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Alcorão |
Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb
Às Sombras do Alcorão
Este Capítulo pode ser dividido em duas partes, cada uma delas tratando de um princípio maior da fé. O primeiro é o princípio da Ressurreição, acompanhada de uma grande revolução no universo, que afetará o sol e as estrelas, as montanhas e os mares, os céus e a terra, os animais domésticos e selvagens, assim como o homem também. O segundo princípio, discutido na segunda metade do Capítulo, é o princípio da revelação. O Capítulo tem alguma coisa a dizer sobre o anjo levando a Divina revelação, o Profeta recebendo-a, as pessoas a quem se dirige, e a Suprema Vontade que moldou sua natureza e lhes enviou esta revelação. O ritmo do Capítulo é de um movimento violento que não deixa nada em seu lugar. Tudo é atirado, esmagado e espalhado. O movimento é tão violento que instiga e ameaça. Altera cada situação familiar e sacode os corações dos homens violentamente por um longo período, para que eles se sintam privados de abrigo e segurança. Em uma tal violenta e destrutiva tempestade, o coração do homem não é mais do que uma pequena pluma, soprada em todas as direções. Nenhuma proteção e, na verdade, nenhuma segurança pode ser encontrada, exceto a que é permitida por Allah, o Ser Eterno. Assim, o capítulo tem num ritmo próprio, o efeito de tirar o coração e a alma do homem de tudo que possa ser associado a segurança e certeza, a fim de que ele procure paz, segurança e proteção em Allah. O Capítulo é também uma jóia de imagens surpreendentes tiradas do universo, tanto nas condições atuais, que nos são familiares, como nas condições do Dia da Ressurreição, quando todas as coisas familiares serão mudadas para além do reconhecimento. O Capítulo é, além disso, rico em expressões finas que acrescentam cor às imagens apresentadas. Como o Capítulo é muito curto, o ritmo das imagens e das finas expressões combinam-se para produzir um efeito muito forte e duradouro. Não fosse pelo fato de que o Capítulo contém algumas palavras que não nos são familiares hoje em dia, eu teria preferido não comentar. O ritmo e as imagens deixam um efeito mais forte do que qualquer interpretação humana pode esperar alcançar.
Quando o sol for enrolado, quando as estrelas forem extintas, quando as montanhas estiverem dispersas, quando as camelas, com crias de dez meses, forem abandonadas, quando as feras forem congregadas, quando os mares transbordarem, quando as almas forem reunidas, quando a filha, sepultada viva, for interrogada: Por que delito foste assassinada? Quando as páginas forem abertas, quando o céu for desvendado, quando o inferno for aceso, e quando o jardim for aproximado, então, saberá cada alma, o que está apresentando. Estes versículos esboçam uma cena de grande revolução que envolve todo o universo. Trata-se de um evento que revela todo o segredo guardado e não deixa nada encoberto. Todo ser humano enfrentará o ajuste e julgamento pelo que ele tiver feito. Os grandes eventos mencionados indicam que a condição familiar atual do universo, com sua harmonia perfeita, movimentos compassados, relações controladas, aperfeiçoada por um Construtor meticuloso e capaz, sofrerá uma interrupção em seu sistema. Ele terá cumprido o seu papel. Juntamente com toda a criação, ele se moverá para uma nova fase predeterminada da vida, , diferente de tudo o que é conhecido por nós neste mundo. O Capítulo visa conseguir estabelecer a idéia da revolução inevitável nos corações e mentes dos homens, a fim de que eles possam dar pouca, ou nenhuma, importância aos valores e riquezas deste mundo, ainda que eles pareçam ser de duração permanente. Os corações e mentes das pessoas devem estar firmes com a verdade eterna, isto é, a verdade de Allah, o Eterno, que nunca muda quando tudo o mais se modifica e desaparece. Elas devem quebrar as cadeias do que é familiar nesta vida, a fim de reconhecer a verdade absoluta, que não admite restrições de tempo, lugar, faculdades finitas ou padrões temporais. Quando acompanhamos os acontecimentos desta revolução unversal, não podemos deixar de perceber um sentimento íntimo por esta afirmação. O que exatamente acontecerá com todos os elementos da criação durante a Ressurreição, apenas podemos dizer que somente Allah sabe. Apenas compreendemos aquilo que vivenciamos. Quando pensamos em uma grande revolução no mundo, nossa imaginação não pode ir além de um violento terremoto, ou uma erupção vulcânica, ou, talvez, a queda de uma bomba. As enchentes são, talvez, a manifestação mais destruidora da força das águas