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Atualidades


QUEM LIDERA O MOVIMENTO DA GLOBALIZAÇÃO?

Será possível imaginar que esta enorme tentativa de homogeneizar o pensamento humano, seus sistemas e outras coisas, ou que este movimento possa fazer com que todas as nações tenham o mesmo sabor e que possa induzi-las a seguir o mesmo padrão em relação à produtividade, consumo e a forma como elas se percebem e às outras? Será possível imaginar que tudo isto esteja acontecendo espontaneamente, com o único objetivo de buscar o comércio lucrativo? Ou se trata de uma imensa conspiração perpetrada pelas nações rica - principalmente a América - contra as nações fracas e pobres?

São muitas as tentativas de se responder a essas perguntas, mas tentaremos, aqui, formar uma opinião objetiva e equilibrada sobre esta importante questão que é a globalização.

Penso que esta tendência, que já atingiu o mundo inteiro - em maior ou menor extensão - é como um imenso rio que tem milhões de fontes que surgem de repente por todo o mundo. É impossível para qualquer nação, não importa o que ela faça, bloquear essas fontes ou desviar o curso deste rio. O movimento rumo à globalização é muito grande para ser controlado por um estado. Na verdade, poder-se-ia dizer que o que uma companhia maior faz para difundir a globalização, muitos estados não conseguiriam. Isto não quer dizer, é claro, que os papéis desempenhados pelas nações, empresas e tendências teconológicas e acadêmicas sejam todos iguais e nem que não existam planos secretos que almejem uma globalização dirigida ou o uso dela como um instrumento de pressão a ser aplicado em determinadas circunstâncias. Nem significa que o equilíbrio global em muitas áreas seja alcançado sem a direção de forças ocultas que agem nos bastidores. Mas, ao mesmo tempo. espero que o leitor me permita lançar alguma luz sobre três pontos de extrema importância.

1) A globalização está sendo dirigida principalmente pelo ocidente e, aqueles que estão sob sua esfera de influência, como o Japão e alguns países do sudeste asiático. Acredito que, aqui, não há muito espaço para se argumentar. O que leva a globalização para o cenário internacional não são as idéias ocultas nos livros ou os slogans entoados por algumas pessoas aqui e ali, mas sim a manifestação do avanço administrativo, tecnológico e científico alcançado principalmente pelas nações industrializadas. Também é um reflexo do poder econômico e financeiro exercido por alguns países. Assim, fica claro que novas patentes e avanços tecnológicos, juntamente com uma imensa riqueza e capital, não estão no mundo desenvolvido ou no mundo islâmico; eles estão na América, Japão, Europa e Canadá. Se examinarmos 40.000 empresas multinacionais, descobriremos que mais de 90% delas estão sediadas nos países acima citados. Essas companhias são aquelas que estão planejando a globalização e implementando os projetos  idealizados. Infelizmente, as nações muçulmanas não possuem senão a menor parcela deste imenso número de companhias, muito embora os muçulmanos se constituam em 1/4 da população mundial!

Do ponto de vista teórico, deve ser possível para todas as nações e povos participar do movimento de globalização e influenciar na sua direção. Mas, atualmente, aqueles que estão fazendo isto são os que têm o conhecimento, capacidade industrial e o domínio.

