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Alcorão |
Às Sombras do Alcorão - Sayyed Qutb
Às Sombras do Alcorão
Esta Surata pequena se refere ao grande cataclismo discutido na Surata anterior, "O Enrolamento", mas com um colorido especial. Tem um ritmo diferente, profundo e calmo. Acrescenta um toque de protesto combinado com uma ameaça explícita. Não detalha as cenas do grande cataclismo como na Surata anterior, onde estas cenas são dominantes. Aqui, elas são mais curtas e têm o objetivo de se adequar a uma atmosfera mais calma e a um ritmo mais lento. No início, a Surata menciona o fendimento do céu, a dispersão das estrelas, o estouro dos oceanos e o revirar dos sepulcros, juntamente com a consciência de cada alma do que fez e do que deixou de fazer naquele dia solene. A segunda parte começa com uma censura combinada com a ameaça explícita ao homem, que recebeu graça abundante e que, no entanto, não demonstra qualquer gratidão pelas bênçãos de Allah. "O humano, o que te fez negligente em relação ao teu Senhor, que te criou, te formou, te aperfeiçoou e te modelou na forma que Lhe aprouve." A terceira parte fornece os motivos de tal atitude ingrata. A negação do ajuste e do julgamento, diz-nos a Surata, é a fonte de todo mal. A realidade desse encontro é enfatizada mais uma vez. Qual! Apesar disso, desmentis o (Dia do) Juízo! Porém, certamente, sobre vós há anjos da guarda, generosos e anotadores, que sabem (tudo) o que fazeis. Sabei que os piedosos estarão em deleite; por outra, os ignóbeis irão para a fogueira, em que entrarão, no Dia do Juízo, da qual jamais poderão esquivar-se. A parte final nos dá uma idéia de como será terrível o Dia do Julgamento, como cada ser humano estará indefeso e como todo o poder pertence a Allah: E o que te fará entender o que é o Dia do Juízo? Novamente: o que te fará entender o que é o Dia do Juízo? É o dia em que nenhuma alma poderá advogar por outra, porque o mando nesse dia só será de Deus. Assim, a Surata apresenta uma outra forma de mostrar os mesmos princípios básicos, enfatizados nesta trigésima parte do Alcorão, de vários métodos e estilos. Nos comentários sobre a Surata anterior, descrevemos os sentimentos gerados nas pessoas quando visualizam o universo sofrendo uma mudança tão violenta que não deixa nada em seu lugar. Também dissemos que esses sentimentos tendem a tirar o homem de qualquer coisa que lhe dê um sentido de segurança, com exceção de Allah, o Criador do Universo, o Único que vive depois que tudo morrer e tiver murchado. O coração do homem, então, se volta para o único ser verdadeiro, que não muda nem morre, para buscar Seu apoio e segurança diante do cataclismo geral que destrói tudo que até então parecia firme e permanente. Porque nada vive para sempre, exceto o Criador, que é o Único que merece ser adorado. O primeiro aspecto citado aqui do cataclismo universal é o fendimento do céu, que é mencionado em outras Suratas. Quando o céu se fender e derreter; e se avermelhar como um ungüento. (55:37) E o céu se fenderá e estará frágil. (69:16) Quando o céu se fender (84:1) É certo que o céu se fenderá naquele dia febril. O que isto quer dizer exatamente, e como o céu ficará depois disso, é difícil de dizer. Tudo o que temos é o sentimento da violenta mudança que esmagará o universo como o vemos, e a percepção de que seu sistema perfeito não estará funcionando. O violento cataclismo no universo provoca a dispersão das estrelas depois de terem estado unidas por um sistema que faz com que cada estrela mantenha sua órbita numa determinada velocidade, sem se desviar um milímetro. Se o sistema se quebra a qualquer tempo, como acontecerá quando a vida das estrelas chegar ao fim, elas simplesmente desaparecerão no amplo espaço, como uma partícula de pó correndo solta. A explosão dos oceanos pode referir-se a uma enchente a ponto de inundar a terra seca e tragar os rios. Também pode significar a explosão que separa o oxigênio do hidrogênio, os dois gases que formam a água. Assim, a água retornará à sua condição original de gás. O versículo também pode ser entendido com uma explosão nuclear dos átomos dos dois gases. Se for este o caso, então a explosão será tão terrível que nossos dispositivos nucleares de hoje parecerão brinquedos de criança. A