que nós conhecemos. Os acontecimentos mais poderosos do universo que nós monitoramos foram algumas pequenas explosões no sol, que está a milhões de milhas de distância de nós. Todos esses acontecimentos, enormes como devem ser, parecem tão pequenos quando comparados àquela revolução universal que acontecerá no Dia da Ressurreição, que podem ser considerados semelhantes a brincadeiras de criança. Se realmente desejarmos saber o que acontecerá então, não podemos fazer mais do que tentar uma espécie de comparação com o que já vivenciamos nesta vida. O enrolamento do sol provavelmente significa que ele se esfriará e suas chamas, que se espalham por milhares de milhas no espaço, diminuirão e se extinguirão. Como o sol tem agora a forma de gás por causa de seu intenso calor, que alcança uma temperatura máxima de 12000 graus, o seu enrolar provavelmente significa sua transformação pelo esfriamento em uma forma semelhante àquela da superfície terrestre. Pode ter uma forma circular sem se estender. Talvez, este seja o significado do versículo de abertura, mas, poderia também significar alguma coisa diferente. Como isto acontecerá, ou quais serão suas causas, apenas podemos dizer que somente Allah sabe. A extinção das estrelas talvez signifique que elas se separarão do sistema que as mantém juntas e perderão sua luz e brilho. Somente Allah sabe quais as estrelas que serão afetadas por este acontecimento: apenas um pequeno grupo de estrelas serão afetadas, isto é, nosso próprio sistema solar, ou nossa galáxia, que inclui milhões e milhões de estrelas? Sabemos que o universo compreende um n´mero quase infinito de galáxias, cada qual com seu próprio espaço. O dispersar das montanhas provavelmente significa que elas serão trituradas e espalhadas, como indicado em outros capítulos:
E perguntar-te-ão acerca das montanhas. Dize-lhes: Meu Senhor as desintegrará (20:105) E as montanhas forem desintegradas em átomos (56:5) E as montanhas serão dispersadas, parecendo miragem (78:20). Todos esses versículos se referem a certo acontecimento que afetará as montanhas e as tirarão de sua estrutura firme e de sua estabilidade. Este pode ser o começo de um tremor que sacudirá a terra violentamente e que é mencionado no Capítulo 99 "O Terremoto".
Quando a terra executar o seu tremor predestinado, e descarregar os seus fardos (99:1-2) Todos esses fatos acontecerão naquele dia muito longo.
Quando as camelas, com crias de dez meses, forem abandonadas. Aqui, a descrição árabe da camela especifica que ela está em seu 10º mês de gravidez. Quando neste estado, ela é para o árabe a sua propriedade mais valiosa porque ela está perto de aumentar sua riqueza com um camelo jovem e dar-lhe, além disso, uma quantidade de leite que ele e sua família partilharão com o animal recém nascido. Contudo, naquele dia, que testemunhará tais acontecimentos esmagadores, esta camela preciosa será deixada sem cuidados, completamente abandonada. Os árabes, a quem estes versículos foram dirigidos primeiramente, nunca deixavam suas camelas abandonadas, a não ser que fosse por um perigo mais grave.
Quando as feras forem congregadas. O grande terror que esmaga os animais selvagens em suas florestas é a causa de eles se juntarem. Eles se esquecerão de suas inimizades mútuas, e se moverão juntos sem saber para que direção. Não buscarão seus refúgios nem suas presas, como costumam fazer. O terror esmagador mudará o caráter até do mais selvagem dos animais. O que aconteceria com o homem?
Quando os mares transbordarem. O termo árabe aqui usado pode significar que os mares transbordarão com água, das enchentes, semelhantes àquelas que caracterizaram os primeiros estágios da vida na terra. Por outro lado, os terremotos e as erupções vulcânicas podem remover as barreiras que agora separam os mares, a fim de que a água de um não flua para o outro. A expressão árabe pode também significar que os mares experimentarão explosões que os tornarão flamejantes, como mencionado em outro lugar do Alcorão:
Quando os oceanos forem despejados (82:3) As explosões podem resultar da separação do oxigênio e do hidrogênio de que se compõe a água do mar. Também poderiam ser explosões atômicas de alguma espécie. Se a explosão de um número limitado de átomos numa bomba atômica ou de hidrogênio produz tão graves consequências, como temos visto, então a explosão atômica das águas dos oceanos, qualquer que seja a maneira que ela possa ocorrer, produzirá alguma coisa muito mais aterradora do que nossas mentes conseguem visualizar. Da mesma forma, não podemos conceber a realidade do Inferno, que está além destes vastos oceanos.
