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Alcorão |
Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb
Às Sombras do Alcorão
Em primeiro lugar, temos uma abertura ambígüa, que cria um ar de medo e expectativa. O ritmo aqui empregado é rápido e vibrante e ajuda a evocar sentimentos de medo, surpresa e admiração: Pelos que arrebatam violentamente, pelos que extraem veementemente, pelos que gravitam serenamente; pelos que procuram sobrepujar repentinamente, arranjadores (para a execução) das ordens (do seu Senhor)! Este equívoco, agitando o início do Capítulo, é seguido da primeira das cenas da vida após a morte. A cena divide o estilo e a cadência com a abertura, servindo, assim, de base para o cenário: No dia em que tudo o que poderá se comover, estará em comoção, e em que acontecerá, pela segunda vez (a comoção), nesse dia, os corações baterão agitados, enquanto os olhares estarão humildes. Dirão: Quê! Porventura voltaremos ao nosso estado primitivo, mesmo que também sejamos ossos deteriorados? Dirão (mais): Tal será, então, um retorno de perdas! Porém, certamente, será um só grito, e ei-los plenamente acordados. Após difundir um certo ar de espanto, o Capítulo faz um relato do fim encontrado por alguns dos descrentes na história de Moisés e o Faraó. Neste trecho, o ritmo é calmo e mais relaxado para se adequar ao estilo da narrativa: Conheces (ó Mensageiro) a história de Moisés? Seu Senhor o chamou , no vale sagragado de Towa, (e lhe disse): Vai ao Faraó, porque ele transgrediu, e dize-lhe: Desejas purificar-te, e encaminhar-te até o teu Senhor, para O temeres? E Moisés lhe mostrou o grande sinal, porém (o Faraó) desmentiu (aquilo) e se rebelou; então, rechaçou-o, contendendo tenazmente. Em seguida, congregou (a gente) e discursou, proclamando: Sou o vosso senhor supremo! Porém, Deus lhe infligiu o castigo e (fez dele) um exemplo para o outro mundo e o presente. Certamente, nisto há um exemplo para o temente. Este relato serve como introdução para o grande princípio que o Capítulo pretende estabelecer. Deixando a história de lado, o Capítulo apanha o livro aberto do universo. Desenha algumas das grandes cenas do universo que testemunham o poder ilimitado do plano cuidadoso de Allah, o seu Criador, Aquele que controla o seu destino tanto nesta vida como na outra. Estas cenas são aqui apresentadas em um estilo poderoso e ritmo forte, em harmonia com a abertura do Capítulo e sua cadência geral. Quê! Porventura a vossa criação é mais difícil ou é a do céu, que Ele erigiu? Elevou a sua abóbada e, por conseguinte, a ordenou, escureceu a noite e, (consequentemente) clareou o dia; e depois disso dilatou a terra, da qual fez brotar a água e os pastos, e fixou, firmemente, as montanhas, para o proveito vosso e do vosso gado. Após toda esta introdução de toques inspiradores, vem a afirmação referente ao "Grande Evento ", acompanhada da distribuição de recompensas pelas ações feitas nesta vida. Tais recompensas são apresentadas de modo a se adaptarem harmoniosamente com o Grande Evento: Mas, quando chegar o grande evento, o dia em que o homem se há de recordar de tudo quanto tiver feito, e a fogueira for exposta visivelmente, para quem a quiser ver, então, o que tiver transgredido, e preferido a vida terrena, esse certamente terá a fogueira por morada. Ao contrário, quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado em relação à luxúria, terá o Paraíso por abrigo. Neste ponto, quando somos oprimidos pelos efeitos das cenas do Grande Evento, o Inferno trazido tão próximo, o fim dos transgressores que preferem esta vida à próxima, e os tementes que tiverem reprimido seus caprichos, neste ponto, o Capítulo se volta para aqueles que negam a ressurreição e pedem ao Profeta para marcar a hora. O ritmo aqui é soberbo: a ele se soma o sentimento de temor produzido pelo relato da Hora do fim do mundo. Interrogar-te-ão acerca da Hora: Quando aportará? Com quem estás tu (envolvido), com tal declaração? Só ao teu Senhor incumbe tal conhecimento. Tu és somente um admoestador, para quem a teme. No dia em que a virem, parecer-lhes-á não terem permanecido no mundo mais do que um entardecer ou um amanhecer da mesma. Talvez devêssemos perceber que estes versículos terminam com o som de "aaha", que prolongam a métrica, intensificando o efeito de majestade e surpresa. Pelos que arrebatam violentamente, pelos que extraem veementemente, pelos que gravitam serenamente; pelos que procuram sobrepujar repentinamente, arranjadores (para a execução) das ordens (do seu Senhor)! Alguns