explosão também pode assumir uma forma diferente, totalmente desconhecida para nós. Uma coisa, contudo, sabemos por certo: será uma coisa terrível jamais experimentada pelo homem. O revirar dos túmulos pode ser o resultado de um dos acontecimentos citados acima. Também pode ser um evento em separado que ocorrerá naquele dia memorável. Como os túmulos serão revirados, as pessoas ressuscitarão e se levantarão de volta à vida, para enfrentar o dia do ajuste e receber a recompensa ou a punição. Isto é complementado pelo versículo que se segue à descrição de tais eventos: Cada alma conhecerá suas ações desde o início até o fim. Ou seja, cada alma ficará face a face com o que fez e com o que deixou para trás como consequência de suas ações: ou o que usufruiu nesta vida atual e o que preservou para a vida depois da morte. O conhecimento, no entanto, acompanhará esses eventos horríveis. Na verdade, será um deles, porque aterroriza a alma da mesma forma que os outros eventos relatados antes. A expressão árabe usada aqui pode ser traduzida literalmente como "toda alma irá saber ...". No entanto, em árabe tem um sentido mais elegante e efetivo de "toda alma saberá ..." Além do mais, o conhecimento de cada alma não é o fim da questão. Tem consequências que são tão violentas quanto as cenas descritas aqui do grande cataclismo. As consequências estão implícitas, não declaradas, o que torna mais eficaz ainda. Depois desta abertura, que alerta os sentidos e a consciência do homem, a Surata, como forma de protesto, traz uma ameaça implícita, que toca os corações que se ocupam com trivialidades. Lembra ao homem do primeiro ato de Allah para ele, isto é, a sua formação em formas tão perfeitas. Allah poderia ter dado a ele qualquer forma que quisesse. No entanto, o homem é ingrato. Ó humano, o que te fez negligente em relação ao teu Senhor, o Munificentíssimo, que te criou, te formou, te aperfeiçoou e te modelou na forma que Lhe aprouve? O versículo apela para a mais nobre qualidade do homem, sua humanidade, que é a que o distingue de todas as criaturas e lhe concede a mais alta posição entre todos. Esta qualidade representa a bênção de Allah e Sua abundante generosidade para com o homem. Este apelo é imediatamente seguido de um protesto delicado: O que te fez tão negligente em relação ao teu Senhor? O que o faz descuidar de suas responsabilidades para com o seu Senhor e comportar-se de forma arrogante, quando Ele lhe deu sua humanidade, que o eleva acima de toda a Sua criação, e lhe concede a capacidade de distinguir o certo do errado. Alguns detalhes da generosidade de Allah são acrescentados: Ó humano, o que te fez negligente em relação ao teu Senhor, o Munificentíssimo, que te criou, te formou, te aperfeiçoou e te modelou na forma que Lhe aprouve? Trata-se de um apelo direto ao coração do homem, que ouve o protesto de Allah quando Ele o lembra de Sua graça. Mas, ele continua em seu caminho errado e com um comportamento insolente em relação a Ele. Na verdade, o homem deveria refletir profundamente sobre sua criação, sua constituição física e psicológica. A reflexão deveria levá-lo a demonstrar sua gratidão, profundo respeito e amor verdadeiro a Allah, seu Senhor Munificentíssimo, que o abençoou com esta forma tão perfeita. Os aspectos miraculosos da constituição do homem são maiores do que ele percebe à sua volta ou que ele possa imaginar. A perfeição e o equilíbrio correto são facilmente perceptíveis na constituição física, mental e espiritual do homem. Volumes inteiros foram escritos sobre a perfeição da criação, conforme evidenciada no homem. Talvez seja útil incluir aqui uma ou duas citações desses trabalhos. O corpo humano é composto de inúmeros sistemas especializados: o esqueleto, o sistema muscular, a pele, o sistema digestivo, o sistema circulatório, o sistema respiratório, o sistema reprodutivo, o sistema linfático, o sistema nervoso, o sistema urinário e os sentidos do paladar, olfato, audição e visão. Cada um desses sistemas é um milagre e mais maravilhoso do que qualquer conquista científica feita pelo homem. No entanto, o homem tende a não reparar nas maravilhas de sua própria constituição. Um colaborador do British Scientific Journal escreveu: "A mão do homem é um dos mais notáveis milagres da natureza. É