Quando as almas forem reunidas. A reunião das almas pode significar a reunião do corpo e da alma na hora da ressurreição. Também pode significar o seu agrupamento, semelhante com semelhante, como mencionado em outra parte do Alcorão: "Vós sereis divididos em três grupos" (56:7), a elite escolhida, as pessoas da direita e as pessoas da esquerda. Também pode querer se referir a algum outro modo de agrupar.
Quando a filha, sepultada viva, for interrogada: Por que delito foste assassinada? O valor da vida humana deve ter sido muito baixo na sociedade pré-islâmica. Existia um costume de se queimar viva a menina, por medo da vergonha ou da pobreza. O Alcorão descreve esta prática, a fim de mostrar o seu horror e registrar sua ignorância, isto é, Jahiliyyah. Sua condenação cabe perfeitamente com a meta declarada do Islam de destruir a Ignorância e salvar a humanidade de mergulhar em suas profundezas. No Capítulo 16 "A Abelha", nós lemos:
Quando a algum deles é anunciado o nascimento de uma filha, o seu semblante se entristece e fica angustiado. Oculta-se do seu povo, pela má notícia que lhe foi anunciada: deixá-la-á viver, envergonhado, ou a enterrará viva? Que péssimo é o que julgam! (16:58-9) E no Capítulo 17, "A Viagem Noturna", lemos:
Não mateis vossos filhos por temor à necessidade, pois Nós os sustentaremos, bem como a vós. (17:31) As meninas eram mortas de uma forma extremamente cruel. Elas eram enterradas vivas! Aqueles árabes que não matavam suas jovens filhas ou não as mandavam cuidar do gado, tinham diferentes métodos de maus tratos com as mulheres. Se um homem morria, o chefe do clã atirava sua capa sobre a viúva. Este era um gesto de aquisição, que queria dizer que a viúva não podia se casar de novo com ninguém a não ser com o dono da capa. Se ele gostasse dela, poderia se casar com ela sem qualquer consideração aos seus sentimentos a respeito do assunto. Se ele não a desposasse, ele a mantinha até que ela morresse, a fim de herdar sua fortuna. Tal era a atitude da sociedade ignorante na Arábia, em relação às mulheres. O Islam condena esta atitude e rejeita todas estas práticas. Proíbe o assassinato de meninas e manifesta sua natureza terrível. Este é um dos temas para o ajuste no Dia do Julgamento. Aqui, o Capítulo menciona isto como um dos grandes eventos que esmagarão o universo em uma revolução total. É-nos dito que a menina assassinada será indagada a respeito de seu assassino. O Capítulo nos permite imaginar como o assassino será trazido para o acerto. A ordem social ignorante do período pré-islâmico jamais ajudou a mulher a ter uma posição respeitável e digna. Tinha que ter sido decretado por Allah. O modo de vida que Allah escolheu para a humanidade assegura a posição dignificada tanto para homens como para as mulheres, que partilham a honra de ter um medida do espírito Divino soprado sobre eles. As mulheres devem sua posição respeitável ao Islam e não a qualquer outro fator social ou do ambiente. Quando os novos homens com valores divinos se transformaram em "seres", as mulheres se tornaram respeitadas e honradas. A fraqueza da mulher, de ser um peso financeiro para sua família, não teve qualquer consequência na determinação de sua posição e no respeito que ela usufruía. Estas considerações não têm importância na escala de valores do céu. O peso real pertence às nobres almas humanas, quando suas relações com Allah são mantidas. E nisto, homens e mulheres são iguais. Quando se colocam argumentos, em apoio ao fato de que o Islam é uma religião divina e que foi transmitida a nós pelo Mensageiro de Allah, que recebeu suas revelações, pode-se acrescentar a mudança feita pelo Islam na condição social das mulheres como um dos argumentos irrefutáveis. Nada no conjunto social da Arábia daquele tempo evidenciou um tal elevação na posição da mulher. Não foi nenhuma consideração social ou econômica que tornou-a necessária ou desejável. Foi uma mudança deliberada, feita pelo Islam, por razões que são completamente diferentes daquelas deste mundo e daquelas da sociedade de ignorantes em particular.