comentaristas dizem que estes versículos se referem aos anjos que arrebatam as almas veementemente, se movem ativamente com facilidade e rapidez, gravitam no mundo externo, se sobrepujam a outras criaturas na fé e no cumprimento dos mandamentos de Allah e se desincumbem de todos os assuntos que lhes são atribuídos. Outros comentaristas afirmam que os versículos se referem às estrelas que arrebatam porque giram em suas órbitas, movem-se rapidamente em fases, navegam no espaço, e se sobressaem porque se deslocam rápido e realizam certos fenômenos e resultados que lhe são confiados por Allah e que afetam a vida na terra. Um terceiro grupo acha que os arrebatadores, corredores, navegadores e os que se sobrepujam são os planetas embora os condutores dos assuntos sejam os anjos. Um outro grupo acredita que os arrebatadores, corredores e navegadores sejam os planetas, enquanto os anjos são os que se sobrepujam e conduzem os assuntos. Qualquer que seja o significado, temos a impressão, pelo sentido geral do Alcorão, que mencioná-los desta forma particular produz um choque e um sentimento de expectativa de alguma coisa temível. Portanto, eles contribuem para preparar nossas mentes para o relato terrível do primeiro e segundo abalos e do Grande Evento a seguir. Talvez seja melhor não nos aprofundarmos em maiores detalhes para tentar explicar e discutir esses versículos. Talvez seja mais útil deixá-los produzir seus efeitos naturalmente. O Alcorão procura alcançar seu objetivo de despertar o coração dos homens de diferentes maneiras. Se fizermos assim, simplesmente estaremos seguindo o exemplo de Omar ibn Al-Khattab. Uma vez, ele leu o Capítulo intitulado "O Austero". Quando ele chegou ao versículo que dizia "wafakhatan wa abba" ele pensou: "Conhecemos as árvores frutíferas 'fakihatan', mas, o que quer dizer 'abba'? Porém, ele se recriminou dizendo: "Você, Ibn Al-Khattab, está realmente exigente hoje! Qual o problema se você não souber o significado de uma palavra usada no livro de Allah?" Então, ele falou para as pessoas que estavam em volta: "Sigam o que vocês entenderem deste livro; o que não compreenderem podem deixar de lado." Sua afirmação, que objetivava desencorajar as pessoas a tentarem explicar o que poderia ser um equívoco para elas sem o apoio de uma autoridade perfeitamente idônea, representa uma atitude de veneração para com as palavras de Allah, algumas das quais podem ter sido deliberadamente equivocadas a fim de atingir a um certo objetivo. A abertura do Capítulo toma a forma de um juramento, para confirmar o evento relatado nos seguintes poucos versículos: No dia em que tudo o que poderá se comover, estará em comoção, e em que acontecerá, pelo segunda vez (a comoção). Neste dia, os corações baterão agitados, enquanto os olhares estarão humildes. Dirão: Quê! Porventura voltaremos ao nosso estado primitivo, mesmo que também sejamos ossos deteriorados? Dirão (mais): Tal será, então, um retorno de perdas! Porém, certamente, será um só grito, e, ei-los plenamente acordados. Tudo indica que será a terra a sofrer a comoção. O Alcorão, em outro Capítulo, diz: Será o dia em que haverão de tremer a terra e as montanhas (73:14) Também parece que a segunda comoção será no céu, porque ele segue a terra e testemunha a sua própria revolta que provocará a separação e dispersará as estrelas. Uma outra alternativa sugere que este abalo se refere ao primeiro som da Trombeta que abalará e estremecerá a terra, as montanhas e toda a criação e fará com que todos aqueles que estão nos céus e na terra caiam desmaiados exceto aqueles a quem Allah poupou. A segunda comoção seria o segundo sopro da Trombeta que trará a vida de volta a toda a criação (conforme dito no Capítulo 39:68) . Seja qual for a alternativa correta, os versículos fazem o coração dos homens se sentir abalado e sacudido pelo medo e apreensão. Eles são a preparação para que se perceba a espécie de terror que estará nos corações no dia do julgamento: Nesse dia, os corações baterão agitados, enquanto os olhares estarão humildes. Portanto, é uma combinação de preocupação, medo, humilhação e colapso. Isto é o que acontecerá naquele dia, e é o fato pelo qual o juramento da abertura do Capítulo procura estabelecer. Tanto no sentido como no ritmo, a descrição feita por esses versículos se encaixa perfeitamente com a abertura. O Capítulo prossegue falando da surpresa e admiração que sentirão quando forem ressuscitados: Dirão: Quê! Porventura voltaremos ao nosso estado primitivo, mesmo que também sejamos ossos