extremamente difícil, na verdade impossível, inventar um instrumento que possa desafiar a mão humana, pela simplicidade, eficiência, habilidade e adaptabilidade rápida. Quando lemos um livro, o tomamos em nossas mãos e o seguramos numa posição adequada para a leitura. A mesma mão automaticamente corrigirá a posição do livro sempre que for necessário. Quando viramos a página, colocamos o dedo por baixo da página e colocamos alguma pressão para virar a página. Quando a página é virada, não tem mais pressão. Também usamos a mão para segurar a caneta e escrever. Com nossas mãos usamos todos os instrumentos de que necessitamos, tais como a colher, a faca e a caneta. Usamos para abrir e fechar a janela e carregar o que quisermos... A mão humana tem 27 pedaços de pequenos ossos, mais 19 grupos de músculos. O ouvido humano é um complexo de arcos graduados com uma regularidade primorosa em tamanho e forma. Pode-se dizer que lembra um instrumento musical e parece ajustado para captar e transmitir da mesma forma para o cérebro, cada cadência de som ou ruído, desde o estrondo do trovão até o sussurro dos pinheiros e a mistura delicada de tons e harmonias de cada instrumento de uma orquestra. As funções visuais são executadas principalmente pelo olho com seus 130 milhões de receptores de luz. As pálpebras com as pestanas protegem os olhos dia e noite. Seu movimento, que é involuntário, mantêm afastadas as partículas e outros elementos estranhos. As pestanas lançam sombras sobre o olho para diminuir a intensidade da luz. Além do mais, através de seu movimento, as pálpebras impedem os olhos de secarem. O fluído em volta do olho, que chamamos de lágrima, é altamente eficaz, o mais poderoso desinfetante. Nos seres humanos, a função do paladar é feita pela língua, através de grupos de células que estão localizadas nas papilas gustativas da mucosa da superfície da língua. Estas papilas são de diferentes formas: algumas são filamentadas, algumas semelhantes a cogumelos e outras são lenticulares. Elas são providas de ramificações do nervo glosso-faríngeo, e do nervo que tem o sentido do paladar. Quando comemos, essas ramificações são estimuladas e transmitem os impulsos do sentido do paladar para o cérebro. Este sistema está localizado na língua para que possamos rejeitar tudo que nossos sentidos indiquem como prejudiciais. Este sistema nos ajuda a sentir se o que comemos é amargo ou doce, frio ou quente, salgado, etc. A língua contém 9.000 dessas papilas, cada uma ligada ao cérebro por mais de um nervo. Logo, podemos imaginar: Quantos nervos possuímos? Qual o seu tamanho? Como eles funcionam individualmente e como eles se combinam para transmitir ao cérebro as diversas formas de sensação? O sistema nervoso, que controla todo o corpo, é composto por neurönios que cobrem cada parte do corpo. Os neurônios estão ligados a nervos maiores que são, por sua vez, ligados ao sistema nervoso central. Sempre que uma parte do corpo tem qualquer sensação, mesmo a mais tênue alteração de temperatura, os neurônios transmitem esta sensação para os nervos periféricos, que o transmitem para o cérebro, para que ele ordene a ação necessária. Os sinais são levados pelos nervos a uma velocidade de 100 m por segundo. Se pensarmos na digestão como o processo de um laboratório químico, e na comida que comemos como matéria-prima, logo descobriremos que é um processo fantástico que digere tudo que é comestível, exceto o próprio estômago. Em primeiro lugar, colocamos dentro deste laboratório uma variedade de alimentos como matéria prima, sem o menor respeito pelo laboratório ou pela química da digestão acontece. Comemos carne, repolho, milho e peixe frito, acrescentamos água e enchemos com álcool, pão e feijão. Além desta mistura, o estômago seleciona aquelas coisas que são úteis para transformá-las em moléculas químicas cada item dos alimentos, eliminando o que não presta e reconstruindo os resíduos em novas proteínas que se transformarão em alimento para as várias células. O trato digestivo seleciona o cálcio, o mercúrio, o iodo, o ferro e qualquer outra substância que seja necessária, cuida para que as moléculas essenciais não se percam, que os hormônios possam ser produzidos e que todas as necessidades básicas da vida sejam supridas com quantidades