2) Muitos pesquisadores pensam que o que é conhecido como "globalização" deve, na verdade, ser chamado de "americanização", porque o estado que tem o controle sobre as decisões das organizações políticas, econômicas e sociais internacionais é a América. Sua voz é a mais forte; a cultura popular americana é a mais forte e é a que mais rapidamente se espalha pelo mundo. Tudo isso nos leva a endossar esta opinião. Mas a matéria exige um exame mais profundo e mais equilibrado. Acreditamos que a globalização é um fenômeno independente, com uma dinâmica própria. Se a América e o Japão se deteriorassem, por exemplo, ou se sua influência mundial diminuisse, isto não poria um fim à globalização, embora pudesse mudar alguns aspectos. O ponto central da globalização é a economia e os Estados Unidos têm parceiros econômicos fortes. O GDP da Europa ocidental é maior do que dos Estados Unidos. O Japão também usufrui de uma elevada posição econômica que, juntamente com as economias do sudeste asiático, é maior do que a economia americana. A China, o "gigante desperto" também alcançou um elevado crescimento econômico e sua influência sobre o movimento de globalização cresce dia-a-dia. Mas tudo isto não anula o fato de que os Estados Unidos sejam o maior contribuinte da globalização. Não importa o quanto fique ruim sua situação, porque ainda pode deter uma posição importante nas atividades internacionais por um longo tempo, mesmo que perca sua posição excepcional. A fim de descobreir a força do papel da América na globalização, basta-nos saber que o GDP de 1997 foi aproximadamente de US$7.100 bilhões; ao mesmo tempo, o GDP do Japão foi de aproxidamente US$4.964 bilhões; o da França, de 1.451 bilhões; e o do Egito, de US$46 bilhões. A América é uma terra de grandes recursos naturais, com uma população de 280 milhões de habitantes, que come e exporta alimentos, muito embora apenas 3% deles trabalhem na agricultura. Eles têm companhias gigantes, cujas vendas anuais excedem a US$130 bilhões.

No campo da cultura popular, os Estados Unidos têm uma clara vantagem sobre seus rivais econômicos, principalmente no que se refere à indústria de cinema e de entretenimento. Um relatório do Development Program, da ONU, declara que os Estados Unidos exportam para a Europa, anualmente, 1.2 milhões de horas de programas de TV. Esta quantidade enorme de material de transmissão é o suficiente para manter mais de 130 canais de TV ocupados o tempo inteiro. Um relatório da UNESCO  diz que a programação da TV americana ocupa mais de 75% da transmissão global, com o restante sendo dividido entre a produção local na Europa e a de outros lugares. Em 1996, a produção cinematográfica representou 85% da produção mundial.

3) As origens culturais, históricas e ideológicas das nações e povos na dianteira da globalização é materialista e secular. Não importa que os japoneses sejam diferentes de americanos, canadenses e europeus, pois o que eles têm em comum é que são motivados e influenciados por um conjunto de crenças e códigos morais feitos pelo homem, que não dão muita importância para a idéia da vida depois da morte. Sem dúvida que a principal influência por trás do movimento da globalização vem de americanos de descendentes europeus, cujos ancestrais gregos eram conhecidos como "sofistas". Ele acreditavam no que os modernos filósofos ocidentais chamam de princípio do pragamatismo e do poder. Eles acreditavam que a justiça só existe onde possa servir aos interesses da parte mais forte. O famoso filósofo grego, Aristóteles, acreditava que a guerra devia ser permitida somente em um caso, que era o de caçar escravos. Não devemos nos esquecer do extermínio sistemático, sem precedentes na história humana, promovido pelo ocidente   dos habitantes nativos das "duas Américas", e da forma como trouxeram os escravos negros da África para seus países, e a exportação dos elementos sociais indesejáveis de suas terras para os vários bolsões do colonialismo. Com o objetivo de produzir elevados ganhos econômicos, o ocidente iniciou a primeira e a segunda Guerras do Ópio, contra a China. E por que olharmos para tão longe, quando nós próprios sofremos durante um século e meio a colonização militar européia em todo o mundo muçulmano?

Na minha maneira de ver, essas considerações são suficientes para compreendermos quem está encarregado da globalização e até que ponto o ocidente tem seu controle.

Não nos esqueçamos de que esta situação pode mudar, na medida em que os países tenham uma influência cultural e política maior no futuro. E Deus é Aquele que nos ajuda a buscar.

Por A D ‘Abd al-Kareem Bakkaar

From Aldawaa magazine, issue # 1742, p. 19


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