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Khutbah


 

Khutbah Jummuat proferida em 19.02.99, no masjid do Rio de Janeiro.


ALGUNS CONCEITOS E LEIS HISTÓRICAS EXTRAÍDOS

DO ALCORÃO E DA SUNNA

Por Kemel Ayoubi


Nós, os muçulmanos, não acreditamos que a história se repita a si mesma, pois a continuidade da criação é uma das leis de Deus para essa mesma criação e Deus não cessa, em nenhum instante, de criar o novo nesta existência.. Diz Deus, o Altíssimo:

"Todos os que estão nos céus e na terra O invocam. A cada dia Ele está ocupado em uma nova obra." (Alcorão 55:29)

E, as coisas criadas hoje, diferem das criadas ontem e os acontecimentos e fenômenos terminados não são ressuscitados de novo, pois

"Dize: Não posso acarretar mais prejuízos nem mais benefícios além dos que Deus quer. Cada povo tem seu destino e, quando este se cumprir, não poderá atrasá-lo nem adiantá-lo numa só hora."(Alcorão 10:49)

Igualmente, não acreditamos que haja na história exemplos-lições, pois esta nos mostra muitas das causas que levaram as nações ao erro, ao qual se repetiu em outras que se seguiram, para, de igual modo, arruinar as seguintes, e assim por diante, sem que as gerações aprendessem alguma coisa.

"Juraram solenemente por Deus que, se lhes fosse apresentado um admoestador, encaminhar-se-iam mais do que qualquer outro povo; porém, quando um admoestador lhes chegou, nada lhes foi aumentado, senão em aversão." (Alcorão 35:42)

No entanto, há na história leis que regulam os acontecimentos e os fenômenos e os direciona, conforme estas leis. Aqueles que compreendem profundamente como lidar com estas leis, são aqueles que ascendem nos setores da existência. Assim sendo, as comunidades gerenciadas por quem compreende tais leis, são as que progridem, ao passo que as que são gerenciadas pelos boquirrotos e vendedores de anseios fracassarão. E o mensageiro Mohammad diz: Estais em uma época em que os sábios são muitos e os seus oradores são poucos; quem deixar 1/10 do que sabe queda e virá para as gentes época em que minguarão os sábios e proliferarão os seus oradores; quem apegar-se a 1/10 do que sabe se salvará. (Musnad- Imam Ahmad)

A compreensão do profeta e Mensageiro de Deus, Mohammad, suplantou o discurso de Abu Jahl, e cada qual direcionou o seu grupo para o destino relatado pela história.

Profeta

- preparou os seus para a batalha de Badr 12 anos antes;
- propôs-lhes exemplos altruistas, pelos quais se sacrificaram;
- edificou uma comunidade unida por laços de fé, migração e apoio mútuo;
- reforçou os pontenciais, ainda que escassos, e aproveitou-se em Badr da geografia do terreno.

Abu Jahl

- não se preparou para a batalha de Badr;
- não propôs exemplos, exceto o da arrogância;
- só se utilizou do rufar dos tambores e da recitação da poesia.

E, quando o Alcorão analisou os resultados da batalha de Badr, e mencionou que vinte, dentre os crentes, vencem duzentos, dentre os encobridores, disse:

"Ó Profeta, estimula os fiéis ao combate. Se entre vós houvesse vinte perseverantes, venceriam duzentos, e se houvesse cem, venceriam mil dos incrédulos, por estes são insensatos." (Alcorão 8:65)

Não compreendem as leis de formação das nações e de aproveitamento de recursos e as leis de liderança. O resultado dessa compreensão e ignorância não são exclusivos de um grupo em detrimento de outro, ou de um lugar em detrimento de outro lugar, ou de uma época em detrimento de outra época.

