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Atualidades


O ISLAM E O DESAFIO GLOBAL

Como lidar com a distorção da imagem do Islam pela mídia global

Por Louay M. SafiLouay M. Safi

Introdução

Este documento analisa a natureza da atual campanha da mídia que objetiva a distorção da imagem do Islam, identifica as diversas táticas usadas pelos caluniadores do Islam e de seus símbolos, e propõe uma resposta adequada para lidar com o desafio que está sendo colocado pela mídia. Eu afirmo que a campanha da mídia contra o Islam  tem motivações políticas, levada a cabo por quartéis poderosos da sociedade ocidental, que vêem no Islam um poder global em potencial e uma alternativa possível, capaz de desafiar a hegemonia ocidental. Ao examinar os diversos exemplos da mídia global, demonstro que a campanha para distorcer a imagem do Islam tem por objetivo equiparar o Islam a imposição e agressão, na medida em que justifica a imposição e a agressão contra muçulmanos. Concluo, propondo algumas medidas para lidar com o desafio da mídia global.

Dr. Louay Safi é um professor de ciência política aa International Islamic University, na Malásia.

A ORDEM GLOBAL E O DESAFIO GLOBAL

Nossa tentativa de compreender as causas dos recentes ataques ao Islam e os esforços em distorcer sua imagem deve começar pelo exame da relação entre o Islam e as realidades emergentes. Porque, como me empenharei em demonstrar, não se trata de simples coincidência o fato de a campanha contra o Islam receber seu impulso de certas parcelas da sociedade ocidental, centro e fortaleza da ordem global de hoje. A campanha contra o Islam é um esforço consciente e deliberado da ordem mundial estabelecida para desacreditar o sistema de crença universal que se apresentou como uma alternativa civilizacional ao secularismo ocidental e minar um movimento histórico que, como admitido por seus críticos, tem o potencial de se transformar em poder globalizante. O recente interesse ocidental no Islam retrocede a meados dos anos 70, quando o caminho de vida islâmico transformou-se em opção de um segmento crescente da sociedade muçulmana. O renascimento das idéias e práticas islâmicas foi sentido em todos os níveis da sociedade, inclusive nos mais intelectualizados e prósperos, e tomou várias formas, seja intelectual ou política.

Este renascimento surpreendeu a muitos estudiosos e políticos ocidentais que, uma década antes, tinham decretado o triunfo do liberalismo ocidental e a morte do Islam no mundo muçulmano. Daniel Lerner fez, em The Passing of Traditional Society, a seguinte avaliação do lugar do Islam na sociedade do Oriente Médio:

"Seja do oriente ou do ocidente, a modernização coloca o mesmo desafio - a infusão de "um espírito racionalista e positivista", contra o qual os estudiosos parecem concordar, "o Islam está absolutamente indefeso". No entanto, as etapas e a modalidade do processo mudaram na década passada. Onde a europeização penetrou apenas na classe mais alta da sociedade oriental, afetando principalmente o estilo de vida, a modernização hoje se difunde entre a população e atinge, com seu inquietante "espírito positivista". tanto às instituições públicas como às aspirações privadas. (1)

No final dos anos 80, a percepção ocidental do Islam assumiu uma forma radicalmente diferente. Com a expansão da reafirmação ocidental e oriental islâmica, dentro e fora da sociedade muçulmana - um fenômeno muitas vezes citado como renascimento islâmico - muitos eminentes estudiosos ocidentais começaram a ver o Islam não como um credo divino de importância simplesmente histórica, mas sim como uma força formidável, potencialmente ameaçadora para a globalização ocidental. Em seu famoso livro, bastante lido, O Fim da História e o Último Homem, Francis Fukuyama disse o seguinte a respeito do Islam:

"É verdade que o Islam constitui uma ideologia sistemática e coerente, assim como o liberalismo e o comunismo, com seu código de moralidade e doutrina de justiça política e social. O apelo do Islam é potencialmente universal, atingindo a todos os seres humanos, estendendo a mão a todos os homens como homens e não só como membros de um grupo nacional ou étnico em particular. E o Islam, na verdade, derrotou a democracia liberal em muitas partes do mundo islâmico, representando uma grave ameaça às práticas liberais, mesmo em países que ainda não alcançaram um poder político diretamente. O fim da guerra fria na Europa foi seguido imediatamente por um desafio ao Ocidente pelo Iraque, onde o Islam foi, de forma questionável,  um fator." (2)