reguladas, prontas para atender a cada necessidade. Armazena gordura e outras reservas para atender à emergência da fome e faz tudo isso independentemente do homem. Quando estes alimentos se transformam e são de novo preparados, eles são liberados para cada uma de nossas bilhôes de células, que são em mais quantidade do que o total de seres humanos na terra. A distribuição para cada célula precisa ser constante e somente aquelas substâncias necessárias para cada uma delas para que se transformem em ossos, unhas, carne, cabelos,olhos e dentes. Aqui é o laboratório químico produzindo mais substâncias do que qualquer laboratório que a ingenuidade humana projetou. É um sistema de distribuição maior do que qualquer método de transporte ou distribuição conhecido no mundo, sendo conduzido em perfeita ordem." Muito mais poderia ser dito sobre outros sistemas do corpo humano. Por mais fantásticos que estes sistemas sejam, o homem os tem em comum com os animais. No entanto, ele é privilegiado porque possui qualidades espirituais e mentais singulares que são vistas nesta Surata como um favor especial de Allah. Após lidar com a humanidade do homem, a Surata menciona a perfeição da sua criação e a proporção correta de sua forma: Ó humano, o que te fez negligente em relação a teu Senhor, que te criou, te formou, te aperfeiçoou. Vamos refletir sobre nosso poder de compreensão, sobre a natureza daquilo que é desconhecido para nós. A mente é o meio de compreensão, mas o seu trabalho e como ela funciona permanece incompreensível para nós. Se imaginarmos que o que pegamos é transmitido para o cérebro através dos nervos, onde e como ele armazena suas informações? Se compararmos o cérebro a uma fita magnética, cada homem necessitaria, durante uma existência média de 60 anos, de muitos bilhões de metros para registrar uma enormidade de quadros, palavras, significados, sentimentos e respostas, a fim de que ele pudesse se lembrar de tudo décadas mais tarde. Além do mais, como ele transforma informação e experiência em conhecimento? No entanto, esta não é a qualidade mais importante que distingue o homem. Existe aquele raio maravilhoso do espírito de Allah, que fornece uma ligação entre o homem e a beleza do universo e seu Criador. Conforme esta ligação é estabelecida, o homem experimenta momentos brilhantes de comunhão com o infinito, o absoluto, que o prepara para uma feliz vida eterna no paraíso de Allah. Mas, o homem não o tem poder de entender a natureza de seu espírito, que é a maior bênção de Allah e que o transforma num homem. Por isso, Allah se dirige a ele por esta qualidade "Ó humano" e o repreende diretamente "O que te fez negligente em relação ao teu Senhor?" Assim, o homem é lembrado da grande bênção de Allah, mas permanece insolente, negligente com seus deveres para com Allah, ingrato. Mas ele não precisa de muito mais para perceber a fonte deste protesto e que atitude ele adota quando estiver diante de seu Senhor para se sentir oprimido de vergonha: "Ó humano, o que te fez negligente em relação ao teu Senhor, que te criou, te formou, te aperfeiçoou e te modelou, na forma que Lhe aprouve." A Surata se modifica para explicar a razão da insolência e negligência do homem, isto é, a negação do Dia do Juízo. Confirma, com ênfase, a realidade do acerto de contas, da recompensa e da punição: Qual! Apesar disso, desmentis o (Dia do) Juízo! Porém, certamente, sobre vós há anjos da guarda, Generosos e anotadores, Que sabem (tudo) o que fazeis. Sabei que os piedosos estarão em deleite: Por outra, os ignóbeis irão para a fogueira, Em que entrarão, no Dia do Juízo, Da qual jamais poderão esquivar-se. A expressão "qual" é usada aqui para dar o sentido da palavra árabe "kalla", que é uma ordem para desistir e uma indicação de uma mudança no assunto e estilo. Por isso, os versículos seguintes estão sob a forma de uma declaração: "Apesar disso, desmentis o (Dia do) Juízo!" Você acha que o acerto de contas é falso e esta é a causa de sua insolência e por isso negligencia seus deveres. Como pode alguém não acreditar no Julgamento e, ainda assim, levar uma vida baseada no bem e na orientação justa? Algumas pessoas alcançam níveis mais elevados de fé: adoram Allah porque O amam, e não por temerem o castigo ou esperarem por alguma