deteriorados? Imaginam se não estão retornando à vida de novo. Espantados, eles indagam como isto pode acontecer após eles já estarem mortos há tanto tempo que seus ossos já se desmancharam. Então, eles percebem que esse despertar não os leva de volta à vida na terra, mas a uma segunda vida. Neste ponto, sentem a grande perda e gritam: Dirão: Tal será, então um retorno de perdas! Eles não acreditaram em tal retorno e não se prepararam para isto e, assim, eles têm tudo a perder. O comentário alcorânico é afirmar o que, na verdade, acontecerá Porém certamente, será um só grito, e, ei-los plenamente acordados. A rajada é um grito, mas é descrito aqui como uma rajada para enfatizar sua força e desferir uma nota de harmonia perfeita entre esta cena e as outras da surata. O termo aqui usado para "a terra" se refere a uma terra branca brilhante que é a terra da ressurreição. Não sabemos exatamente a sua localização. Tudo o que sabemos a respeito é o que o Alcorão, ou as tradições autênticas do Profeta relatam. Não é nossa intenção acrescentar nada por conta que não seja autorizado. Outra afirmação alcorânica nos leva à conclusão de que esta rajada é mais provavelmente o segundo som da Trombeta, isto é, o som da ressurreição. A expressão usada aqui nos dá a sensação de rapidez. A rajada, por si só, está associada à velocidade e o ritmo geral da surata é de rapidez. Os corações terrificados também baterão mais rápido. Por consequência, a harmonia perfeita entre o sentido, o ritmo, as cenas e a surata, como um todo. O ritmo, então, decresce um pouco, a fim de seguir o estilo da narrativa. Em seguida, tomamos conhecimento do que aconteceu a Moisés e o Faraó, e o fim que o Faraó encontrou após ter tiranizado e transgredido todas as fronteiras: Conheces a história de Moisés? Seu Senhor o chamou, no vale sagrado de Tôwa, (e lhe disse): Vai ao Faraó, porque ele transgrediu, e dize-lhe: Desejas purificar-te, e encaminhar-te até o teu Senhor, para O temeres? E Moisés lhe mostrou o grande sinal, porém (o Faraó) desmentiu (aquilo) e se rebelou; então, rechaçou-o, contendendo tenazmente. Em seguida, congregou (a gente) e discursou, proclamando: Sou o vosso senhor supremo! Porém, Deus lhe infligiu o castigo e (fez dele) um exemplo para o outro mundo e para o presente. Certamente, nisto há um exemplo para o temente. A estória de Moisés é a mais frequente e mais detalhada das estórias alcorânicas. Ela é mencionada em muitas outras suratas, em estilos diferentes e com ênfase variada. Algumas vezes, certos episódios têm grande proeminência. Esta variação de estilo e ênfase objetiva alcançar uma harmonia entre o relato histórico e a surata na qual ele acontece. Assim, a estória ajuda a tornar a mensagem da surata mais clara. Este método é característico do Alcorão. Aqui, o relato histórico é feito em cenas sucessivas rápidas, que começa com o chamado que Moisés recebe no vale santo e termina com a destruição do Faraó neste vida e na vida por vir. Portanto, ele se encaixa muito bem no tema principal da surata, isto é, a vida depois da morte. A parte da história de Moisés que aqui aparece se refere a um longo período, porém relatada em pequenos versículos com a finalidade de se enquadrar no rítmo e mensagem da surata. Estes pequenos versículos incluem muitos estágios e etapas da estória. A introdução é uma pergunta feita ao Profeta Conheces (ó Mensageiro) a história de Moisés? A pergunta serve para preparar-nos para ouvirmos a história e contemplarmos suas lições. A estória de Moisés é aqui descrita como história para enfatizar o que na verdade aconteceu. Começa com Moisés sendo chamado por Allah: Seu Senhor o chamou no vale sagrado de Tôwa. Tôwa é provavelmente o nome do vale que está à direita do monte Toor, quando se vem de Medina, no norte de Hijaz. O momento em que essa chamada foi feita é impressionante. O chamado de Allah, Ele mesmo, a um dos seus servos, muito além de qualquer descrição, personifica um segredo de divindade e um segredo de como Allah fez com que o homem fosse susceptível de receber esse chamado. Ninguém pode compreender o que isto significa sem a inspiração de Allah. A comunicação entre Allah e Moisés é discutida com mais detalhes em outras partes do Alcorão. Nesta surata, contudo, é tocada de leve, antes que a ordem de Allah seja ditada: Vai ao Faraó, porque ele transgrediu, e dize-lhe: Desejas purificar-te, e encaminhar-te até o teu Senhor, para O temeres? A tirania e a transgressão não devem acontecer e não podem continuar. Elas levam à corrupção e a tudo o que desagrada