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Khutbah |
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Khutbah Jummuat proferida no "masjid" do Rio de Janeiro Há uma verdade essencial evidente no Alcorão: A de que grande parte de suas suratas e versículos foram reservados à questão histórica. Esta assume dimensões e orientações diversas. Variam entre a exposição direta e o relato real das experiências de vários agrupamentos humanos, e entre resumos caracterizados pelo posicionamento e concentração das leis históricas, que regem a dinâmica dos grupos humanos através do tempo e do espaço. Passa, inclusive, pelas atitudes mutáveis do ser humano, face à natureza e ao mundo em que vive, e pelas incontáveis maneiras de organizações urbanas, que variam de simplicidade, maturidade e complexidade. Esta questão é de tal peso e dimensão no Alcorão, a ponto de, praticamente, todas as suratas não carecerem de uma exposição da ocorrência histórica ou da rápida anuência de um acontecimento, ou a afirmação de uma lei, à luz da qual decorre uma dinâmica da história. Tal é perfeitamente óbvio. Está igualmente de acordo com a distribuição dada pelo Alcorão, visando à cobertura de todas as questões principais da vida da humanidade, que são de suma importância para o caminhar de qualquer agrupamento humano, que busca os esclarecimentos iluminados pelas ocorrências passadas. Visa a clarear o longo caminho a trilhar, em transpondo o maior número de obstáculos e contrariedades, atendo-se , por outro lado, ao maior número de métodos e recursos passíveis de fazê-lo chegar aos objetivos no menor tempo e com o menor dispêndio de esforços. Métodos e estilos estes testados no decorrer da ação histórica, a qual expôs os elementos fracos e fortes em uns e em outros. Qualquer tentativa de ação da estaca zero, sem olhar as decorrências históricas, reverterá no dispêndio de maior esforço e maior tempo para o grupo. Se a esta dimensão histórica, dada pelo Alcorão, acrescentarmos a questão da história propriamente, haverá um relacionamento quase que orgânico com esta, por tocar, corroborar, comentar, reestruturar, reavaliar e reorientar uma série de ocorrências históricas encontradas nos versículos revelados, logo após o grande número de acontecimentos ocorridos na época da revelação, a fim de comentar, refutar, tocar, edificar, esclarecer, redispor, a partir dos acontecimentos ainda recentes, seja no teatro de operações destes, ou no sentido do grupo ou indivíduo muçulmano . Seremos então capazes de ter uma idéia, cada vez mais ampla, da importância dada à questão histórica pelo Alcorão. Ter uma correta visão histórica está ligado à nossa relação com o Alcorão e ao atendimento à sua orientação, em prol da apreciação da ação histórica e do papel do ser humano e das forças universais nesta. O Alcorão não expõe seus relatos para puro deleite intelectual, ou satisfação de uma necessidade, dos que nele crêem, de ouvir histórias, ou está de acordo como uma tendência acadêmica de buscar o relato dos fatos, que realmente aconteceram, da maneira mais fidedigna, sem se importar com os indicadores daquilo que aconteceu e seus sinais morais. O Alcorão traz (21:59) consigo os dados passíveis de movimentarem a ação humana individual e coletiva, em direção aos alvos a serem atingidos, apontados pelo Islam e, ao mesmo tempo, afastá-la individual e coletivamente dos escorregões que inviabilizaram a vida dos milhões e das nações. Traz consigo a mostra e a evidenciação das divergências agudas entre os agrupamentos não islâmicos e islâmicos, no mais amplo sentido que a palavra Islam possui, no tocante à abordagem histórica, como que querendo dizer ao ser humano, discerniste sobre as formas de agir neste mundo. Auferir movimento e não apenas a simples busca acadêmica, ou o relato artístico ou o continente lingüístico, jamais foram os objetivos das exposições históricas no Alcorão, e que são os objetivos das ideologias, que aprofundaram-se no estudo da história, a fim de apresentarem programas e planos conforme os ensinamentos desta, em seus vários períodos. " Este (Alcorão) é uma declaração aos humanos, orientação e exortação para os tementes. Não