Khutbah Jummuat
proferida em 18.06.99, no masjid do Rio de Janeiro.
ISLAM, um código de vida
O Islam é uma linha de conduta
para uma vida humana real em todos os seus meandros, o que inclui a concepção de
crença. Esta concepção explica a natureza da existência e precisa o lugar do ser
humano dentro ela. Também estabelece o objetivo da existência e o que há por trás
dela. Inclui, ainda, os sistemas e controles tangíveis, que se apoiam em tal concepção
de crença. Por esse motivo, esta crença cresce nos níveis alardeados pela imprensa, de
que é exemplo a abordagem da revista Veja da semana passada, que chama a atenção para a
nova colocação do Islam em um dado rank de competição entre ideologias e religiões.
São as necessidades prementes
humanas, clamando por satisfação coerente de todos os aspectos da existênncia e que
atendam aos seus reais desejos e necessidades, que elegeram, após o conhecimento de
causa, a linha de conduta do Islam. É inconcebível para um discernente haver um paraíso
mais adiante, e onde quer que esteja, dissociado de uma prática baseada na mudança no
dia-a-dia das pessoas.
Quaisquer outras crenças
carecem das qualidades acima citadas, o que explica perfeitamente as tentativas de se
limitar o Islam a um círculo de relação intimista entre a criatura e o criador, e o seu
afastamento da participação nas atividades humanas. Os que abraçam o Islam o fazem pela
coerência de seus ensinamentos, em contrapartida a outros colhidos aqui e acolá,
nascidos de concepções díspares e adotados para preenchimento de vazios das maneiras de
ser, propostos para um ser humano idealizado que não é senão acidental.
A humanidade,
inquestionavelmente, necessita do Islam, motivo pelo qual os corações atordoados
aquietam-se tão-somente com o bálsamo dos ensinamentos deste din (conduta na e
para a vida). É das qualidaddes deste din que extraímos as certezas de nosso
papel neste mundo e nesta existência, para os quais somos chamados, a despeito das
desqualificações alegadas por quem quer que seja.
A humanidade pode prosseguir
com a adoção de experimentos diversos, que resultam apenas na passagem de um ciclo para
outro naquilo, que muito agrada aos estudiosos classificar. O Islam não é um ciclo
histórico, nem tão pouco um estereótipo a ser adotado por um grupo de pessoas:
é um sistema fixo de vida revelado por Deus para a sempre mutável vida humana.
Esse conjunto de conduta para a
vida humana é uma verdade da criação posta frente à humanidade, tal qual as leis
físico-químicas enunciadas nos alfarrábios dos cientistas.
Diante disso, as pessoas ou se
encaminham numa sistemática da Ignorância (jehiliát), ou conforme o din do
Islam, que está de acordo com as leis da criação, criada por um só criador.
Há uma verdade elementar, a
ponto de passar imperceptível a muitos. É a de que é inviável haver uma religião
vinda de Deus que trate tão-somente do além, ou das relações intimistas da criatura
com o seu criador, coexistindo com outra que não é de Deus, e que trate das outras
relações da vida dos seres humanos. É hilária tal concepção, a despeito de ser a que
vigora entre muitos. Pois disto, deduz-se que Deus é uma parte que supervisiona e
cuida de determinados aspectos da vida e é incapaz de propor normas e referências para
outros, cujas relações o ser humano decidiu normatizá-las. Garanto que, uma
vez chamados à reflexão, os praticantes de tais estilos de raciocínio e conduta,
haverão de rir de si mesmos.
O ser humano hormal não pode
ser esquizofrênico, ou submetido à "esquizofrenização". É o que ocorre,
quando a sua consciência é regida por uma religião, e os seus demais atos do dia-a-dia
são submetidos e regidos por outra referência, sendo que cada qual advém de fontes
distintas. É por isso que a revelação divina se fez para ser obedecida e não para
servir de parábolas para a apreciação em clubes templares.
O Islam contém esta verdade e
força o seu adepto a perceber a real relação da criatura com o seu criador e com o
restante da criação.
Não há necessidade de nos
alongarmos neste assunto, pois não faz nenhum sentido uma crença cuidar de um setor que
conduza ao além, deixando de passar pela vida das pessoas, que aguardarão o paraíso sem
ter que participar do dia-a-dia da existência humana. A isto, chama-se cerimônias, e o
Islam não é uma religião de cerimônias.
Viver uma vida cerimoniosa,
elaborada, a princípio, para preencher e até servir, ao se contrapor à realidade do ser
humano só pode gerar dicotomias no eu de cada um. É indispensável a vitória do ser
humano, pois este é o fundamenntal e a sua natureza é mais sólida do que
manifestações temporárias de comportamentos ditados pela cultura adquirida.
Pedir ao muçulmano que deixe
de referenciar o Islam na coisa pública é animalizá-lo, a exemplo da participação do
animal no mundo em que este existe. O Islam é a referência do muslim onde quer que
esteja. Ele não é um robô chamado de cidadão, que se insere num determinado lugar e
não é passível de inserção em outro, especialmente, se os interesses e o que é justo
para o cidadão A se confrontam com os interesses e o sentido de justiça do cidadão B.
Ser bom cidadão no "primeiro mundo" implica em sorver os recursos dos últimos-mundistas.
Ser muslim é pautar a vida em prol do justo-verídico Al haq, que é um
dos atributos de Deus. Deus é o Justo e é o Verídico. Deus ordena o justo. Deus ordena
que o muslim o seja onde quer que esteja, com A ou B. Daí, ser o Islam a referência
asseguradora da justiça, onde quer que esteja, o que muito desagrada aos injustos.
A justiça, no conceito ora
vigente aqui e ali, só é alcançável com a igualdade dos indivíduos que, para estes,
só é possível com a liberdade de crença. Os não muçulmanos que tentaram por em
prática tais princípios, só o conseguiram mediante a supressão das próprias crenças
no contexto de suas leis.
O Islam transpôs esta
dificuldade quando considerou as leis islâmicas como leis civis a serem cumpridas tanto
por muçulmanos como por não muçulmanos. Não há como igualar a crença do muçulmano
com a do não muçulmano. Se igualar os equiparáveis é ser justo, o mesmo não ocorre
quando se iguala os não equiparáveis. É alegando a teocracia do Islam que se tenta
encobrir o absurdo posto acima. É indispensável repetir que a shariah é uma
lei civil a ser seguida tal e qual qualquer outra lei civil, que exige ser cumprida onde
vigora ou por quem quer ser justo.
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