Enquanto Fukuyama muda rapidamente no parágrafo seguinte para rejeitar a importância do Islam, com o argumento de que "não tem qualquer apelo fora daquelas regiões que eram culturalmente islâmicas para começar", o fato que permanece é que o Islam é percebido pelo autor como uma ameaça ao globalismo ocidental, porque é capaz de fornecer uma "ideologia coerente" e é "potencialmente universal, estendendo a mão a todos os homens como homens."

Tais sentimentos foram repetidos por  Zbigniew Brzezinski, um estadista americano e estrategista de política externa. Em Out of Control, um livro publicado logo após o fim da União Soviética, Brzezinski parece mais alarmante, na medida em que ele adverte contra a expansão islâmica na Ásia Central, tirando vantagem, como ele coloca, do vácuo de poder criado pelo colapso do império soviético:

"Uma vez que a natureza detesta o vácuo, já é evidente que os poderes externos, principalmente os estados islâmicos vizinhos, provavelmente tentarão preencher o vazio geopolítico criado na Ásia Central com o colapso da dominação russa imperial. Turquia, Irã e Paquistão já estão no páreo para estender sua influência, enquanto que a distante Arábia Saudita vem financiando um esforço grande para revitalizar a cultura e a herança religiosa muçulmanas da região. O Islam está, assim, empurrando para o norte, revertendo o impulso geopolítico dos últimos dois séculos." (3)

Ainda que Brzezinski não despreze a capacidade do Islam de efetuar uma transformação sócio-política de proporções globais, ele assinala corretamente as limitações atuais da reafirmação islâmica contemporânea, refletida na ausência de um modelo concreto que traduza os ideais islâmicos em uma realidade social.

Atitude antagônica ao fazer e relatar a política

Evidentemente, o ataque aberto ao Islam representa uma resposta reacionária de poderosos grupos do ocidente contra o renascimento islâmico  que foi considerado como uma ameaça à ordem global. O ataque contra o Islam e seus símbolos funciona em duas frentes: Na política externa, líderes ocidentais já concluíram que as forças islâmicas do mundo muçulmano devem ser reduzidas a qualquer custo. Portanto, nos países onde os grupos islâmicos conseguiram alcançar influência política nas questões de estado, os poderes ocidentais adotaram a estratégia do cerceamento, que objetiva isolar os regimes com uma forte orientação islâmica. No entanto, quando os grupos islâmicos obtiveram o apoio popular mas não o poder político, o ocidente não aceitou e até estimulou os regimes seculares a adotarem medidas repressoras para impedir um futuro crescimento de sua popularidade e influência. No campo da mídia de massa, o ataque assume formas até mais traiçoeiras, porque a mídia ocidental parece inclinada a equiparar a visão de mundo bastante tolerante e humana do Islam com fanatismo religioso, e a reduzir as diversas abordagens e preocupações dos grupos islâmicos a atos de violência religiosa. O que é mais perturbador, no entanto, é que, enquanto a mídia ocidental condena fortemente o que é mostrado de forma errada como imposição e agressão islâmicas, ela sofre para justificar a imposição e agressão seculares praticadas impiedosamente pelas forças de segurança das ditaturas militares em todo mundo muçulmano. Mas, antes de voltarmos a examinar algumas das táticas assinalando a estratégia acima da mídia ocidental, é importante indicar a relação recíproca entre o relato da mídia e a elaboração da política externa. A importância das ações praticadas pelos repórteres e agentes políticos externos está no fato de que eles se alimentam uns aos outros, levando a uma constante e continuada escalada do confronto entre o Islam e o ocidente. Isto é, ao apoiarem ditadores militares no mundo muçulmano, os políticos criam condições tendentes ao radicalismo político, pois as medidas supressoras do estado empurram certos grupos islâmicos para a violência. Por outro lado, ao se concentrarem nos grupos radicais e apresentá-los como representativos do ressurgimento islâmico contemporâne, os repórteres fortalecem o temor dos políticos e os estimulam a se fixarem em sua linha dura.