compensação. Mas, estas pessoas continuam a acreditar no Dia do Juízo. Eles o temem e o aguardam ao mesmo tempo, porque esperam estar com seu amado Senhor. Quando o homem, no entanto, de modo arrogante, rejeitar o Dia do Julgamento ficará destituído de tudo, o coração e a consciência estarão mortos. Desmentimos o Dia do Juízo quando certamente haveremos de enfrentá-lo. Tudo o que fazemos nesta vida será contado contra nós. Nada será perdido, nada será esquecido: "Porém, certamente, sobre vós há anjos da guarda, generosos e anotadores, que sabem (tudo) o que fazeis." Estes anotadores são os anjos encarregados de acompanhar os homens, vigiando-os e registrando tudo o que fazem e dizem. Não sabemos como isto acontece. Allah sabe que não temos capacidade de compreender e também não ajuda em nada compreendermos, porque não altera o objetivo de nossa existência. Por isso, é inútil tentar explicar por nossos meios o que Allah escolheu não nos revelar do mundo do incognoscível. Basta-nos saber que não vivemos em vão e que existem registradores nobres que anotam o que fazemos, para que fiquemos alertas e precavidos. Tendo em vista que a atmosfera da Surata é de benevolência e nobreza, a descrição desses anotadores dada aqui é a de que eles são "nobres", para que nos intimidemos e tentemos ser polidos na presença desses nobres anjos. É natural que as pessoas tenham um cuidado redobrado para não dizer ou fazer qualquer coisa indelicada ou infame, porque esses nobres estão sempre por perto. A Surata, na verdade, estimula os mais nobres sentimentos de nossa natureza elevada, mostrando este fato de uma forma tão familiar. Em seguida, é-nos dito sobre o destino dos justos e dos fracos, que é determinado pelo ajuste baseado no registro feito pelos anjos nobres: Sabei que os piedosos estarão em deleite: por outra,os ignóbeis irão para a fogueira, da qual jamais poderão se esquivar. O fim é certo. Está determinado que os justos habitarão em felicidade plena e os fracos terminarão no inferno. O "justo" é aquele que pratica ações "justas", ou seja, boas ações de todas as espécies, até que elas se tornem uma qualidade intrínseca de sua natureza. O adjetivo "justo" tem conotações que se encaixam bem com nobreza e humanidade. A qualidade contrastante, "perversidade", tem um sentido de insolência e atrevimento, com que o perverso se entrega em suas ações pecaminosas. O inferno é a recompensa adequada para a perversidade. A Surata salienta a certeza dessa punição: "por outra, os ignóbeis irão para a fogueira, em que entrarão no Dia do Juízo." Mais uma vez é dito "do qual jamais poderão esquivar-se". Eles não poderão escapar e nem terão permissão para deixar aquele lugar, nem que seja por um instante. Tendo esclarecido o que acontecerá no Dia do Juízo, a Surata reafirma a certeza daquele dia, mesmo que seja desmentido por algumas pessoas. A ênfase aqui está sob a forma de uma pergunta retórica que aumenta o mistério em torno da questão. Então, a Surata declara o total desamparo de cada um, a impossibilidade absoluta de dar ou receber apoio e que Allah é o soberano absoluto daquele dia assombroso. E, o que te fará entender o que é o Dia do Juízo? Novamente: o que te fará entender o que é o Dia do Juízo? É o dia em que nenhuma alma poderá advogar por outra, porque o mando, nesse dia, só será de Deus. A forma "o que te fará entender", em árabe, significa uma pergunta retórica muitas vezes usada no Alcorão. Sugere que o assunto em discussão está muito além de nossa imaginação ou compreensão. Aqui, ele é acentuado pela repetição da pergunta, antes de detalhar as condições daquele dia. "É o dia em que nenhuma alma poderá advogar por outra". É um desamparo total, quando nos vemos sozinhos, ocupados com nossos problemas, incapazes de pensar em nada, parentes ou amigos. "O mando, nesse dia, só será de Deus." Realmente, Ele reina supremo nesta vida e na outra. Este fato, contudo, é tão esclarecedor a respeito daquele dia que ninguém pode ignorá-lo. A Surata se encerra com um ar de medo e expectativa muda, em contraste com o ar dos horrores descritos na abertura. Tanto na abertura quanto no encerramento da Surata, o homem é tratado com uma censura que o oprime com o sentimento de vergonha.
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