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Khutbah |
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Khutbah Jummuat proferida em 4 de março de 1994.
A Morte O assunto de hoje tem uma importância espiritual muito profunda. Também já foi citado inúmeras vezes no Alcorão e nos ditos do nosso Profeta (a paz esteja com ele). Apesar de sua importância, muitas pessoas raramente se lembram dele, e se o fazem, em geral não querem refletir, uma vez que ele provoca algum constrangimento nelas. Vamos seguir a orientação do Alcorão e meditar sobre este assunto: a MORTE. A morte é um acontecimento mais do que conhecido. Sempre foi inquestionável. Ninguém jamais duvida da morte. Embora os seres humanos raramente concordem com alguma coisa, jamais eles tiveram qualquer discordância sobre a sua mortalidade. A morte é citada no Alcorão em quase todas as partes. A palavra "MORTE", e seus derivados "morrer, morrendo, morto", é encontrada mais de 160 vezes no Alcorão. O Alcorão colocou muita ênfase na morte. Por que o Alcorão constantemente lembra aos fiéis sobre a sua própria mortalidade, embora este fato seja de seu pleno conhecimento? Para compreender o porquê, temos que examinar muito bem os versículos do Alcorão que mencionam a morte, e meditar sobre eles. Exploremos alguns desses versículos: "Toda alma provará o sabor da morte" (al-Imran 3:185) O versículo é claro e enfático. A mensagem que ele nos transmite é: Não se enganem a respeito da morte, esta é uma conclusão antecipada. Cada alma a provará e não se discute isto. Ouçam agora o verso completo: " Toda alma provará o sabor da morte: sereis recompensados integralmente pelos vossos atos; quem for afastado do fogo infernal e introduzido no Paraíso triunfará. Que é a vida terrena senão um prazer ilusório?" (al-Imran 3:185) Estes versos representam um dos mais importantes Princípios do Islam, qual seja, o fato de que existe uma outra vida após a morte. Assim, para nós, a morte não é o fim do mundo mas, sim, o começo de uma vida eterna. O outro fato que está indubitavelmente implícito no verso é que a medida do sucesso não está nesta vida. Sucesso não é ter uma grande quantia em dinheiro, ou uma família grande, ou um emprego de prestígio, ou um título importante, ou o diploma de uma universidade respeitada, ou uma casa grande, ou um carro bonito, tudo isso nada mais é do que prazer ilusório. O sucesso verdadeiro é a salvação do inferno e a admissão no Paraíso Qualquer coisa menos do que isso é simples decepção. Outro versículo que transmite um significado semelhante é: "Toda alma provará o gosto da morte e vos provaremos com o mal e com o bem e a Nós retornareis." (al- Anbyá 21:35) A mensagem é clara: todos morreremos e esta vida é apenas uma provação sobre esta terra, nossa fé será testada de muitas formas. Alguns serão testados pelas calamidades, e outros o serão pelas boas coisas desta vida, e no final retornaremos a Allah, e assim seremos avaliados pelos resultados de nossos testes. A história completa de cada um de nós está melhor resumida nestes versículos: "Criamos o homem da essência do barro. Em seguida, fizemo-lo uma gota de esperma, que inserimos em um lugar seguro. Então convertemos a gota de esperma em algo que se agarra, transformamos o coágulo em feto e convertemos o feto em ossos; depois, revestimos os ossos de carne; então o desenvolvemos em outra criatura. Bendito seja Deus, Criador por excelência. Então morrerreis indubitavelmente. Depois sereis ressuscitados, no Dia da Ressurreição." (al-Muminun 23:12/16) Esta é a história de cada um de nós, CRIAÇÃO, VIDA, MORTE e finalmente, RESSURREIÇÃO. Portanto, devemos compreender que nossa vida nesta terra é apenas uma parte, na verdade uma parte muito pequena, de todo o quadro. Por outro lado, não devemos superestimar o valor desta fração minúscula, se comparada com a existência inteira. Ninguém escapa da morte. Allah diz: "Onde quer que vos encontrardes, a morte vos alcançará, ainda que vos guardeis em fortalezas inexpugnáveis." (al-Nissá 4:78) Não importa quanto tempo que se viva, ninguém nos salvará da morte. Torres inexpugnáveis não nos salvarão. O progresso da ciência não vencerá a morte. Os sistemas avançados de saúde não sobrepujarão a morte. Família, amigos, dinheiro, poder, prestígio, nada disso terá valor. Ouçam os seguintes versículos que descrevem o nosso desamparo quando a morte chega: " Por que, então, (não intervis), quando (a alma de um moribundo) alcança a garganta? E ficais, nesse instante, a olhá-lo, - E