Táticas da Mída Global na Guerra contra o Islam

A distorção da imagem do Islam e dos muçulmanos pela mídia global assume variadas formas. Ocasionamente a distorção é resultado da ignorância dos repórteres a respeito do Islam e da sua tendência de projetar suas experiências particulares com a religião e os grupos religiosos da sociedade ocidental no Islam e nos grupos muçulmanos. Muitas vezes, porém, a distorção representa um esforço deliberado de certas agências de notícias e de repórteres que, com malícia e má vontade, usam diversas táticas para desacreditar o Islam e caluniar os muçulmanos. Pode-se apontar quatro táticas:

a) Distorção dos conceitos e práticas islâmicos

Os relatos da mídia ocidental são agressivos com visões distorcidas sobre o Islam. No entanto, alguns exemplos devem bastar para demonstrar este ponto. Na edição publicada em 15 de setembro de 1990, sob o título "O Êxodo dos Árabes Cristãos", o The Economist esforçou-se, ainda que de forma sutil, por ligar o que é citado como  "êxodo cristão", ao domínio do Islam no mundo árabe. O parágrafo inicial coloca a questão nos seguintes termos dramáticos:

"De fato, o cristianismo está morrendo na terra de seu nascimento. Os cristãos estão deixando a Palestina e o Líbano em tal quantidade que as igrejas locais temem pelo seu futuro. De todos os territórios árabes, ao que parece, somente no Egito a comunidade cristã ainda prospera."

Mas, em lugar de atribuir o "êxodo" cristão à deterioração econômica e às condições de segurança provocadas pelos excessos sionistas e maronitas respectivamente na Palestina e no Líbano, o artigo aponta o dedo para o Islam, citando a suposta "vingança muçulmana contra todos os cristãos", que se seguiu à derrota dos cruzados, e faz referência à emigração de muitos cristãos para a Europa e Américas, depois que os poderes coloniais se retiraram das terras muçulmanas.

O artigo não consegue assinalar que as comunidades cristãs continuaram a prosperar nas sociedades muçulmanas antes, durante e depois das Cruzadas, até mesmo depois da brutal "limpeza étnica" dos muçulmanos de Espanha, promovida pelos góticos cristãos. Tão pouco o artigo diz que muitos dos emigrantes que partiram juntamente com os poderes coloniais eram colaboradores muçulmanos que temiam a retaliação por terem apoiado as forças invasoras.

Em outro artigo publicado em junho de 1995, do mesmo periódico, sob o título "O Lado Escuro do Islam", o The Economist convocou a "comunidade internacional" a dar toda ajuda necessária para que a oposição sudanesa,  principalmente os rebeldes do sul, destituísse o sr. Turabi. Conquanto o The Economist cite este fato como um "desastre econômico" no Sudão - esquecendo-se, é claro, de que este "desastre" foi criado pelo embargo ocidental ao Sudão - como a razão para o seu ódio a Turabi, não pôde esconder o fato de que a orientação islâmica do governo sudanês é a fonte principal de seu ódio, particularmente os esforços do governo para implementar a "shari'ah" e sua tentativa de "exportar sua versão de Islam."

b) Associar práticas de grupos e indivíduos radicais muçulmanos ao Islam

Nem todas as atividades da mídia global assumem a forma de uma distorção aberta dos fatos e visões. Grande parte da campanha midiática contra o Islam envolve mensagens e táticas sutis. Usar o adjetivo "islâmico" para descrever atos terroristas praticados por indivíduos ou grupos radicais, é prática amplamente adotada. Uma manchete anunciando  "(um)   julgamento na França está mostrando como é difícil impedir o movimento de acusação contra o terrorismo islâmico"  não é incomum. É claro que a violência de judeus ou cristãos nunca é mencionada como terrorismo judeu ou cristão. A expressão "terrorismo católico" jamais passa pela mente dos editores do The Economist ao descreverem um ataque de um carro bomba promovido pelo IRA. Tais práticas estão reservadas unicamente para o Islam. Mesmo quando a matéria não seja particularmente hostil ao Islam e aos muçulmanos,  títulos agressivos são usados como, por exemplo, "Islam, a seta da morte" ou "A religião com muitas faces".