Quando as páginas forem abertas. Esta é uma referência aos registros das ações das pessoas. As páginas se abrirão, a fim de que elas possam ser conhecidas por todo mundo. Isto, em si mesmo, é difícil de suportar. Muitos têm no peito um secredo muito bem escondido, cuja lembrança traz um sentimento de vergonha e um estremecimento a seu proprietário. Contudo, todos os segredos tornar-se-ão p´blicos naquele dia cheio de eventos. Esta publicidade, representativa da grande revolução que envolverá todo o universo, é parte dos acontencimentos terríveis que encherão os corações dos homens de horror do dia.
Quando o céu for desvendado. Esta imagem corresponde bem de perto a abrir os segredos das pessoas. Quando a palavra "céu" é usada, nossos primeiros pensamentos buscam a cobertura azul levantada sobre nossas cabeças. Este desvendamento significa remover esta cobertura. Como isto acontecerá permanece para nós como uma conjectura. Basta dizer que, quando olharmos para cima, não veremos nossa abóboda azul familiar. Isto pode acontecer em razão de qualquer alteração que afete o "status quo" no universo e provoque a existência do fenômeno. A última cena do dia terrível é descrita nos dois próximos versículos:
Quando o Inferno for aceso, e quando o Paraíso for aproximado. Onde está o Inferno? Como ele se queimará? Que combustível será utilizado para acender e alimentar este fogo? A única coisa que sabemos sobre isto é que "tem combustível de homens e pedras" (66:6). Claro que isto acontecerá depois que eles forem atirados nele. Sua natureza verdadeira e o combustível inicial é parte do conhecimento de Allah.
Cada alma saberá o que está apresentando. No meio de todos estes acontecimentos esmagadores, toda alma saberá por certo que espécie de ações ela trouxe consigo. Também saberá que nada será mudado, omitido ou acrescentado naquilo que tiver sido feito. As pessoas se encontrarão completamente separadas de todos que lhes tenham sido familiares e do mundo como um todo. Tudo passará por uma mudança completa, exceto Allah. Se o homem se voltar para Allah, saberá que Seu apoio está por perto, enquanto que todo o universo estará sendo esmagado pela mudança. Assim, termina a primeira parte deste Capítulo que preenche tanto a mente como o coração com uma impressão vívida da revolução universal do Dia da Ressurreição. A segunda parte do Capítulo abre com uma certa forma de juramento de algumas cenas muito belas do universo. O juramento em finas expressões é feito para afirmar a natureza da revelação, o anjo carregando-a, e o mensageiro recebendo-a e transmitindo-a, assim como a atitude das pessoas em relação a tudo, de acordo com a vontade de Allah:
Juro pelos planetas, que se mostram e se escondem, e pela noite, quando escurece, e pela aurora, quando afasta a escuridão, que (o Alcorão) é a palavra de um honorável Mensageiro, forte, digníssimo, ante o Senhor do Trono. Que deve ser obedecido, e no qual se deve confiar. E o vosso companheiro (ó povos), não é um energúmeno! Ele o viu (Gabriel), no claro horizonte, e não é avaro, quanto ao incognoscível. E não é (o Alcorão) a palavra do maldito Satanás. Assim, pois, aonde ides? Certamente, não é mais do que uma mensagem, para o universo. Para quem de vós se quiser encaminhar. Porém, não vos encaminhareis, salvo se Deus, o Senhor do Universo, assim o permitir. Os planetas aqui citados são aqueles que giram em suas órbitas, e que se caracterizam por seu movimento rápido e desaparecimento temporário. Traduzindo o texto, temos que nos antecipar à metáfora usada na língua árabe, que faz uma analogia entre aqueles planetas e o cervo, porque eles correm em grande velocidade para suas casas, desaparecem por um momento e, então, reaparecem num ponto diferente. A metáfora árabe acrescenta considerável vivacidade e beleza à descrição do movimento dos planetas, correspondendo à beleza rítmica da expressão. De novo, o ritmo do versículo árabe traduzido como "e pela noite, quando escurece" traz um sentimento de vida, descrevendo a noite como um ser vivo. A beleza da expressão árabe é de uma