a Allah. Assim, Allah seleciona um de Seus servos mais nobres e o encarrega da tarefa de colocar um fim nelas. Na verdade, elas são tão abomináveis que Allah ordena a um de Seus servos que se dirija ao tirano, na expectativa de que ele perceba seu caminho errado e para que não haja desculpa para ele quando Allah decidir sobre a sua recompensa. Vai ao Faraó, porque ele transgrediu. A seguir, Allah ensina a Moisés como se dirigir ao tirano, da forma mais persuasiva, a fim de que ele possa desistir e que tente não incorrer na ira de Allah: E dize-lhe: Desejas purificar-te? A primeira questão a ser colocada para o tirano é se ele gostaria de se purificar das manchas da tirania e da imundície da desobediência a Allah. Quereria ele conhecer o caminho do piedoso, o abençoado: Eu te guiarei ao teu Senhor e tu poderás reverenciá-Lo. A oferta aqui feita ao Faraó é para mostrar o caminho aceitável por Allah. Uma vez que ele o conheça, ele sentirá o temor de Allah em seu coração. O homem não transgride ou tiraniza a menos que ele perca seu caminho e se encontre em uma estrada que não leva a Allah. Como consequência, seu coração se endurece e ele se revolta e tiraniza. Isto foi dito a Moisés quando Allah o chamou. Ele, claro, fez as perguntas quando encontrou com o Faraó. A surata, no entanto, não repete as perguntas quando relata o encontro. Este pedaço é pulado e o que Moisés diz, quando transmite a mensagem, foi riscado. É como se uma cortina caísse após a cena do chamado. Quando ela sobe de novo, somos apresentados ao final da cena do encontro: E Moisés lhe mostrou o grande sinal, porém o Faraó desmentiu (aquilo) e se rebelou. Assim, Moisés transmite a mensagem que lhe foi confiada, na forma como Allah o ensinou. Esta atitude calorosa, amigável, não pode, no entanto, vencer o coração que se endureceu pela tirania e pelo desconhecimento do Senhor do universo. Portanto, Moisés mostra-lhe os grandes milagres do bastão se transformando em cobra e a sua mão se tornando branca e brilhante (conforme eles estão explicados em outras suratas), "mas ele desmentiu (aquilo) e se rebelou". A cena do encontro de Moisés com o Faraó e a transmissão de sua mensagem a ele termina com o Faraó se afastando para mobilizar suas forças e trazer seus mágicos para um encontro entre a magia e a verdade. O Faraó deu este rumo aos acontecimentos porque ele estava determinado a não aceitar a verdade ou a se submeter ao que é certo. Então, rechaçou-o, contendendo tenazmente. Em seguida congregou (a gente) e discursou, proclamando: Sou o vosso senhor supremo! A surata não nos fornece qualquer detalhe sobre os esforços do Faraó para reunir seus mágicos e feiticeiros e convocar todos os seus homens. Simplesmente é dito que ele saiu para fazer isto e então vangloriou-se com sua proclamação impertinente que demonstra sua infinita ignorância e preconceito: Eu sou o vosso senhor supremo, ele disse. A declaração do Faraó evidencia o fato de que ele se equivocava pela ignorância de seu povo e sua submissão à sua autoridade. Nada mais engana os tiranos do que a ignorância e a submissão abjeta das massas. Um tirano é, na verdade, uma pessoa sem qualquer poder real ou autoridade. As massas submissas ignorantes simplestmente se curvam para que ele monte em suas costas, esticam o pescoço para que ele ajuste as rédeas, baixam as cabeças para dar a ele uma chance de mostrar sua presunção e passar por cima de seus direitos com o fim de ser respeitado e honrado, dando-lhe, assim, a chance de tiranizar. As massas fazem tudo isto porque são engandas e têm medo ao mesmo tempo. Seu medo não tem fundamento, a não ser em sua imaginação. O tirano, um indivíduo, não pode ser mais forte do que milhares e milhões, que devem acrescentar ao seu próprio valor, os atributos de humanidade, dignidade, auto-respeito e liberdade. Cada indivíduo em uma nação é uma competição para o tirano, em termos de poder. Ninguém tiraniza uma nação que é sã, ou que conhece o seu verdadeiro Senhor, acredita n'Ele e se recusa a se submeter a qualquer criatura que não tenha poder sobre o seu destino. O Faraó,. contudo, achava seu povo tão ignorante, submisso e destituído de fé que foi capaz de fazer sua declaração insolente e blasfema: "Eu sou o vosso senhor supremo!" Jamais teria ousado dizer isto se ele achasse que sua nação tinha as qualidades da consciência, do auto-respeito e da fé em Allah. Com tal insolência intolerável da parte do Faraó, o máximo em termos de tirania, o Supremo Poder se instalou: Allah lhe infligiu o castigo e (fez dele) um