c) Apresentar o Islam como fonte de ameaça à sociedade ocidental

Em um artigo publicado no Herald Tribune, na edição de 6 de julho de 1995, Richard Cohem examinou a crescente popularidade do Partido do Bem-Estar na Turquia. Ao avaliar o crescimento da presença islâmica naquele país e suas implicações para o ocidente, Cohen disse o seguinte:

"Para o ocidente, os interesses aqui são enormes e a possibilidade de a Turquia seguir o caminho do Irã deu ao país uma importância que não tinha até o término da guerra fria ... Se a Turquia se transformasse em uma república islâmica, nenhuma política de contenção poderia ser bem sucedida. A Turquia deixaria a OTAN, no sentido de fugir da Europa para o Oriente Médio. Sem dúvida, juntar-se-ia ao bloco anti-Israel das nações islâmicas. O que isso significaria para a Bósnia e para o sono dos gregos não é difícil de advinhar."

As palavras acima são bastante reveladoras. Embora o Partido do Bem Estar não possa ser acusado de militância ou de violência, sua orientação islâmica é suficiente para transformar a perspectiva de uma República Islâmica da Turquia em algo ameaçador. Porque, como disse Cohem, neste caso a Turquia "estaria fugindo da Europa para o Oriente Médio" e, por consequência não pode ser confiável, porque estaria apoiando os interesses dos muçulmanos do Oriente Médio em lugar dos interesses da Europa ocidental.

A mesma abordagem foi usada pela mídia americana depois do ataque ao Federal Building, na cidade de Oklahoma, em abril de 1995. Em 20 de abril de 1995, o Seattle Post-Intelligeneer publicou um pronunciamento de Robert Heibel, ex-diretor do setor de contraterrorismo do FBI, que disse: "Minha impressão é a de que se se parece com um pato, fala como um pato e anda como um pato, então provavelmente é um pato ... Carros bombas são o instrumento do fundamentalismo islâmico." No dia seguinte, o The Wall Street Journal publicou a seguinte declaração sobre as comunidades muçulmanas nos Estados Unidos: "As crescentes comunidades muçulmanas em outras regiões do Estados Unidos, como em Nova York, Detroit e Oklahoma  City, também incluem alguns membros extremistas que poderiam dar apoio a terroristas, disseram os analistas."

d) Justificar a imposição e a agressão contra os muçulmanos

É uma outra tática usada pela mídia global para justificar os atos de agressão contra os muçulmanos. Mais uma vez podemos encontrar vários exemplos deste tipo de estratégia na imprensa ocidental. Em um artigo publicado no Le Monde de 13 de setembro de 1994, que reapareceu em inglês no The Guardian de 25 de setembro, Robert Sole defendeu o movimento de certas escolas francesas no sentido de impedir que as muçulmanas usassem o hijab (lenço). Enquanto aceitava que alunos judeus e cristãos usassem símbolos religiosos como o kipa e o crucifixo, o mesmo não se dava com a vestimenta muçulmana. Vestir o hijab, como ele o via, não era um simples ato de mostrar símbolos religiosos e nem tinha o objetivo de manter a modéstia muçulmana e sim um ato que "simboliza a desigualdade dos sexos e o confinamento das mulheres". E assim, em lugar de denunciar a repressão nas escolas que impedem as muçulmanas de praticarem um importante dever religioso, a repressão é estranhamente imputada às vítimas do ato de agressão.

Um outro exemplo de agressão justificada contra os muçulmanos pode ser encontrado em uma matéria publicada na edição do dia 26 de dezembro de 1994, do Newsweek Magazine, sob o título "Retirada". O relato examinou a eficácia da missão da ONU na Bósnia e concluiu que a ela foi desastrosa. No entanto, em lugar de exigir medidas mais rigorosas contra a agressão sérvia, o artigo insistia que mandar tropas de paz e declarar certas cidades bósnias "áreas de segurança" somente contribuiria para prolongar a agonia do povo bósnio. Como Kenneth Auchincloss, autor do artigo, coloca:

"Numa análise retrospectiva, não está de todo claro que qualquer coisa que as nações ocidentais pudessem ter feito - uma curta intervenção armada que nenhuma delas estava querendo fazer - poderia ter parado esta guerra; ela é o resultado de antigos ódios que os de fora não podem suprimir ou apaziguar. O que está claro é que meias medidas como os embargos de armas e as chamadas "áreas de segurança" provavelmente a prolongaram. Os boinas azuis ajudaram a aliviar alguns dos horrores em Sarajevo mas a presença deles fortalece o impasse que faz com que o cerco continue - e isto dificilmente beneficia os cidadãos sitiados. A questão do erro de cálculo sobre a Bósnia é uma espécie de sentimentalismo que o ocidente está particularmente propenso. Apressamo-nos a praticar gestos humanitários sem pensar muito sobre as consequências. Quando nos defrontamos com o espetáculo do sofrimento humano, sentimos um impulso imediato de tentar ajudar. Quando o sofrimento ocorre em uma zona de guerra, o único caminho para enviar ajudar é sob a proteção de uma força armada. E quando a força armada é enviada, inevitavelmente ela é atraída para a batalha, mas falta vigor para interromper."

Um artigo semelhante publicado na revista Time de 26 de junho de 1995, sob o título "Por que o esforço de paz não funciona", fez uma sugestão ainda mais ultrajante. Henry Grunwald, o autor deste artigo, propôs que as forças de "paz" não deveriam se ocupar de áreas como a Bósnia e a Somália, onde os muçulmanos estavam sendo massacrados, e sim em lugares onde os ditadores estivessem envolvidos em lutas de poder com grupos islâmicos, a fim de apoiar os primeiros contra os segundos.

Com ou sem a ONU, sob que circunstâncias os Estados Unidos deveriam intervir? Tudo bem, nem a Somália ou a Bósnia - mas onde e como? Em alguns casos, deve se limitar à ajuda humanitária e evitar o envolvimento militar. Em outros casos, a intervenção pelos Estados Unidos e seus aliados pode ser necessária. Por exemplo: a agressão ou ameaças nucleares do Iraque, Irã ou Coréia do Norte; a eclosão do fundamentalismo islâmico, que até agora desestabiliza a Argélia e poderia ameaçar a Turquia, trazendo pressões intoleráveis sobre a Europa; guerras "locais", como as da Índia e Paquistão, que poderiam se transformar em guerras nucleares. Nem a Casa Branca nem seus críticos  sabem como tais acontecimentos - e outros - poderiam afetar os vitais interesses dos Estados Unidos. Esta espécie de crise certamente exigiria mais do que um "esforço de paz". Por isso novas palavras entraram nas conversas: esforço de paz, obrigar a paz. Mas, talvez, devêssemos reviver o termo pacificação, no sentido que os romanos tinham em mente quando "pacificavam" as turbulentas tribos germanas, ou os ingleses quando "pacificaram" a Fronteira Noroeste. Não é prescrever um novo imperialismo, mas reconhecer que algumas vezes a paz exige uma força adequada.

Insuficiência da resposta muçulmana

Ainda que a esmagadora cobertura do Islam e dos muçulmanos seja do tipo distorcido conforme mostrado acima, de vez em quando podemos encontrar alguns relatos objetivos. Exemplos disto podem ser encontrados até em publicações de notória propaganda anti-islâmica. Le Monde, por exemplo, trouxe em sua edição de 19 de abril de 1995, um novo dado, intitulado "O Egito não deixa os islâmicos entrarem na política", descrevendo a repressão do regime e as violações dos direitos humanos contra grupos islâmicos no Egito. Um editorial do The Economist, em sua edição de 18 de março de 1995, defendeu, sob o título "Vivendo com o Islam", uma postura mais conciliadora, e prevenia contra o enquadramento dos vários grupos islâmicos em uma única categoria. A questão, no entanto, é como os muçulmanos estão respondendo aos desafios globais.