excelência insuperável. O mesmo se aplica ao próximo versículo: "E pela aurora, quando afasta a escuridão". Este versículo é, na verdade, mais eficaz ao mostrar a madrugada viva, respirando. Seu alento é a luz se espalhando e a vida que começa a se movimentar em tudo. Eu duvido que a língua árabe, com sua riqueza inesgotável de finas imagens e expressões vívidas, possa produzir um quadro da madrugada que possa ser considerado igual a esta imagem alcorânica em seu efeito estético. Depois de uma noite agradável, sempre podemos sentir que a madrugada respira. Um esteta pode prontamente perceber que as palavras Divinas dos primeiros quatro versículos desta segunda parte do Capítulo, constituem uma jóia de expressão gentil e vívida. Um esteta pode prontamente perceber que as palavras Divinas dos primeiros quatro versículos desta segunda parte do Capítulo constitui uma jóia de expressão gentil e vívida descrição:
Juro pelos planetas, que se mostram e se escondem, e pela noite, quando escurece, e pela aurora, quando afasta a escuridão Esta riqueza descritiva acrescenta poder aos sentimentos do homem, na medida em que ele responde aos fenômenos naturais aos quais estes versívulos se referem. Como o Alcorão é conciso na descrição cheia de vida destes fenômenos, isto estabelece uma ligação espiritual entre eles e o homem, com o resultado de que, como lemos, nós sentimos o poder que criou estes fenômenos, e a verdade que nós somos chamados a acreditar. Esta verdade é, então, afirmada de um modo que se encaixa magnificamente no tema geral do Capítulo:
Que (o Alcorão) é a palavra de um honorável Mensageiro, forte, digníssimo, ante o Senhor do Trono. Que deve ser obedecido, e no qual se deve confiar. Este Alcorão, com sua descrição do Dia do Julgamento, é a palavra de um nobre mensageiro, isto é, Gabriel, o anjo que a carrega e a transmite a Mohammad (a paz esteja com ele). O capítulo faz, então, uma descrição do mensageiro escolhido. Ele é "nobre", honrado por Allah que diz que ele é "poderoso", o que sugere que uma força considerável é exigida para carregar e transmitir o Alcorão. "Aquele que usufrui de uma posição segura com o Senhor do Trono". Que grande honra, ou Gabriel, para usufruir tal posição junto ao Senhor do universo. "Ele é obedecido no céu", isto é, pelos outros anjos. Ele é também "confiável", trazendo e transmitindo a mensagem. Essas qualidades levam a uma conclusão definitiva: que o Alcorão é uma mensagem nobre, poderosa e exaltada e que Allah tem especial cuidado pelo homem. A escolha de um anjo do quilate de Gabriel, para transmitir Sua revelação ao homem, é uma manifestação deste cuidado. Ele foi escolhido como Seu Mensageiro. Quando o homem medita sobre este cuidado divino ele deveria se sentir humilde. Porque ele mesmo é merecedor de muito pouco no reino de Allah, não fosse pelo cuidado que Allah tem com ele e a honra que Ele lhe confere. Segue-se uma descrição do Profeta que transmite esta revelação para as pessoas. O Capítulo parece dizer-lhes: Vocês conheceram Mohammad muito bem por um tempo considerável. Ele é seu velho amigo, honesto e confiável. Por que, então, vocês inventam histórias sobre ele, quando ele lhes tem dito a simples verdade que lhe foi confiada para transmití-la a vocês:
E o vosso companheiro (ó povos) não é um energúmeno! Ele o viu (Gabriel), no claro horizonte, e não é avaro, quanto ao incognoscível. E não é (o Alcorão) a palavra do maldito Satanás. Assim, pois, aonde ides? Certamente, não é mais do que uma mensagem, para o universo. Eles conheciam o Profeta perfeitamente bem. Sabiam que ele era um homem de caráter firme, grande sagacidade e honestidade completa. Mas, apesar de tudo isto, diziam que ele era maluco, e que recebia sua revelação de Satanás. Alguns deles assumiram esta atitude como base para seus ataques contra o Profeta e sua mensagem islâmica. Outros assim fizeram, apesar do assombro e da maravilha de sua revelação, que é diferente de tudo o que foi dito ou escrito pelo homem. Suas alegações confirmavam uma crença tradicional de que cada poeta tem um demônio que