Nós, ainda que não Nos vejais, estamos mais perto dele do que vós - por que então, se pensais que em nada dependeis de Nós, não lhe devolveis (a alma), se estais certos? Porém, se ele for um dos achegados (a Deus), (terá) descanso, satisfação e um Jardim de Prazer: ainda, se for um dos que estão à direita, (ser-lhe-á dito): que a paz esteja contigo, da parte dos que estão à direita! Por outra, se for um dos desmentidores, extraviados, então terá hospedagem na água fervente, e entrada na fogueira infernal. Sabei que esta é a verdade autêntica. Glorifica, pois, o nome do teu Supremo Senhor!" (al-Wáqui'a 56:83/96) Podemos também encontrar no Alcorão muitos versos que advertem os fiéis para as suas obrigações nesta vida, antes da morte. Allah diz: "Ó fiéis, temei a Deus, tal como deve ser temido, e não morrais, senão como muçulmanos." (aal'Imran 3:102) Allah nos ordena a morrer como muçulmanos. Mas, nunca sabemos quando a morte chegará para nós. Portanto, temos que ser muçulmanos o tempo todo. Isto é, a mensagem é ser muçulmano hoje, amanhã e sempre, ser muçulmano na fé e no comportamento, ser muçulmano na vida pública e privada. Ser muçulmano com os outros e consigo mesmo, ser muçulmano na alegria e na dor. Estar sempre em estado de Islam, em estado de submissão a Allah, porque assim, quando a morte chegar, estaremos prontos. O mesmo sentido é colocado muito eloqüentemente nos seguintes versos: "Ó fiéis, que os vossos bens e os vossos filhos não vos alheiem da recordação de Deus, porque aqueles que tal fizerem, serão desventurados. Fazei a caridade de tudo com que vos agraciamos, antes que a morte surpreenda qualquer um de vós, e este diga: Ó Senhor meu, porque não me toleras até um término próximo, para que eu possa fazer caridade e ser um dos virtuosos? Porém, Deus jamais adiará a hora de qualquer alma, quando ela chegar, porque Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis." (al-Munaficún 63:9/11) Estes versículos são extremamente importantes para nós. Eles estabelecem, sem sombra de dúvida, que não haverá uma segunda chance. Quando a morte chegar, tudo estará acabado. Se quisermos fazer o bem, façamo-lo agora, antes que estejamos mortos. Se falharmos em ser bons muçulmanos nesta vida, seremos os eternos perdedores, porque não teremos uma segunda oportunidade. Não nos será concedido tempo adicional, não haverá exceções. Um outro versículo enfatiza o mesmo significado: "Quando a morte chega para um deles, ele dirá: 'Ó meu Senhor, devolva-me a vida a fim de que eu possa fazer o bem nas coisas que eu negligenciei.' Não, em hipótese alguma." (al-Muminun 23:99/100) De novo, o mesmo aviso, Allah está nos lembrando para termos cuidado: qualquer que seja o bem que possamos fazer, façamo-lo agora, não deixemos para depois, não o adiemos. Se falharmos em fazer o bem agora, será nosso erro, já fomos advertidos e toda a perda será nossa. Há inúmeras referências sobre a morte no Alcorão. As cenas sobre a morte e as cenas sobre o Dia do Julgamento são abundantes no Alcorão. Estão em quase todo o lugar. Se imaginarmos que lemos o Alcorão todos os dias e a suna do Profeta, então é muito provável que leremos sobre a morte todos os dias. Se seguirmos a orientação alcorânica para meditarmos sobre tudo o que lemos, então acabaremos por pensar na morte todos os dias. Devemos nos perguntar por que é que Allah deseja que reflitamos sobre a morte todos os dias. Qual é a importância desta recomendação? O fato é que lembrar da morte tem implicações na vida do crente. Lembrar da morte diariamente pode e transforma a vida inteira do fiel para melhor. A consciência da morte ajuda o crente a estabelecer as suas prioridades. Imaginemos um crente que lê o Alcorão todos os dias, lê e medita sobre a morte e o Dia do Julgamento e, então, age de acordo. O fiel será, certamente, mais altruista, menos ávido, mais cuidadoso com as necessidades dos pobres e necessitados, mais útil para com os fracos e desamparados, mais doador na caridade, mais generoso, porque simplesmente este crente se faz sempre a mesma pergunta: "Este dinheiro me salvará da morte?""Este dinheiro me livrará do fogo do inferno?" "Guardar dinheiro ou ser avaro me garante o prazer de meu Senhor?" Na verdade, é o oposto. Quanto mais eu gastar por conta de meu Senhor, mais eu me aproximo Dele. A lembrança da morte é o melhor caminho para me tornar um daqueles a quem Allah louvou no Alcorão, dizendo: "E em cujos bens há uma parcela intrínseca, para o mendigo e o desafortunado. São aqueles que