah. Umas poucas narrativas pouco confiáveis, algumas das quais foram citadas por fontes autênticas, afirmam que Labid ibn 'Assam, um judeu, hipnotizou o Profeta por muitos dias ou meses em Medina e assim, de acordo com alguns relatos, ele sentiu que havia tido uma relação marital com uma de suas esposas, quando na realidade ele não havia tido; ou, de acordo com outros relatos, ele pensava que havia feito alguma coisa quando ele não havia feito. Este capítulo e o próximo, "Os Humanos", de acordo com essas narrativas, foram revelados para que, ao recitá-los, ele pudesse se livrar daquele estado. Mas, certamente, estas estórias contrariam a idéia da infalibilidade do Profeta no que se refere à palavra e aos atos, e estão em desacordo com a crença de que todas as suas ações são o expoente do modo de vida islâmico para todos os muçulmanos. Acima de tudo, elas conflitam com a negativa enfática do Alcorão, de ele ser influenciado por qualquer espécie de magia, conforme afirmam alguns dos opositores do Islam. Conseqüentemente, rejeitamos tais estórias pela simples razão de que o Alcorão é o árbitro final e que essas tradições narradas são deixadas de lado quando se trata de matéria concernente à fé. Estas estórias não tiveram um patrocínio adequado e tal patrocínio é uma qualificação essencial para que uma tradição seja tida como autêntica. O que mais enfraquece a estória, contudo, é o fato de que os dois capítulos foram revelados em Macca, enquanto que tais fatos são tidos como tendo acontecido em Medina! Do mal do invejoso, quando inveja! A inveja é um mal, é uma reação rancorosa que a pessoa sente em relação a outra que recebeu algum favor de Allah. É também acompanhada por um forte desejo de aniquilação de tais favores. Algum prejuízo para o invejado pode advir desse rancor sem fundamento. Pode significar uma saída para uma ação física direta do invejoso ou pode se originar somente de sentimentos que foram suprimidos. Não devemos nos inquietar quando aprendemos que existem inumeráveis mistérios inexplicáveis na vida. São muitos fenômenos pelos quais nenhuma explicação foi oferecida até agora. A telepatia e a hipnose são alguns exemplos de tais fenômenos. Muito pouco se sabe a respeito dos mistérios da inveja e o pouco que se sabe foram descobertos por acaso ou coincidência. De qualquer modo, há na inveja um mal contra o qual o amparo e proteção de Allah devem ser buscados. Porque Ele, o Mais Generoso, o Mais Misericordioso e o Único que conhece tudo, orientou Seu Mensageiro e seguidores a buscar o Seu amparo contra o mal. As escolas islâmicas unanimemente concordam com o pensamento de que Allah sempre proteje Seus servos de tais males, sendo que eles devem buscar a Sua proteção da forma como Ele orientou. Al-Bukhari relatou que Aisha disse que o Profeta soprava nas mãos quando ia dormir e recitava: Diga: Ele é Allah, o Único ..." e, "Diga: Amparo-me no Senhor da Alvorada ..." e "Diga: Amparo-me no Senhor dos humanos" e começando pela cabeça, rosto e parte da frente do seu corpo, ele corria as palmas das mãos sobre o resto de seu corpo. Ele fazia isto três vezes. (Também transmitido por muitos outros tradicionalistas).
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