escreve seus poemas, e que cada monge tem um diabo que descobre para ele os segredos do mundo desconhecido. Eles também acreditavam que o mal pode entrar em contato com algumas pessoas fazendo com que elas digam coisas muito estranhas. Eles ignoravam a única explicação válida, qual seja, a de que o Alcorão foi revelado por Allah, o Senhor de todos os Mundos. O Capítulo contrapõe esta atitude com uma referência da beleza excelsa da criação de Allah, perceptível em qualquer lugar do universo, e apresenta algumas cenas universais, como elas aparecem, cheias de vida. Este método de resposta, sugere que o Alcorão provém de um mesmo poder criador que dota o universo de uma beleza ímpar. Também lhes fala de dois mensageiros a quem o Alcorão foi confiado, um que lhes trouxe a mensagem e o outro que a transmitiu a eles, isto é, seu próprio amigo que eles sabem que é são e não maluco. O Capítulo lhes fala que ele realmente viu o outro nobre mensageiro, Gabriel, com seus prórpios olhos, no claro horizonte onde nenhuma confusão é possível. Ele é confiável e não pode ser suspeito de dizer nada que não seja a verdade. Afinal de contas, eles nunca o associaram a qualquer coisa desonesta. "E não é (o Alcorão) a palavra do maldito Satanás". Demônios não podem, por natureza, fornecer um código de conduta tão reto e consistente. Consequentemente, o Capítulo pergunta desaprovadoramente: "Assim, pois, aonde ides?" Até onde erramos em nossos julgamentos. E para onde podemos fugir da verdade que nos fixa a face onde quer que estejamos? "Certamente, não é mais do que uma mensagem, para todos os homens." Isto lhes lembra da natureza de suas existências, sua origem e natureza do universo à volta deles. A mensagem é "para todos os homens". O Islam declara a natureza universal de seu chamado desde o início, em Macca, onde estava dominado por uma campanha crescente de perseguição. O Capítulo, então, chama nossa atenção para o fato de que todo indivíduo deve escolher se segue o caminho certo ou não. Desde que Allah concedeu a cada um a livre vontade, então todo o ser humano é responsável por sí próprio. "Para quem de vós se quiser encaminhar", quer dizer, seguir a orientação de Allah. Todas as dúvidas foram dissipadas, todas as desculpas respondidas por esta clara afirmação de todos os fatos relevantes. O caminho certo foi indicado para cada um que deseja ser encaminhado. Quem quer que siga um caminho diferente carregará a responsabilidade por suas ações. Existem, na alma humana e no universo como um todo, numerosos sinais que acenam para todo o homem e mulher que segue o caminho da fé. Eles são tão nitidamente visíveis e tão poderosos em seus efeitos, que ninguém precisa fazer muito esforço para percebê-los, principalmente quando se tem a atenção voltada para eles na forma persuasiva e excitante do Alcorão. É, portanto, a vontade do homem que o conduzirá para longe da orientação de Allah. Não há desculpa ou justificativa. O Capítulo finaliza afirmando que a vontade operativa por trás de tudo é a vontade de Allah: "Porém, não vos encaminhareis, salvo se Deus, o Senhor do Universo assim o permitir". Percebemos que o Alcorão faz um declaração deste tipo sempre que a vontade dos seres humanos ou criaturas geralmente é mencionada. A razão para isto é que o Alcorão quer manter os conceitos fundamentais da fé absolutamente claros. Isto inclui o fato de que tudo no universo está sujeito à vontade de Allah. Ninguém tem uma vontade que seja independente daquela de Allah. Permitir ao homem o livre arbítrio é parte de Sua própria Divina Vontade, como tudo o mais. O mesmo se aplica à Sua permissão aos anjos da capacidade de mostrarem completa e absoluta obediência a Ele e de cumprirem todas as suas ordens. Este fato fundamental deve ser claramente compreendido pelos crentes, a fim de que eles possam ter um conceito claro da verdade absoluta. Quando adquirem tal conceito, eles então se voltam para a Divina Vontade pedindo orientação e apoio, e regulam seus afazeres de acordo com a Sua Vontade.
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