exemplo para o outro mundo e para o presente. O castigo no outro mundo é citado primeiro porque é muito mais severo e perpétuo. Realmente, é a verdadeira punição para os tiranos e transgressores por causa do seu rigor e duração eterna. Também é mais adequado dar relevância para a vida no outro mundo, uma vez que este é o tema principal da surata. Além do mais, ele se encaixa perfeitamente ao ritmo geral da surata.O castigo nesta vida é terrível, mas o da outra vida é muito mais. O Faraó tinha poder, autoridade e glária, contudo nada disso lhe serviu. Podemos imaginar qual será o destino dos descrentes que não possuem poder, autoridade e glória semelhantes, mas que, ainda assim, resistem ao chamado do Islam e tentam suprimi-lo. Certamente, nisto há um exemplo para o temente. Somente aqueles que conhecem seu verdadeiro Senhor, e são tementes, se beneficiarão das lições contidas na história do Faraó. Aqueles que não temem Allah continuarão no caminho errado até que atinjam o fim marcado, quando, então, sofrerão o castigo tanto desta vida quanto da outra. Ao mencionar o fim que aguarda os tiranos que se achavam muito poderosos, a surata se volta para os descrentes atuais que igualmente confiam em seu próprio poder. Chama nossa atenção para algumas manifestações do trabalho do Poder Supremo no universo. O poder deles não se compara com o de Allah: Quê! Porventura a vossa criação é mais difícil ou é a do céu, que Ele erigiu? Elevou a sua abóbada e, por conseguinte, a ordenou, escureceu a noite e clareou o dia; e depois disso dilatou a terra, da qual fez brotar a água e os pastos, e fixou, firmemente, as montanhas, para o proveito vosso e do vosso gado. Os versículos começam com uma pergunta: Quem é mais forte em constituição: você ou os céus que Ele construiu? Que só admite uma resposta: os céus. Portanto, a pergunta parece supor uma outra: Por que você se tem em tão alta conta quando os céus são muito mais fortes em constituição do que você e o Senhor que tudo criou é muito mais forte do que tudo isto? A pergunta também pode ser conduzida de uma outra forma: Por que você acha que a ressurreição é impossível? Ele criou os céus, cuja criação exige muito mais poder do que a sua própria criação. A ressurreição é simplesmente a repetição da criação. Portanto, Ele, que criou os céus, achará a sua ressurreição uma proposta muito mais fácil. "Ele construiu" os céus. O termo "construir" sugere uma constituição firme e forte e os céus o são, realmente. Seus planetas estão juntos num sistema perfeito, nem se dispersam nem saem de suas órbitas. "Elevou a sua abóbada e, por conseguinte, a ordenou". Basta um rápido olhar para reconhecermos a coerência perfeita e harmonia na construção dos céus. Conhecer as leis que governam a existência das criaturas no céu acima de nós e produzir um equilíbrio perfeito entre os seus movimentos e entre os seus mútuos efeitos realça a consciência do significado deste versículo. Intensifica o sentimento do ilimitado do verdadeiro mundo do qual o conhecimento humano descobriu somente um pequena parte. Esta parte, contudo, é suficiente para que o homem se sinta esmagado pela maravilha e assombro. Ele fica mudo ante a beleza infinita do universo. Ela não tem qualquer explicação para isto, exceto um poder sobrehumano que planejou e governa tudo isto. Esta explicação é agora aceita, mesmo por aqueles que não professam qualquer religião. Escureceu a noite e clareou o dia. As palavras árabes usadas nestes versículos acrescentam força à entonação geral. Eles também têm uma conotação mais forte do que a tradução sugere. Eles são usados aqui porque se encaixam melhor no contexto geral. A sucessão da escuridão da noite e a luz da manhã é um fenômeno reconhecido por todos, mas que pode ser negligenciado por ser tão familiar. Aqui, o Alcorão nos lembra de sua novidade permanente. Por isto ele é repetido mais uma vez a cada dia, produzindo os mesmos efeitos e reações. A leis naturais que governam este fenômeno são tão precisas e milagrosas que continuam a impressionar e surpreender o homem à medida que seu conhecimento aumento. E depois disso dilatou a terra, Da qual fez brotar a água e os pastos, E fixou, firmemente, as montanhas. Dilatar a terra é uma referência ao nivelamento de sua superfície, para que fique fácil andar sobre ela, e também à formação de uma camada de solo própria para o cultivo. Fixar firmemente as montanhas é o resultado final do perfil da superfície da terra e o seu resfriamento a um nível adequado para o surgimento de organismos vivos. Allah