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Khutbah |
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Khutbah Jummuat proferida em 26.02.99,no masjid do Rio de Janeiro. Por Kemel Ayoubi
O ser humano é o eixo em torno do qual gira a civilização. Ele é, ao mesmo tempo, meio e objetivo. As civilizações são abalizadas tendo o ser humano como referência. Sendo ele o meio e objetivo da ação civilizatória, conforme dito acima, e sofrendo os efeitos desta ação, é intuitivo dizer que a realização da civilização sofre os riscos decorrentes das limitações e tendências do próprio ser humano. O Islam, com sua orientação conferidora de objetivos e fins, realoca o ser humano, de subserviente à natureza em servidor dela. É o ser humano, por delegação dos ensinamentos islâmicos, o delegado, o responsável, o honorabilizado dentre a criação. Diz o Altíssimo sobre a sua orientação revelada: "Como não haveria de conhecê-las o Criador, sendo Ele o Onisciente, o Sutilíssimo?" (Alcorão 67:14) Disto, afirma-se que a orientação e a exposição advêm da revelação e a constatação e a comprovação são pessoais, por meio de uma constatação racional. Assim, a revelação islâmica delimita os alvos e a razão descobre as leis de Allah na sua criação (Sunan) e empenha-se no aprimoramento dos meios. Portanto, os acometimentos das civilizações são decorrentes da inadequação entre os conhecimentos da revelação e a percepção da razão ou supressão disto ou daquilo. II - CARACTERÍSTICAS DISTINTIVAS DA CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA a) A humanidade A civilização islâmica está constituída sobre uma conclamação à revelação orientadora e firme. Considera o ser humano como humano, sem qualquer outro qualificativo adjacente à sua humanidade, e participante da formação da sociedade humana. Não há no Islam a famosa "sem distinção de raça, sexo, nacionalidade, cor, etc.", como paradigma da concórdia entre as comunidades humanas e sim que o ser humano é cu-fú, qualificado como humano, em sendo humano. A qualificação "humano" surge intuitivamente em cada um, assim como a sua capacidade de poder alcançar a verdade através das suas capacidades de percepção intuitiva, sensitiva, racional e do incognoscível, todas atuando de maneira harmônica e complementar. a) A coerência e proporcionalidade A orientação do prosseguimento humano sobre as condições anteriores, permitem a estruturação da civilização, em condições estáveis, uma vez que ele está tranquilo quanto ao uso proporcional e coerente dos tipos de percepção anteriormente citados. Não teme a subjugação de uma percepção pela outra. As suas atitudes derivam das suas convicções, em sendo um aspecto do seu aperfeiçoamento individual e coletivo ou um adicional ao seu aperfeiçoamento, ao invés de significar tomada de atitudes em função da disponibilidade de recursos materiais, hoje responsável por tudo que surge do conhecimento, arte, literatura, indústria, comércio, governo. A coerência e proporcionalidade islâmicas não advêm de uma concórdia externa social e interclasses, que procura evitar crises e guerras. A coerência e tranquilidade começam com uma concórdia interna e individual, com a concórdia do uso proporcional das percepções humanas acima enumeradas e que já evitam as crises internas de cada qual. b) A percepção do ser humano de si como eixo da civilização A coerência e proporcionalidade são formadas no indivíduo muçulmano por um processo educacional de formação, que o direciona para o desenvolvimento dos seus meios de percepção. Nada de novo é acrescentado aos seus instintos, mas, sim, desperta-os quando são educados, permitindo ao indivíduo muçulmano orientar-se por um chamado que parte de si mesmo. Este partir de si mesmo confere a tranquilidade que sustenta os demais níveis de percepção. Se nesse despertar e encaminhar houver a possibilidade de desvio, ele é reencaminhado pela orientação revelada, a fim de evitar um desestímulo. A conclamação religiosa islâmica anda ao lado, não o empurra ou o conduz. Ela o alerta, e protegendo os seus instintos, não os reprime ou os corrompe. É com o chamado dos instintos que o indivíduo muçulmano passa a se orientar. São os seus sentidos no registro de suas impressões. É a mesma conclamação religiosa muçulmana que orienta a sua razão estimulada pelos instintos despertos, e assim por diante, em direção à extração de uma racionalidade ou a uma nova auto-percepção, que não haveria antes por si só. c) A saúde da fitra (estado natural) Da ordenação dos tipos de coisas existentes, a percepção e classificação sob o enfoque dos instintos fortificados de percepção reestimulada e da razão assistida com a revelação, permite ligar o físico ao incognoscível. A multiplicidade torna-se unicidade entre o que é criação, a despeito das diferenças qualificativas, sedimentando a noção de diferença entre criatura e criador. A religião provinda deste é uma necessidade racional e atende aos anseios naturais da criatura em relação ao seu criador, sem haver disputa resultante da corrupção da fitra entre a crença e a razão. Então, aí, há o estímulo de fé que o guia ascendentemente ao ler: "Volta o teu rosto para a religião monoteísta. É a obra de Deus, sob cuja qualidade inata Deus criou a humanidade. A criação feita por Deus é imutável. Esta é a verdadeira religião; porém a maioria dos humanos o ignora." (Alcorão 30:30) d) A harmonização com as normas vigentes no universo Como decorrência da estimulação dos níveis de percepção no muçulmano, e ao fazer do que existe cognoscível e incognoscível, a despeito da diversidade em que se apresenta a temática da sua dinâmica mental, liga-se, então, ao que o envolve consigo mesmo sem estranhar e sem haver desafio, passando tudo a ser motivo da abordagem da ciência, sendo a criação passível de investigação e compreensão de sua subserviência e nas conquista e subjugação. f) A fé é orientadora e o pensar é a comprovação Para o muçulmano, a razão é apoio para a verdade religiosa e sua comprovação, e a fé é orientação para o comportamento que licita ou ilicita a abordagem Isto está por trás da afirmação de que o Islam é crença e atuação que é adoração e sistema social, e que é a religião da razão e da civilização. Tal afirmação decorre dele (Islam) ter provocado, e continua a provocar, condições mentais e sociais próprias, decorrentes dos processos pedagógicos estritamente islâmicos. g) A reconceituação do que é cultura A sociedade se formou com uma
mensagem religiosa que, ao invés das demais, penetrou nas culturas locais. Com isso, o
conhecimento anterior foi aproveitado em apoio ao conhecimento posterior. Assim, a cultura
decorrente do Islam não é uma mistura e sim uma situação de harmonização com o
método pedagógico que formou o muçulmano. Nenhum dos componentes ou aspectos culturais
dos muçulmanos é parte ou o todo da cultura muçulmana e, sim, o resultado psicológico
da harmonização muçulmana inerente à sociedade muçulmana. O muçulmano convicto teoriza
sobre o hadith do profeta de mudança do vigor da civilização, do estado de califado
para o de simples reinado (mulk), com uma intercorrência que não interfere nas
manifestações desta civilização. E a urbanidade e corrupção é decorrente da
valorização do que é justo e verídico nas boas e más intenções das pessoas como seu
comportamento reto e sincero. Os que seguem o justo e verídico não dependem da
modificação da forma de governo. É a vontade da crença na direção construtiva que,
ao recrudescer, permite que os feitos derivem de outra motivação e que recrudesçam com
as manifestações desta crença no seio civilizatório do dia-a-dia.
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