Sem dúvida que a resposta muçulmana para a distorção da mídia em relação ao Islam é, em sua grande maioria, escassa e ineficaz. A campanha de distorções e desinformação contra o Islam ainda não foi objetada de forma efetiva pela mídia muçulmana, pelo simples de que ela   praticamente não existe. Além de algumas publicações que circulam normalmente entre pequenos grupos de pessoas que já estão comprometidas com a causa do Islam, não se pode falar de uma mídia muçulmana de massa. Ainda que a ineficácia da mídia muçulmana e sua incapacidade de neutralizar a campanha abusiva contra o Islam possam ser parcialmente explicadas pelo desequilíbrio econômico e político entre a ordem global estabelecida e o mundo muçulmano, as verdadeiras razões repousam na forma como o Islam está sendo apresentado e promovido. O termo usado por muçulmanos comprometidos com as várias atividades que objetivam mostrar o Islam e promover a crença e os valores islâmicos é da'wah. O método de da'wah que é largamente discutido e aceito para transmitir os verdadeiros valores e crença islâmicos é a interação pessoal entre o divulgador da mensagem islâmica e aquele que a recebe. O modelo de da'wah é aquele que foi praticado pelo Profeta Mohammad e os sahaba (companheiros do Profeta). Assim, um autor escreve:

"Da'wah não é um trabalho a ser empreendido por qualquer grupo profissional, ou uma atividade contingente e nem deve ser praticada em resposta às missões cristãs ou aos ataques comunistas. Da'wah é uma responsabilidade de cada muçulmano, seja governante ou governado, líder ou liderado, professor ou estudante, um sufi ou um soldade, um comerciante ou fazendeiro, rico ou pobre, homem ou mulher, vivendo no oriente ou no ocidente, no norte ou no sul. Ninguém tem uma responsabilidade maior ou menor entre os Daiya, aqueles que praticam a da'wah, e ninguém, sob qualquer circunstância pode (abster-se), adiar ou fugir desta responsabilidade." (4)

Este argumento, que representa a visão mais amplamente aceita,  não diferencia, por um lado, entre a promoção do Islam por muçulmanos nos diferentes caminhos da vida, como resultado do bem de seu caráter e atitude e nobreza de suas ações,  e por outro, a promoção do Islam através de uma ação planejada, praticada por muçulmanos treinados profissionalmente. Este último exige a utilização das mais avançadas habilidades e técnicas disponíveis, mais notadamente as artes e a teconologia. As artes incluem, entre outros, peças, representação e canto. A tecnologia inclui o uso da mídia eletrônica, onde imagens e sons podem ser empregados para transmitir valores, crenças e conceitos sob a forma de filmes, peças de teatro, documentários, programas educacionais, talk shows, desenhos animados, etc.

Mas, apesar da importância da mídia eletrônica e do profundo efeito produzido nas mudanças culturais, ela ainda não se transformou em instrumento para a disseminação da messagem do Islam. Um sinal importante da subutilização desse instrumento poderoso pode ser visto no fato de que as instituições de ensino islâmico avançado não consideram as artes e a tecnologia como meios úteis para se levar a mensagem do Islam, mas continuam a se centrar na comunicação interpessoal e numa extensão menor, na oratória. Recentemente, a mídia impressa recebeu uma ênfase maior por parte dos islamistas. No entanto, os jornais e revistas publicados por eles são muitas vezes orientados mais para platéias islâmicas do que para o público em geral.

Como enfrentar o Desafio Global

O desafio colocado pela mídia global é tremendo e muito sério. Nada pode ser mais devastador para a imagem de uma religião conhecida por sua tolerância e espírito libertador do que ser reduzida à categoria de "terrorista" e "fanática". Mas isto é exatamente o que os detratores do Islam esperam conquistar através de sua campanha global contra o Islam. Enfrentar o desafio global exige uma estratégia bem pensada e bem implementada. Na medida em que desenvolver uma estratégia adequada exige discussão e debate exaustivos entre os muçulmanos comprometidos e a contribuição dos vários exegetas e líderes muçulmanos, gostaria de apresentar os seguintes passoss para se responder ao desafio global:

a) O obstáculo que se coloca ao desenvolvimento de uma mídia muçulmana de massa vem de certos setores influentes que insistem em excluir as artes e a tecnologia das atividades de da'wah. A visão rígida proposta por esses indivíduos e grupos não só impede a compreensão estática de certas injunções islâmicas, compreendidas fora de seu contexto e sem olhar para os princípios e propostas alcorânicos essenciais, como também não consegue diferenciar entre as expectativas de pessoas que buscam uma vida de devoção elevada e as expectativas de pessoas comuns que se contentam em praticar o que é exigido e evitar fortemente o que é proibido.