também trouxe água à terra. Isto se aplica às correntes que permitem que as águas profundas corram sobre a superfície da terra. Também se aplica às águas da chuva, uma vez que elas vêm originalmente da terra. Ele também produziu pastos o que não deixa de ser, neste contexto, uma referência a todas as plantas que alimentam o homem e os animais e que, direta ou indiretamente, sustentam a vida. Tudo isto aconteceu depois que o céu foi criado, a noite escurecida e a terra dilatada. As teorias recentes da astronomia amparam esta afirmação alcorânica, porque elas dizem que a terra estava se movendo em sua órbita, com o dia e a noite se sucedendo por centenas de milhões de anos antes que ela fosse nivelada e expandida, antes que se tornasse adequada para o crescimento da vegetação e antes que sua superfície tivesse a sua forma final de planícies, vales e montanhas. O Alcorão declara que tudo isto é "para o proveito vosso e de vosso gado". É um lembrete para o homem do que Allah fez para ele e de Seu plano perfeito e elaborado. Não é por acaso que os céus foram construídos deste modo e que a terra foi expandida para tomar sua forma atual. A existência do homem, como vice-gerente de Allah, foi levada em conta. A existência do homem e o desenvolvimento depende de muitos fatores que operam no universo em geral, e no sistema solar em particular e, mais particularmente, na própria terra. Todos esses fatores precisam funcionar em absoluta harmonia. Seguindo a abordagem alcorânica de fazer uma pequena afirmação que incorpora o fato principal, ainda que seja rico em sugestões e inferências, o capítulo apenas cita alguns poucos destes fatos harmônicos - a construção do céu, a escuridão da noite, o surgimento da luz do dia, a expansão da terra, o surgimento das águas e pastos, a fixação firme das montanhas - para o proveito do homem e de seu gado. Esta afirmação faz com que a idéia de plano elaborado para o universo seja compreendida por todo mundo. O uso de algumas de suas manifestações não exige um padrão especial de educação ou conhecimento para que seja apreciado. É por isso que o Alcorão é uma mensagem universal, dirigida a todos os homens, em todas as épocas e sociedades, sejam primivas ou avançadas. A realidade do plano elaborado e meticuloso de todo o universo, contudo, vai muito além do que esta citado aqui. A verdadeira natureza desta universo exclui qualquer possibilidade de que sua formação tenha sido por acaso, porque nenhum acaso poderia resultar uma tão perfeita e absoluta harmonia em tão grande escala. A harmonia começa com o fato de que nosso sistema solar é único entre milhões e milhões de sistemas planetários e nossa terra também é um único planeta com relação à sua localização no sistema solar. É esta singularidade que torna a vida na terra possível. Ainda não descobrimos entre milhares de planetas semelhantes nenhum que desfrute de semelhante conjugação de fatores essenciais que propiciam o surgimento e a sustentação da vida. A vida pode surgir em um certo planeta se existirem certas condições; o planeta precisa ter um tamanho adequado, uma distância média do sol e deve ser de uma composição na qual mistura os elementos nas proporções certas, de forma a permitir o surgimento da vida. O tamamno adequado é necessário porque a atmosfera do planeta está condicionada pela força de sua gravidade. A distância média também é condição básica porque o planeta que fica muito próximo ao sol é tão quente que nada pode se solidificar nele e aqueles que estão longe são tão frios que nada sobre eles pode ter qualquer medida de elasticidade. A composição correta dos elementos é necessária porque tal composição na proporção certa é condição básica para o crescimento da vegetação que é, por seu lado, essencial para a sustentação da vida. A Terra tem a localização ideal para satisfazer todas estas condições que propiciam o surgimento da vida na única forma que conhecemos. (1) O estabelecimento do fato do plano elaborado do grande universo e a posição especial que o homem ocupa nele, prepara seu coração e mente para receber e aceitar a afirmação da realidade da vida depois da morte e seu julgamento final e o repmia com um sentimento de tranquilidade. Se as origens do universo e do homem são assim, então o ciclo precisa ser completado e cada um precisa ter o seu prêmio. É inconcebível que o fim de tudo chegue com o fim da curta vida do homem neste mundo, ou que o mal e a tirania fiquem isentos de qualquer punição, ou que se permita que o bem, a justiça ou o correto sofram o que quer