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Khutbah


 

Khutbah Jummuat, proferida em 03.03.00, no "masjid" do Rio de Janeiro

 

Dr. Kemel Ayoubi

O aprendizado dos engajados no projeto do haj

 

O que o muslim mais necessita hoje, mais do que em qualquer outra época, é ter a percepção do ordenamento da mente e da razão, oferecido pelo Islam. É necessário aperceber-se dos diferentes níveis que os atos têm, quanto à importancia de execução e dos méritos a eles inerentes. Cada ato tem um tempo preferencial de execução, correndo o risco de provocar danos no exercício de viver e na aplicação do din do Islam, se não for observada a preferenciabilidade de execução de cada qual.

É necessário saber que, no Islam, a crença é anterior às atitudes. A isso seguem-se os atos,   e o preferido destes, junto a Allóh, não é o de mais difícil execução e sim o mais adequado à dimensão espaço/tempo, ocupada pelo muslim. E, a título de exemplificação, cito o profeta Muhammad ( a paz de Allóh esteja sobre ele), quando falou das preferências dos gastos, dizendo: " ua ib-da biman taúl", ou seja, e comece com quem você sustenta.

O haj (a visitação à Casa de Allóh, em Makkah) fornece-nos lições deste rearranjo da mentalidade do muslim. Rearranjo que começa com os preparativos para a viagem, e dos pré-requisitos para a mesma, onde o muslim põe a sua vida em ordem e não deixa os seus assuntos pendentes.

Então, começa a jornada, obedecendo às delimitações e não ultrapassa os "mauékit = pl. de mikót", sem já estar em condição de "ihróm", e quem ultrapassar o mikót deverá retornar e fazer o ihróm de antes destes limites. Desta simples atitude, é possível incorporar ao comportamento do muslim o hábito de delimitar os atos a serem praticados em sua vida, não ultrapassar as delimitações que ele visualizar, para conferir qualidade ao seu trabalho, e de retroceder e corrigir, toda vez que a correção dos atos assim o exigir. Assim, o muslim desenvolve-se dentro do amor à disciplina e à ordem, obedecidas nos pormenores constituintes do ato.

Este é o ensinamento inerente e que norteia todas as práticas da adoração no Islam. Este é, igualmente, o ensinamento que é inerente e norteia todas as relações desenvolvidas pelo muslim. Disso concluímos que a disciplina e o controle são atributos manifestos no muslim de verdade.

Quando o muslim tira as roupas do dia-a-dia, veste as vestimentas do haj, manifesta-se com o atendimento à conclamação de Allóh ao elevar a voz com o "labbaica Allóhumma labaic, labbaica lé xarica laca labbaic, inna al hamda ua anni-amata laca ua almulca, lé xarica laca" - Atendo-o, ó Allóh, atendo-o, atendo-o, não há sócio contigo, atendo-o, a louvação, a benção são para Ti e o reino não há sócio para Ti. Atesta, então, um empenho (não é por menos que o profeta Muhammad, a paz de Allóh esteja sobre ele, disse ser este um jihad = empenho) empreendido pelo muslim em direção às mudanças tão necessárias em nossas vidas, e de como este empenho é importante na confecção dos acontecimentos. Importante é dar o passo, a exemplo do héj (quem faz o haj) para a obtenção das mudançs internas, externas e civilizatórias.

Temos certeza de que as mudanças ocorrem por mudanças em nosso interior, ocorridas a exemplo da decisão pautada sobre a norma islâmica de efectuar o haj, da tomada de medidas nesse sentido e da manifestação visível desta tomada de medidas, percebida nas atitudes externas e que mostra a indivisibilidade do ser humano de seu exterior acompanhar o seu interior, e vice versa. Vice versa, porque qualquer desajuste externo influenciará também internamente, a exemplo da preocupação em nossas preces de alinhar as fileiras.

O ihróm é o exercício da metamorfose em direção à nova e direccionada mudança, não é por menos que o profeta Muhammad (a paz de Allóh esteja sobre ele) diz de quem retornar do haj ser como um recém nascido (não esquecer de que o Islam não concorda com o conceito de pecado original e hereditariedade deste). Esta metamorfose é exercida de maneira manifesta e audível (decisão do haj, delimitação do início da mudança, a troca de roupa, a manifestação vocal de atendimento ao chamamento de Allóh, ... ), tudo isto perceptível pelo muslim e pelo não muslim.

Por outro lado, é um engajamento, a despeito das diferenças de espaço e de tempo com o fundador deste projecto de mudanças que é o profeta Ibrahim (a paz do Altíssimo esteja sobre ele). É atender à conclamação geral feita por ele, a mando de Allóh, na surata do haj, éiat 27 : .... e conclame entre as gentes com o haj, virão a ti a pé e sobre diferentes montarias de cada canto recôndito.