E, enquanto que reduzir o tempo de lazer ao mínimo possível é adequado àqueles  indivíduos que comprometeram suas vidas com causas nobres, isto não deve ser esperado da grande maioria que não possui esta motivação ou aspiração. Para a maior parte das pessoas, o entretenimento é algo necessário e procurado e, por isso, programas de entretenimento devem ser usados para transmitir a nobre mensagem do Islam.

b) Por esta razão, organizações de mídia profissionais devem ser criadas para promover os valores do Islam e apresentar visões mais equitativas das aspirações e práticas muçulmanas. A fim de que este tipo de mídia enfrente o desafio global, elas devem falar uma "linguagem" global e alcançar uma audiência global. Isto exige que as agências midiáticas muçulmanas empreguem todo tipo de arte e tecnologia disponíveis para atingir uma audiência cada vez maior e considerar os interesses da humanidade como um todo e não interesses paroquiais e menores. Também devem tentar reportar uma quantidade maior de questões e discussões de uma forma estruturada, um espectro maior de questões e não somente o interesse específico de grupos e movimentos islâmicos.Por esta razão, as organizações profissionais de mídia devem ser independentes de qualquer movimento social ou político. Esta condição é importante para manter seu profissionalismo, uma vez que estar sob a influência direta de qualquer grupo social ou político faz com que tais organizações se transformem inevitavelmente em porta-vozes desses grupos.

c) Mas, para que as organizações operem na forma proposta acima, elas precisam de pessoal altamente qualificado, que tenha adquirido habilidades técnicas e talentos artísticos. Para este fim, é fundamental a contribuição de escolas técnicas e instituições de estudos avançados. As universidades islâmicas, em particular, têm o ônus de desenvolver programas e currículos que permitam a integração do conhecimento islâmico e das habilidades técnicas, para que sejam capazes de produzir jornalistas, escritores, roteiristas, atores, cantores, produtores de documentários e comunicadores que combinem habilidades e talentos com os compromissos e aspirações islâmicos.

d) Finalmente, para que a mídia muçulmana tenha uma dimensão global, os recursos muçulmanos devem ser combinados por todo o globo. Combinar recursos não necessita de consolidação de capital ou administração, embora em grau menor isto possa ser útil. O importante é que a combinação de recursos se concentre na troca de experiências, distribuição facilitada e modos semelhantes de cooperação, que podem assumir a forma de rede.

Conclusão

Conforme tentei mostrar, as distorções da imagem do Islam decorrem do fato de que o Islam é visto pelos interesses poderosos como um desafiante à ordem global estabelecida. Para impedir a expansão do apelo islâmico e mobilizar a opinião pública contra seus símbolos, o Islam tem sido apresentado como uma força negativa, que leva à opressão e à violência. É dever de todo muçulmano perceber a verdadeira natureza do Islam como a religião da razão, da tolerância e da justiça que estende a mão a todas as pessoas do mundo.

Combater a distorção e restabelecer a verdadeira imagem do Islam não é, em hipótese alguma, uma tarefa fácil.  Exige uma total cooperação entre as organizações muçulmanas e as instituições de ensino qualificado de modo a permitir uma combinação de recursos. Também exige o desenvolvimento de habilidades e capacidades artísticas e teconológicas, necessárias para a utilização do amplo espectro dos instrumentos da mídia de massa para a divulgação da mensagem do Islam. Mais importante de tudo, exige uma mudança profunda   nas atitudes e práticas predominantes, referentes ao uso das artes e da tecnologia para a promoção do Islam e o desenvolvimento de uma estratégia adequada para enfrentar seus caluniadores.

Notas:

1 - Daniel Lerner, The Passing of Traditional Society (Glencoe, IL: Free Press, 1958), p. 45.
2 - Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem (New York: Avon Books, 1992), pp. 45-6.
3 - Zbigniew Brzezinski, Out of Control: Global Turmoil on the Eve of Twenty-first Century (New York: Maxell Macmillan, 1993), p. 159.
4 -

M. Manazir Ahsan, "Dawa and Its Significance for the Future," in Beyond Frontiers: Islam Contemporary Needs, ed. by Merryl Wyn Davies and Adnan Khalil Pasha (Mansell Publishing, 1989), p. 14.


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