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Khutbah


 

Khutbah Jummuat proferida no masjid do Rio de Janeiro, em 2 de abril  de l999.

Dr. Kemel Ayoubi

 

O Islam  encara os problemas da humanidade e não tão-somente de um grupo chamado de muçulmano. Diz Deus:

"Deus exemplifica (isso) com o relato de uma cidade que vivia segura e tranquila, à qual chegavam, de todas as partes, provisões em prodigalidade; porém, (seus habitantes) desagradeceram as mercês de Deus; então Ele lhes fez sofrer fome e terror extremos, pelo que haviam cometido." (16:112)

É, portanto, necessário ter-se em mente que o que é válido para toda a humanidade também o é igualmente para os muçulmanos.

A lei de Allah, na sua criação, tem efeito sobre todos e não deixa de agir sobre quaisquer humanos, por serem os "queridinhos de Deus". Diz o Altíssimo:

"Os judeus e cristãos dizem: Somos os filhos de Deus e os Seus prediletos. Dize-lhes: Por que, então, Ele vos castiga por vossos pecados? Qual! Sois tão-somente seres humanos como os outros! Ele perdoa a quemLhe apraz e castiga quem quer. Só a Deus pertence o reino dos céus e da terra e tudo quanto há entre ambos, e para Ele será o retorno." (5:18)

A questão não está sujeita à imaginação e falsas concepções. Diz Deus, o Altíssimo:

"(Isso) não é segundo os vossos desejos, nem segundo os desejos dos adeptos do Livro. Quem cometer algum mal receberá o que tiver merecido e, afora Deus, não achará protetor, nem defensor." (4:123)

O esforço empreendido, individual e/ou coletivamente, será proporcional ao resultado cumulativo gradativo do esforço ao longo do tempo. Diz o Altíssimo:

"De  que o homem não obtém senão o fruto do seu proceder?" (53:39)

Toda a avaliação que se baseia num ímpeto e/ou em conjecturas é indigno de confiança. Diz o Altíssimo:

"Porém, os povos se dividiram em diferentes seitas, e cada seita se satisfazia com a sua crença." (23:53)

Adotar esta análise é a garantia de livrarmo-nos dos nossos impedimentos, uma vez que passamos a lidar com a realidade do mundo, como ele o é, e não conforme a imagem que fazemos dele. Segue-se uma série de perguntas e algumas tentativas de respostas:

1) O Islam se propõe a alterar a sociedade. Por que ele não tem conseguido fazer as alterações e mudanças propostas? Qual a causa da impotência?

Diante de cada fracasso na realização   dos objetivos, surge a pergunta se há uma causa para o fracasso ou não? Ou seja, se o mundo está estruturado de acordo com a regra da lei de Deus em sua criação, ou não?

Olha-se o mundo, e o que há nele se ergue conforme a lei de Deus, em Sua criação, a qual não se altera nem se desvia. Portanto, é de se concluir que o fracasso em se alcançar um objetivo tem uma causa da qual partiu. Donde conclui-se que a conclamação para o Islam é uma atividade humana que não constitui uma exceção a qualquer outra atividade humana e daí passível de adequação e avaliação.

O grande empecilho ao trabalho islâmico é a idéia de que, por ser o trabalho islâmico desejado por Deus, implica num bom termo do trabalho, qualquer que seja o desempenho. Fracassar é impensável, pois seria menosprezar o Islam e nisto há uma fusão ou mixagem do princípio com o indivíduo, e a dificuldade na mente de muitos muçulmanos em separar o fracasso de quem empreendeu e do princípio utilizado pelo empreendedor.

Desta incapacidade de separação, surge a crise vivida pelos muçulmanos, quando não distinguem as dificuldades do caminho correto, do erro e suas consequências que decorrem de um caminho errado para a realização do objetivo. Ou surge o conceito da dicotomia, da causa e do efeito, no sentido de que a cada causa pode haver ou não efeito, ao contrário do que ocorre no mundo real de que a cada causa há de haver um efeito.

Quem rastreia os pensamentos reinantes numa comunidade muçulmana verifica que todos convergem em direção ao elogio das atuações e não na orientação destas como que seguridade do princípio islâmico pudesse auferir segurança de atuação aos próprios muçulmanos. Gostaria de enfatizar que tal comportamento contraria o enaltecimento do Alcorão para os auto-avaliadores em 3:75

"Entre os adeptos do Livro há alguns a quem podes confiar um quintal de ouro, que to devolverão intacto; também há os que, se lhes confiares um só dinar, não to restituirão, a menos que a isso os obrigues. Isto, porque dizem: Nada devemos aos iletrados. E forjam mentiras acerca de Deus, conscientemente."

Um exemplo extraído do Alcorão de como lidar com o fenômeno descrito acima:

"Por certo que os provaremos (o povo de Makka) como provamos os donos do pomar, ao decidirem colher os seus frutos ao amanhecer." (68:17)

Eles cometeram uma ação errada, não quiseram beneficiar os necessitados e foram punidos com a perda da produção de frutos, como em

"Porém, enquanto dormiam, sobreveio-lhes uma centelha do teu Senhor. E, ao amanhecer, estava (o pomar) como se houvesse sido ceifado." (68:19-20)

Estamos diante do que aconteceu e de como aconteceu. Fizeram, a princípio, como qualquer humano à procura de um bode expiatório. Primeiro, uma falsa autotranquilização de que não aconteceria. Tudo que aconteceu, que perderam, o caminho e que aquele não era o sítio deles.

"Foram, pois, sussurrando: que não entre hoje (em vosso pomar) nenhum necessitado. E iniciaram a manhão com uma (injusta) resolução. Mas, quando o viram daquele jeito, disseram: Em verdade, estamos perdidos!" (68:23-26)

Ficou evidente, logo depois, que nada se modificou. Portanto a explicação outra que foram injustiçados. Aqui intervém o homem equilibrado e razoável para orientá-los ao cerne da questão.

"E o mais sensato deles disse: Não vos havia dito? Por que não glorificastes (Deus)? (68:28)

O problema de vocês está em vocês mesmos e não fora de vocês. Procurem reavaliar-se e descubram o erro e, ao que parece, os personagens tinham um resto de raciocínio quando em 68:30 "E começaram a reprovar-se mutuamente." confessando não serem os injustiçados e sim os injustos.

E, assim, com a autocrítica coletiva, fizeram a limpeza interna da lesão, tal como a autocrítica antes individual, agora coletiva, como em 68:30, seguido do reconhecimento de terem sido injustos:

"Responderam: Glorificado seja o nosso Senhor! Em verdadde, fomos iníquos!" (68:29)

E da modalidade de injustiça:

"Disseram: Ai de nós, que temos sido transgressores!" (68:31)

E, assim, concluiram que o problema foi uma decorrência de si e não do mundo exterior.


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