que seja de mal que lhes aconteça nesta vida sem qualquer chance de alcançar a felicidade. Tal suposição é, em sua essência, contrária ao fato do plano elaborado, tão evidente em qualquer parte do universo. Consequentemente, a realidade aqui esboçada neste parte do capítulo serve como uma introdução à realidade da vida após a morte, que é o seu tema principal Mas, quando chegar o grande evento, o dia em que o homem se há de recordar de tudo quanto tiver feito, e a fogueira for exposta visivelmente, para quem a quiser ver, então, o que tiver transgredido, e preferido a vida terrena, este certamente terá a fogueira por morada. Ao contrário, quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado em relação à luxuria, terá o Paraíso por abrigo. A vida atual é um período de conforto e prazeres que são dados na medida exata e precisa. Sua duração é determinada tendo em vista o plano geral relacionado com o universo e a vida humana. Seu conforto e prazeres acabarão no tempo prefixado para o seu término. Quando o Grande Evento chegar tudo será devastado e esmagado. O conforto passageiro desta vida se extinguirá, seu céu construído, sua terra expandida, suas montanhas firmes serão reviradas e todas as criaturas vivas serão esmagadas. Neste momento "o homem se lembrará do que fez". Ele poderia ter-se distraído com os acontecimentos e prazeres desta vida e por isso negligenciado do que deveria ter feito. Mas, ele se lembrará de tudo e então, quando esta lembrança lhe trouxer nada mais do que tristeza e pena, perceberá que fim miserável ele está enfrentando. E a fogueira for exposta visivelmente para quem a quiser ver. O termo aqui usado "expor visivelmente" é particularmente poderosa. É rica em suas conotações e torna o ritmo ainda mais forte. O resultado é que a imagem é tão viva que quase podemos ver toda a cena diante de nós. Então, as pessoas terão destinos diferentes e o objetivo do plano primeiro da primeira vida será revelado: Então o que tiver transgredido, e preferido a vida terrena, esse certamente terá a fogueira por morada. Os dois verbos "tiranizar" e "transgredir" são aqui usados para traduzir o significado de um termo árabe, isto é, o "tiranizar" , é aqui usado, com um sentido muito mais forte do que o estrito despotismo dos governantes e ditadores. "Tirania" é usada como sinônimo do que excede os limites do certo e da verdade. Em consqüência, estes três versículos se referem a todo aquele que transgride as fronteiras do certo, prefere esta vida à outra e não se preocupa com ela. Uma vez que a consciência da vida após a morte define os valores e padrões a serem aplicados, aquele que prefere esta vida sofrerá um colapso nestes valores e padrões, o que resultará na adoção de outros padrões de comportamento. Isto o coloca na categoria dos déspotas e transgressores. Portanto, o Inferno lhe será exposto visivelmente no dia da Catástrofe e será "seu lugar de morada". Quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado em relação à luxúria, terá o Paraíso por abrigo. Aquele que teme estar diante de Allah não se entrega ao pecado. Se ele escorregar e cometer um pecado, num momento de fraqueza humana, seu medo de encontrar Allah o levará a se arrepender e a pedir perdão. Assim, ele permance dentro da esfera da obediência, cujo ponto central é o controle de seus caprichos e desejos. A condescendência com os caprichos e desejos é, basicamente a causa de todas as formas de tirania e transgressão. Dissemina o mal. O homem incorre em erro porque sempre sucumbe ao capricho e ao desejo. A ignorância é facil de curar. O desejo, depois que a ignorância tiver sido curada, é a praga que requer uma longa e árdua luta para ser dominada. O temor a Allah é a defesa sólida contra os ataques violentos do desejo. Na verdade, não há qualquer outra defesa que possa se opor a tais ataques. Portanto, o capítulo cita o temor a Allah e o controle dos caprichos em um único versículo. Este fato é aqui declarado por Allah, o Criador do homem e o único Que conhece a alma humana, suas fraquezas e a cura efetiva Allah não pede ao homem que suprima seus desejos porque Ele sabe que isto não é possível de ser conseguido. Ele simplesmente pede que controle seus desejos e não se deixe ser controlado por eles. Ele diz que o medo de estar diante de seu Senhor, o Todo Poderoso, deve ser de grande ajuda para ele. Ele mostrou o prêmio para tão árdua luta: o Paraíso como morada. Porque Allah conhece muito bem os sofrimentos que envolvem esta luta. Esta luta, o auto-controle e a elevação, ajudam