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Atualidades


O ISLAM E A CIDADANIA

 

O tema CIDADANIA, dentro do sistema de vida revelado por Deus, através do Alcorão Sagrado, é a configuração que Ele, o Altíssimo, legou a toda a humanidade e que, consequentemente, existe de forma inata e indelével em cada ser humano. A abrangência da CIDADANIA não é apenas aquela referida pelo uso do vocábulo "citoyen", a partir da Revolução Francesa, ou por fatores raciais, étnicos, geo-políticos, modificantes no passado, presente e, quem sabe, no futuro, em função do acesso pelas mais diversas vias desse ou daquele segmento da humanidade na chegada e/ou permanência no topo do poder temporal, com resultados, nem sempre positivos, para os demais segmentos, submetidos a tal poder.

Desde os primórdios da história da civilização humana, alternaram-se os diversos grupos humanos na posse do poder temporal, em consequência das lutas de conquistas, fossem elas realizadas por vias bélicas ou como resultado de uma situação eoconômico-social, ou ainda de uma colonização sócio-cultural, nas mais diversas formas possíveis.

Essa alternância, em alguns casos, possibilitou resultados positivos e negativos, vivenciados tanto pelos "ocupantes do poder", como pelos "ocupados pelos poderosos".

Para o Islam, o contexto da CIDADANIA é aquele que define a igualdade de todos os seres humanos, de forma absoluta e permanente, muito além dos resultados de uma dominação, através de qualquer uma de suas formas, quando comparadas de forma direta com os princípios outorgados por Deus, o Criador, a toda a humanidade.

Como singela prova de tal afirmativa, passamos a transcrever alguns versículos do que foi prescrito, através do milagre da revelação do Alcorão Sagrado, na Surata 49, que diz:

11. Ó fiéis, que nenhum povo zombe do outro; é possível que (os escarnecidos) sejam melhores do que eles (os escarnecedores). Que tampouco nenhuma mulher zombe da outra, porque é possível que esta seja melhor do que aquela ...

13. Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado. (1)

Assim sendo, além da explicitude do texto referenciado, fica indelével a forma inalienável da igualdade das criaturas de Deus, o Eterno, no tocante à nossa espécie. Diante de tal evidência, e com a simples visão do passado da história da humanidade, temos, uma vez mais, essa comprovação, com os simples exemplos de civilizações e povos que tentaram ocupar, ou ocuparam, de forma mais ou menos longa, o referido topo do poder temporal, sob o pretexto de que seriam o povo eleito, a raça superior, os conquistadores, os descobridores ou mais capazes, os mais poderosos e, até, os líderes da humanidade.

Formaram-se castas sociais, que acreditavam ser superiores e induziam os demais a acreditarem-se inferiores, por conceitos estabelecidos exclusivamente pelos ditos "superiores", que legislaram em causa própria. A injustiça social, a falta da responsabilidade dos pseudo "superiores" com relação aos ditos inferiores, não são, e nunca foram, coisa nova para a humanidade, e nos revolta até hoje, ante o maremoto causado pela prática de "dois pesos e duas medidas", no que diz respeito aos chamados direitos e obrigações dessa ou daquela "classe social".

Os resultados dessa prática são óbvios e estão à nossa volta.

Uns clamam por direitos, outros reclamam contra suas obrigações e ninguém procura, ou consegue, assumir suas responsabilidades. O caos, fora do ordenamento de Deus, é inevitável e suas consequências sãodolorosas ao extremo.

A falta de discernimento da humanidade, quanto à sua real posição e oportunidade, é o triste resultado do abandono da submissão a Deus, trocada por uma falsa liberdade que escraviza o Homem à inconsistência da matéria, que serve de lenha para a fogueira da ambição e da ganância. Da fumaça dessa fogueira resulta o estado de embriaguez do indivíduo que a respira, formando miragens de resultados nunca felizes e sempre agravadores da situação de toda a humanidade, sob todos os aspectos intra-matéria e, em alguns casos, extra-matéria.

Como exemplo disso temos:

O aumento da fome, das doenças em geral, das doenças ditas psico-sociais, decorrentes das drogas, do alcoolismo, do tabagismo, além daquelas resultantes de uma dita "liberdade sexual", o aumento da orfandade e da indigência generalizada em quase todos os países, aumentando a incompreensão, a violência, a injustiça, etc... Até nos países ricos, temos as consequências da falta do sentimento do Amor Fraterno e da Solidariedade Humana que compõem a submissão a Deus, sendo, inclusive, alarmantes, as taxas de mortalidade por suicídio, mesmo o infantil.

Longe de representar uma simples manifestação de hipocrisia, de um discurso antiquado e cansativo, inexequível e insano, estes fatores são inexoráveis, à medida em que o ser humano, no intervalo de uma ou outra aflição, não atenta para o que seja verdadeiramente CIDADANIA e continua no sentido contrário à Razão, apesar da infinita Misericórdia do Criador.

A CIDADANIA não é definida apenas pelas obrigações que o indivíduo tem para com a sua cidade, estado ou país. A CIDADANIA implica na procura de uma melhor qualidade de vida para si próprio e para os seus semelhantes, na sua cidade, estado ou país, e porque não, em todo o mundo. Quando o interesse econômico se sobrepõe ao interesse social, as distorções geradas resultam nas injustiças que atingem, invariavelmente, a todos os habitantes do nosso planeta, como, por exemplo, no caso do meio ambiente, através de uma industrialização selvagem, alimentada por um consumismo que trata vários fatores inseparaveis do fator humano como descartáveis e que descarta, inclusive, a própria vida humana.

A CIDADANIA não estará a salvo enquanto for presa fácil da corrupção que corrói, paulatinamente, os valores morais do indivíduo, como a família, o acesso à educação, a oportundiade de trabalho, saúde e educação e que não serão atingidos sem o pulsar da alma humana em direção à verdadeira VIDA, que somente é alcançada com a retidão de pensamentos e atos.

Mais do que uma forma de filosofia ou um modo de proselitismo, todo e qualquer discurso em busca do direito à CIDADANIA implica na restauração do sentimento maior que é o AMOR, que, ao contrário do que alguns acham, não representa sofrimento, dor ou agonia, isento de qualquer interesse menos egocêntrico ou dominador. A procura do esclarecimento deve ser de modo contínuo, momento a momento, expiração após inspiração, a companheira inseparável na jornada da vida.

O trabalho para desencobrir a verdade da mentira, para separar o falso do verdadeiro, e para se alcançar a harmonia entre todos , será sempre bem recompensado por Deus, o Misericordioso, que assim prescreveu a toda a humanidade, através dos profetas e mensageiros que enviou à humanidade desde Adão, com o objetivo de proporcionar a nós, suas criaturas, a Felicidade e a CIDADANIA, nesta vida e na Vida Eterna.

Em função destas palavras, colocamo-nos ao inteiro dispor para que possamos juntos caminhar na SENDA RETA, razão pela qual nos propomos a ser companheiros na busca do acesso à verdadeira CIDADANIA, se Deus quiser.


Haidar Abu Talib


(1) - O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado, Samyr El Hayek, São Paulo, 1993


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