 

É a declaração geral da identidade universal do muslim em um projecto, em atendendo uma base justa em prol das mudanças a serem exercidas no ambiente pelo muslim. Lembrar que Ibrahim (a paz de Allóh esteja sobre ele) fez a declaração e o inóspito, o vazio, o cercava, porém, os séculos decorreram e os engajados no projecto de mudança universal atenderam e crescem dia a dia. E nisso, os engajados já são destaque em relação aos engajados nos projetos mundanos. Os muçulmanos retornam e apoiam-se em pilar firme e sólido (haj, a Caaba erguida sobre um pilar, e no exercício, um dos pilares do Islam). É a declaração de desafio dos que dão graças por serem submissos (muçulmanos) ao Criador, sem serem submissos às criaturas. É necessário atentar para os benefícios de poder empreender o haj e suas metamorfoses, a despeito do menosprezo dos que o desprezam. É necessário perceber o quão cresce e ascende o muslim, que se vê numa continuação supra-racial, supra-tribal, supra etc., e tal ao ser um contínuo temporal e acrescentador espacial de quem plantou a semente em um vale sem vegetação. Diz Allóh, refrindo-se a Abraão: "Nosso Senhor, eu pus para morar de minha descendência em um vale sem vegetação, junto a Tua Casa al muharram, Senhor nosso para executarem a prece, portanto faça com que af-idát ( local no mediastino que contém o coração) caia sobre eles." ( surata de Ibrahim 37).

 

 II

 

 

Ao fazer o haj, é dado ao héj ( o visitante da Caaba) alternativas de como dar continuidade e de como dar finalização ao haj. Estas escolhas, como disse o profeta Muhammad ( a paz de Allóh sobre ele), o héj as antevê no início da prática do haj. Isto abre para o muslim empreendedor do projecto, uma questão importante que é a multiplicidade de possibilidade de acerto no exercício de sua vida. Conceito importante para  que haja o rearranjo da mentalidade de muitos muçulmanos. É esta a base do exercício do muslim da política legal. Daí, chegamos à conclusão das manifestações da capacidade de continência, do método islâmico e da robustez do projeto civilizatório islâmico, frente a outras propostas acusadores de rigidez do Islam.

De quando o muslim faz a circundação da Caaba, apercebe-se da necessidade de haver um referencial para as mudanças a serem empreendidas, além de uma ordem no exercício destas mudanças. Quando o muslim se apercebe neste mar de gentes de todos os tipos e de diferentes terras e linguagens, compreende que o alicerce admitido por Allóh para a obtenção do êxito desta ummah está no tauhid (monoteísmo) da obediência ao chamado, no tauhid das manifestações corporais, no tauhid das vestes, no tauhid dos procedimentos, sem que com isso haja massificação e bitolação. Aí, tem-se a certeza de que este din, este Islam, é a idéia base de construção do pilar, junto ao pilar da Caaba, a exercer um pilar do Islam, sem deixar de fazer os outros pilares no exercício do pilar do haj.

Há quem atente para as diferenças, apesar do exercício coeso, e este certamente há de perceber a referenciabilidade da Caaba, a despeito das diferenças, o que atesta a presença marcante da idéia central na movimentação dos muçulmanos. O haj há de avivar as esperanças frente à visão quantitativa dos muçulmanos presentes ao mesmo, em comparação ao início solitário de Abraão (a paz de Allóh esteje sobre ele) e, daí, perceber que cada reinício correto é recompensado, mesmo a longo prazo, com os resultados, atestando a necessidade de disponibilizar o Islam pelo muçulmano às gentes, pois terá, oxalá, resultados. Disse o Altíssimo: "e diga : trabalhem, pois Allóh verá o vosso trabalho, e o Seu mensageiro e os crentes." É indispensável aqui dizer que o crente deve assimilar o seu trabalho. À visão quantitativa, segue-se um divisionamento qualitativo, ao aperceber-se o héj da dimensão das discrepâncias, dos desnivelamentos e de uma tomada de decisão em prol da decisão de fazer-se presente no mundo em que vive, na época em que vive. É importante perceber que, a despeito de imerso na multidão, o muslim ainda carrega uma identidade e objectivos individuais, manifestos na tentativa de aproximar-se do rucn, onde se encontra a pedra preta. É importante aperceber-se da aceleração que imprime ao seu movimento quando faz a circundação e o sa-í, entre o Safa e Maruá, demonstrativos da necessidade de variabilidade do movimento no exercício dos actos do nosso dia a dia. Que a variabilidade e a celeridade seja decorrente de um ritmo próprio, exigido pelas normas islâmicas independente, e até contrário à proposta não islâmica. Bem, as lições e os exercícios são muitos e, para finalizar esta khutba, é necessário apontar para os períodos de descanso entre uma manifestação e outra do haj, para a retomada de fôlego e é indicador que este projecto que é o Islam e em que em um de seus "módulos" posto em prática foi observado, mas também a natureza humana e levado em consideração as diferentes capacidades de participação dos participantes, o que aponta para a delicadeza, o carinho do Islam para com os muçulmanos.

Ah, e a presença da mulher!? Não esquecer do empenho de quem foi deixado no vale sem vegetação, Hagar e seu filho Ismael. Não esquecer do empenho da procura da água por Hagar para seu filho, entre Safa e Maruá, subindo e descendo os dois montes, em diferentes velocidades de procura. Sobe devagar e desce célere conforme o terreno e conforme as forças corporais. Não esquecer que isso teve por continuidade o surgimento da água, da sobrevivência de Ismael, da retransmissão desta conclamação de Ibrahim da continuidade com a mensagem de Muhammad (que a paz de Allóh esteja sobre todos os Seus enviados).

 
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