o homem a satisfazer o seu lado humano. Tal satisfação não pode ser conseguida se se abrir espaço para todas as aflições, e seguir o capricho aonde quer que ele leve, sob o pretexto de que o desejo e o capricho são partes da natureza humana. Allah, que fez o homem sensível a certos impulsos, também deu a ele a capacidade de controlar tais impulsos pela autodisciplina. Ele também dá o Paraíso como prêmio quando ele vence e se eleva a si mesmo aos mais altos padrões de humanidade. Existem dois tipos de liberdade. A primeira é aquela conseguida através da vitória sobre os desejos e que liberta o homem das cadeias do capricho. Quando o homem alcança tal vitória ele se acha capaz de satisfazer estes desejos e caprichos de uma forma controlada e equilibrada, fazendo sobressair a liberdade de escolha do homem. Este tipo de liberdade é do tipo humano, aquele que se adapta à honra que Allah conferiu ao homem. O outro tipo é a liberdade animal, representada pela derrota do homem, a sua escravização aos desejos e a perda do autocontrole. Este tipo de liberdade é defendido apenas por aqueles que perderam o seu aspecto humano e por isso tentam encobrir a sua escravidão com uma roupagem de liberdade enganosa. O primeiro tipo é usufruído por aqueles que se elevam e se preparam para a vida sublime e livre na futura morada no Paraíso. O segundo é encontrar espaço naqueles que mergulham nas águas do desejo e assim se preparam para o Inferno, onde serão privados de seu aspecto humano. Em ambos os casos, o fim é o que se espera, de acordo com o Islam que confere a tudo a sua verdade e valor próprios. A última parte do capítulo é expressa num ritmo que provoca admiração. Interrogar-te-ão acerca da Hora: Quando aportará? Com quem estás tu (envolvido), com tal declaração? Só ao teu Senhor incumbe tal conhecimento. Tu és somente um admoestador, para quem a teme no dia em que a virem, parecer-lhes-á não terem permanecido no mundo mais do que um entardecer ou um amanhecer da mesma. Cada vez que os politeístas ouviam uma descrição dos acontecimentos terríveis do Dia do Julgamento e o acerto de contas que então terá lugar, eles costumavam pedir ao Profeta (que a paz esteja sobre ele) para detalhar a hora: "Quando isto acontecerá?". A resposta aqui apresentada para tais perguntas é uma outra pergunta, "Mas, por que estão preocupados com o exato momento?" É uma resposta que sugere que a Hora Final, ou o Dia do Julgamento é tão grande e majestoso que as perguntas feitas pelos descrentes com relação a este momento parecem tolas e lamentáveis. Além disso, tais questões somente podem ser feitas pelos insolentes. O grande Profeta é indagado "Por que você se preocupa com o momento exato?" Será tão grandioso que ninguém, nem mesmo você, deveria pedir para ser informado a respeito. Este conhecimento pertence a Allah somente e a ninguém mais. "Só a teu Senhor incumbe tal conhecimento." Ele é o mestre de tudo que se relaciona com este momento. As obrigações e limitações do Profeta estão bem definidas e não devem ser excedidas:" Tu és somente um admoestador, para quem a teme." Ele deve admoestar aqueles que se beneficiarão com tais avisos. Tais pessoas sentirão que é verdade e temerão as consequências e assim elas poderão conduzir suas vidas de acordo com a firme crença de que a hora marcada por Allah chegará. A majestade e o temor da Hora do Juízo Final são explicados através da descrição de seus efeitos nos sentimentos dos homens e da comparação que é feita entre sua duração e a duração da vida presente. No dia em que a virem, parecer-lhes-á não terem permanecido no mundo mais do que umo entardecer ou um amanhecer da mesma. Isto prende a atenção da alma para a nossa vida atual com todos os seus épicos, acontecimentos e luxúrias, que parecerão àqueles que os vivem menor do que um único dia - apenas um entardecer ou um amanhecer. Portanto, o mundo inteiro, seus séculos e idades, se resumirão a nada mais do que uma manhã ou uma tarde aos olhos das pessoas que disputam e lutam, preferindo isto do que a sua porção da vida por vir e que cometem toda espécie de pecado, tirania ou transgressão para alcançar seus fins, cedendo aos seus desejos e caprichos. Contudo para tal gozo passageiro elas abandonam a vida no além e postergam a perspectiva certa da morada no Paraíso. Esta é a maior estupidez de todos, a qual nenhum homem que tenha ouvidos e olhos para ouvir e ver pode perpretar. Referências: (1) A M. Alkkad, Beliefs of Twentieth Century Thinkers, p. 36
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