desanimeis, nem vos aflijais, porque sempre saireis vitoriosos, se fordes crentes." {Família Imran : 137 a 139} O Alcorão oferece os princípios do método completo do relacionamento com a história humana, indo desde a fase expositora e coletora, até a tentativa de extrair as leis que regem os fenômenos sociais e históricos. Isto está na insistência constante do Alcorão no relato de acontecimentos da vida dos mensageiros e das nações e de que há leis (sunan) às quais se submete a dinâmica da história. A nova sistemática apresentada pelo Alcorão, afirma que a história só adquire importância positiva quando dela se extraem certas leis e certos valores, sem os quais nenhum programa é correto, tanto no presente como no futuro. O estilo da exposição e da análise são meros recursos de apresentação dos dados e dos resultados finais para quaisquer tipos de exercícios nos campos da história. O Alcorão esclarece especificamente esta questão, quando lemos no versículo 53 da surata 41 (Os Detalhes) : "De pronto, lhes mostraremos os Nossos sinais em todos os horizontes, assim como em si mesmos, até que lhes seja esclarecido que e lê (o Alcorão) é a verdade. Acaso não basta teu Senhor, Que é Testemunha de tudo?" Isto atesta que a passagem do tempo aufere os meios e os recursos de ampliar os horizontes da percepção dos objetivos dos versículos do Alcorão nesta e em outras questões. O posicionamento do Alcorão, em relação à história, caracteriza-se pela sua flexibilidade e afastamento crítico da situação, decorrente da análise ideológica que molda, numa forma pré-concebida, os acontecimentos da história, em desconsiderando qualquer dado que não coadune com esta. O que leva a erros e desvios de análise da mesma, além de sofrer as influências da situação vigente, que se reflete emocionalmente nas análises, posicionando-as de maneira extremamente favorável ou extremamente desfavorável a ocorrência, melindrando a exposição dos detalhes, em escondendo-os dentro de si, contra a sua publicação. Qualquer análise histórica do passado e das perspectivas futuras será reflexo do presente, em faltando com a veracidade, levando à discrepância das várias análises. A análise islâmica humanamente feita, porém decorrente da visão de Deus, que está acima do tempo e do espaço, e transpõe a relatividade dos acontecimentos, performancia a análise conforme uma abrangência ampla, sem restringi-la ao verde e ao vermelho, para que pareça assim ou assado. A tendência islâmica está em reconhecer as diferenças populacionais, as diferenças entre homem e mulher, entre branco e preto, entre isto e aquilo, porém conferindo a este dado sua dimensão verdadeira, uma vez que a não distinção é por si segregação. O Islam insiste na fraqueza humana, na sua volubilidade e no seu imediatismo, a despeito de atribuir a este mesmo ser humano os encargos da (khiléfat) vice-gerência do mundo em que vive, dada por Deus, e com cujo exercício ascende ao mais alto nível. Tudo isto nos leva à conclusão de que a análise histórica islâmica é uma análise real, e não virtual, não influenciável pelos fatos passíveis de ocorrerem, e que não ocorreram. Há, portanto, entre as tendências vigentes e a islâmica, uma diferença essencial de método na análise histórica. Nas primeiras, as verdades históricas são confeccionadas de acordo com a metodologia de análise previamente elaborada, e estas são escolhidas para se coadunarem com a proposta metodológica, e são escolhidas para confirmá-la. O erro maior está na acepção verídica de que as ocorrências históricas são anteriores ao planejamento dos métodos, e que estes são uma questão ulterior que visa a uniformizar e enjaular as ocorrências anteriores, segundo as suas concepções posteriores. Esta situação crítica é confirmada nas ocorrências do dia a dia, quando os pensadores posteriores adotam posições muitas vezes diametralmente opostas aos seus antecessores. O Alcorão cerca os acontecimentos pelos três direcionamentos do tempo ( passado, presente, e futuro), e pela quarta dimensão, que muitas vezes escapa à percepção humana, a despeito de sua inteligência. Penetra nas profundezas da nafs humana, tocando a sua fitra ( seu estado inato) e