1ª Lei:

A saúde do grupo ou da comunidade é decorrente da sanidade das idéias e pensamentos ou da morbidade destes. Diz o Altíssimo:

"Cada (de tais pessoas) tem (anjos) protetores. Escoltam-no em turnos sucessivos, por ordem de Deus. Ele jamais mudará as condições que concedeu a um povo, a menos que este mude o que tem em seu íntimo. E quando Deus quer castigar a um povo, ninguém pode impedi-Lo e não tem, em vez d'Ele,protetor algum." (Alcorão 13:11)

Qualquer grupo é composto de 3 elementos principais: as idéias, os indivíduos e as coisas. Estes elementos se interrelacionam proporcionalmente, quanto ao local e ao tempo. A saúde do grupo é máxima, quando a fidelidade é para com as idéias, em gerando os indivíduos e idéias em torno destas. Nestas condições, os que ascendem à liderança são aqueles que desempenham a aplicação do fiqh (método decorrente da compreensão profunda) dos desafios e tomada de decisões. A preocupação dos indiv&íacute;duos é sobre as questões comuns.

A saúde do grupo degringola, na medida em que o eixo de fidelidade se desloca por igual em torno das pessoas. A caracter&íacute;stica do grupo, então, passa a ser de adoração ao status e à influência. Os donos do poder se servem das idéias e das coisas em seu próprio interesse, ou de seus grupinhos e partidários, com o predom&íacute;nio das questões regionais e individuais, sem lugar para os desafios.

Já quando a fidelidade é para com as coisas, sobressaem no grupo os donos do dinheiro e do comércio, dos produtores do prazer e consumo supérfluo, com o esgarçamento da rede das relações intrafamiliares. As idéias passam a ser também artigo de consumo, paralisando a compreensão. Disse o profeta: "Por Deus, não é a pobreza que temo por vocês, e sim temo que o mundo se alargue para vós, tal qual se alargou para os que vos antecederam e, a&íacute;, vocês se digladiarão, tal como eles se digladiaram." (Sahih Muslim)

2ª Lei:

Quando fracassam todos os meios de reforma, e os esforços empreendidos passam a ser uma série de recuos, torna-se necessário revisar completamente a metodologia pedagógica aplicada e as suas instituições. O primeiro passo inicia-se no íntimo dos orientadores e de si mesmo há de surgir a vontade e a competência de liberação dos pensamentos e culturas costumeiras vividas por eles, a despeito da "santificação" destes. Depois, examinam tudo isto e o avaliam conforme o hadith: "Cuide-se de si mesmo".

O significado de taubát (perdão), conforme a conceituação islâmica, incorpora esta lei., pois taubát é retorno e reavaliação de tudo que há no pensamento, sensação e comportamento. Tem que ter o reconhecimento do erro, uma promessa a Deus, e a si próprio, de não reincidir naquele erro, e depois, engendrar uma nova prática. Se houver uma injustiça cometida contra uma pessoa, buscar o perdão e sanear a injustiça. Com isso, vê-se a excitação do muçulmano, por exemplo, para o jihad (empenho), e depois deixa de aproveitar os frutos deste empenho. Arranca as gram&íacute;neas em torno da plantação e não se dá ao luxo de arrancar as ra&íacute;zes nocivas, que, logo logo, se manifestarão com novas gram&íacute;neas. É o encolhimento das idéias iluminadas do Islam que permite o terreno para a aceitação de outras propostas de resolução dos problemas, e/ou aceitação dos vigentes. É a permanência das idéias e dos valores tribais e segregacionistas nos assuntos do comando e administração pol&íacute;tica que retrocedem e inviabilizam a comunidade em questão.

3ª Lei:

A despeito de o Islam ser o tratamento que leva à saúde das comunidades e ao seu desenvolvimeno, ele só produz o seu efeito se a sua compreensão foi assumida e/ou empreendida por ulu albéb (os que tem os miolos esclarecidos), e que detêm as vontades altruístas e são trabalhadores.

4ª Lei:

A religião do Islam, que é a única religião revelada preservada, é o método para a vida consciente e bem desfrutada, seja na terrena seja no além. No entanto, ele só conduz para esta vida se for bem aplicado, como deve ser.

O primeiro elemento deste regime e método, consiste em insistir sobre o 1º elemento da Shariah, que são os valores islâmicos, antes da aplicação do segundo elemento, que são as penas. Em seguida, desenvolver os valores islâmicos na vida dos que conclamam para o Islam, antes dos que são chamados a participarem dele.


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