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Khutbah


 

Khutbah Jummuat proferida em 22.7.99, no masjid do Rio de Janeiro.

 

O APERFEIÇOAMENTO NO ISLAM

Por Kemel Ayoubi 

É característico da sociedade na qual estamos imersos, a difusão de slogans para preencher a vida das pessoas. Num mundo onde cada vez mais os indivíduos se amontoam, difunde-se a necessidade da "conquista do espaço". A todos, e principalmente aos jovens, é ventilado este pretenso sonho e esta pretensa necessidade.

Assim sendo, cresce a interdependência das pessoas e dos países, de modo a que nenhum deles possa tomar um rumo no sentido de se manter alheio aos demais. Disto decorre a necessidade imperiosa de trocas econômicas e culturais. E, se no campo da economia isto se faz na base do "toma lá dá cá", o mesmo não ocorre necessariamente no campo da cultura, especialmente em não sendo o Islam uma atitude espiritual da mente, adaptável às diversas culturas.

Sendo a atitude religiosa uma ocorrência natural no homem, ele se limita a explicar a sua experiência à luz das experiências externas tão somente, ou mediante a aceitação de que há um criador. Esta posição fundamental é comum a muitas religiões, porém só o Islam transpõe a simples explanação teórica para a prática efetiva, na qual cada um de nós possa reproduzir, dentro dos limites de nossa vida individual ,a idéia de unidade e coerência da ação com sua existência e consciência. Assim, atingimos o supremo objetivo da vida, que não está na renúncia ao mundo, nem tampouco na submissão a ele. O Islam é simplesmente um programa a ser aplicado na vida dos indivíduos, decretado por Allan, antes, inclusive, da criação humana. Diz Deus, o Altíssimo:

" O din (sistema, norma) junto a Allah é o Islam e quem objetiva outro que não o Islam como din, nele não será aceito e ele, no final, estará entre os perdedores."

Há nisso a completa coordenação entre toda e qualquer base de avaliação na criação, incluindo a do ser humano, sem haver, a princípio, nenhum conflito entre a existência corporal e moral do ser humano e, sim, a sua coexistência e inseparabilidade.

Isto pode ser logo testemunhado na forma peculiar de rezar do muslim, que associa a concentração do espírito aos movimentos do corpo, sendo estes executados de maneira coordenada. É um fato que os praticantes de quaisquer outras crenças foram acostumados a dissociar  o espírito do corpo, já em suas preces, como preâmbulo da separação das demais atitudes suas do espírito que deve norteá-las.

O unidirecionamento do muslim para a Kaaba em suas rezas e a sua circundação durante a visitação à Kaaba é a atividade humana veiculando a devoção e a açção na adoração de um único Deus. Tudo isto, em perfeita consonância com a revelação divina, que diz:

" ... e não criei os gênios e os humanos senão para me adorarem."

Daí decorre ser o conceito de adoração no Islam diferente de outras crenças. Não está restrito à pura prática devocional, estendendo-se a todo e qualquer ato praticado no dia-a-dia dos indivíduos. Nisto há a necessária observância ao melhor desempenho em cada ato praticado. Este estado de coisas permite ao ser humano a aquisição de uma melhor capacitação para alcançar um ideal e a incorporação real destes ideais à sua existência.

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A adoração ao Criador é o objetivo de nossas vidas, e o nosso aperfeiçoamento só é alcançado mediante a sua prática. De todas as crenças, só o Islam, e, tão somente ele, declara que esta perfeição individual é possível em nossa existência terrena, sem autoflagelação e/ou morticínio, ou sucessivas reencarnações ou a aniquilação da própria identidade. O Islam é enfático ao afirmar que o homem pode aperfeiçoar-se em sua vida terrena,  praticando tudo que é licitamente desfrutável do ponto de vista mundano.

O aperfeiçoamento está em imbuir-se psiquica e moralmente das melhores qualidades. Isto não implica a posse de todas as boas qualidades imagináveis e, sim, a progressiva aquisição de novas e boas qualidades,   mantendo e desenvolvendo as já adquiridas.

Uma vez que cada um de nós nasce com qualidades diferentes, e que a aquisição de novas qualidades necessárias para cada um difere de um indivíduo para o outro, não há, portanto, uma "estandardização" para se alcançar o aperfeiçoamento. Assim, o Islam admite, por excelência, um liberalismo comportamental, inexistente em nenhuma outra maneira de ser, e perfeitamente coerente com a opção de existir de cada qual, seja ele sedentário ou nômade, do oriente ou do ocidente.

 
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