a sua composição própria. O movimento incessante, inerente a este ser, toca profundamente as suas motivações mentais, sentimentais, existenciais, e a sua pré-intenção e determinação e a que tudo isto leva, dando dinâmica à história, e sem as quais esta dinâmica inexiste. A análise alcorânica se faz a partir do que realmente ocorreu e não do que deveria ocorrer. O Alcorão expõe as linhas gerais da dinâmica histórica através de princípios gerais, aos quais chama de sunan, e que são pontos de partida, não para falsificar a história, e sim para analisá-la e fazê-la entendida, assim como os elementos desta, dotados de mobilidade. A visão não alcorânica estende-se ao passado, para catar elementos que corroboram suas afirmações prévias, enquanto que a visão alcorânica abarca o passado, para condensá-lo em sunan, a serem apresentadas a todo e qualquer pesquisado,r que visa entender a história,. e para que este, à luz deste entendimento, trace os caminhos de sua vida atual e futura, considerando-se que as três dimensões do tempo são regidas pelas mesmas leis em todo o decorrer deste, em sincronia com as leis que regem a vida. Disto decorre: Que a história no Alcorão é um bloco temporal único, no qual desmoronam os muros que separam o passado do presente e do futuro, e onde estes tempos se abraçam mutuamente numa relação visceral da terra e do céu, o tempo da terra e o tempo do céu , a história da criação e o dia do ajuste de contas, que se encontram sempre no tempo atual de cada um de nós. Esta velocidade de deslocament,o e que acompanha o pensamento de cada ouvinte e leitor, é indicativa da solicitude do Alcorão em remover as fronteiras que separam os tempos (passado, presente e futuro), considerando-os uma unidade viva contínua. Assim, a dinâmica da história, compreendida dentro do nosso universo, é um movimento único, que se iniciou quando Deus criou esta criação e que se dirige em direção ao dia do ajuste de conta. É aí que transparece a tendência abrangente do Islam, ao incorporar, ao mesmo tempo, a aceitação de todos as forças realizadoras da história à realidade: as perceptíveis e as não perceptíveis, as racionais e as existenciais, as materiais e as espirituais, as cognoscíveis e as não cognoscíveis. Não há divisibilidade de visão e isolamento do planeta terra de sua posição e a sua relação com o resto do universo. Todas as demais tendências de análise histórica, seculares ou religiosas, que não o Islam, forneceram dados evitando a resposta à pergunta mais importante: Qual a relação entre Deus e a natureza, na qual se incluem as suas forças naturais e o homem feito de matéria, nafs e ruh, na realização de sua história e na edificação das civilizações? Será que os acontecimentos históricos são passíveis de ocorrerem se faltar algum destes elementos, ou melhor, se for desconsiderado qualquer um deles? Todas as tendências evitaram responder a esta pergunta, deixando um grande vazio sobre a hipótese que confere a qualidade da dinâmica histórica a um único elemento, desconsiderando-se os demais elementos. Daí a explicação unicamente metafísica, unicamente individualista, ou heróica, e cujo exemplo máximo está no materialismo histórico, o qual foi chamado de científico. É verdade que há quem, nos dias de hoje, concorda que um determinado acontecimento não decorre da ação originada de um uma só fonte ou direção, uma vez que cada movimentação histórica é o resultado do encontro criador de Deus, do homem e da natureza, considerando a dimensão do tempo. Os parâmetros islâmicos de análise da história estão
acima das críticas, quanto a quaisquer valores espirituais, uma vez que estes não são
dissociáveis dos materiais e racionais, e agem em harmonia com as forças naturais na
movimentação da ação histórica. Por certo, uma vez que estes valores espirituais no
Islam não são rituais para a prática individual e coletiva, no sentido teológico
e, sim, são valores de profundas raízes e entrelace na realidade da existência humana,
individual e coletiva, e sem nada a ter com os posicionamentos adotados pelas outras
tendências, como idealismo, materialismo e civilização. |
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