crêem no Dia do Juízo, e são reverentes, por temor ao castigo do seu Senhor, porque sabem que o castigo do seu Senhor é iniludível." (al-Ma'arij 70:24/28) A consciência da morte cria o crente cuidadoso, socorredor e generoso. Em resumo, uma pessoa verdadeiramente maravilhosa. Se a consciência da morte estiver espalhada por toda a comunidade de crentes ela será uma comunidade fantástica. A lembrança da morte também é de um enorme auxílio espiritual para o crente. Ele, que está sempre consciente de sua mortalidade, sentirá sempre a necessidade de buscar refúgio no Todo Poderoso. Esta espécie de crente estará sempre atento para não desagradar a seu Senhor e se acontecer de ele fazer algo errado, ele rapidamente pedirá perdão. O arrependimento se tornará sua prática diária, desde que ele se lembre que a morte pode chegar a qualquer tempo, e assim ele toma as precauções para estar sempre arrependido. Esta consciência da mortalidade melhorará a qualidade espiritual das preces do crente. Se em nossas preces nos lembrarmos de que um dia seremos uma pessoa morta, então, verdadeiramente, humilhar-nos-emos nesta prece. É por isso que o Profeta (a paz esteja com ele) uma vez nos advertiu para que, no começo de cada oração, deviamos considerá-la como a última de nossa vida. Arrependimento, oração, humildade, renúncia, paciência, caridade, temor a Deus e esperança, tudo isto é o resultado imediato da lembrança da morte. Uma das mais importantes ramificações da contínua recordação da morte é que ela estimula o crente a fazer a Jihad, a lutar por conta de Allah. Para o crente que está sempre consciente de que ele morrerá cedo ou tarde, então ele certamente preferirá uma morte gloriosa a uma morte comum, e a morte mais gloriosa é morrer pela causa do Islam, é ser um mártir da fé. Vejam como Allah louva aqueles que sacrificam suas vidas por sua causa: "Deus cobrará dos fiéis o sacrifício de seus bens e pessoas, em troca do Paraíso. Combaterão pela causa de Deus, matarão e serão mortos. É uma promessa infalível, que está registrada na Tora, no Evangelho e no Alcorão. E quem é mais fiel à sua promessa do que Deus? Regozijai-vos, pois, da troca que haveis feito com Ele. Tal é o magnífico benefício." (at-Taubah 9:111) Esta atitude de constante consciência da morte e o preferir uma morte gloriosa a qualquer outra espécie de morte, foram as causas primordiais de todas as glórias do início do Islam. Em menos de um século, aqueles companheiros destemidos do Profeta (a paz esteja com ele) levaram o Islam até o litoral do Atlântico e às fronteiras da China. Eles lideraram as campanhas militares mais impressionantes da história e seu estímulo era muito simples: a busca do martírio, a morte mais gloriosa para o muçulmano. Hoje, é o medo da morte, gloriosa ou não, que está nos tornando, de longe, a nação mais humilhada sobre a face da terra. O massacre de palestinos da última sexta-feira (25.02.94) é apenas um lembrete desta humilhação. A razão para todos os males do mundo muçulmano de hoje está num único fato, Nós, muçulmanos, temos medo de morrer. O martírio não tem tanto apelo para nós como tinha para os primeiros muçulmanos. Não queremos sacrificar nossa fortuna, ou o nosso padrão de vida. Há abundantes evidências disso. O mundo muçulmano traiu a Bósnia. Os muçulmanos do Oriente não querem sacrificar seu padrão de vida e ameaçam com um embargo econômico e de petróleo contra todos aqueles que ajudarem os sérvios, bem como todos aqueles que impeçam os muçulmanos da Bósnia de se defenderem. Os muçulmanos no Ocidente não passam melhor, a ajuda que fornecemos aos nossos irmãos e irmãs na Bósnia nada mais é do que ninharia, se comparado com o patrimônio que os muçulmanos no Ocidente usufruem. Os muçulmanos não estão querendo se sacrificar, nós consideramos um donativo de US$20 um "sacrifício". Por que não queremos nos sacrificar? Pela mesma razão: medo da morte. Amamos muito a vida e achamos que viveremos para sempre. Temos que entender que o medo da pobreza e o medo da morte gloriosa tornam os homens covardes. Uma das causas de nosso medo de uma morte gloriosa é que temos medo de dizer a verdade. Estamos agora no mês do jejum. Esta é a verdade, mas quando um governante de um país muçulmano disse que o jejum era um obstáculo para o desenvolvimento econômico e que ele deveria ser abolido, muito poucos objetaram. Quando um governante muçulmano descreveu o hijab das mulheres como "andrajos sujos" ninguém retrucou. Quando um outro governante muçulmano disse que o hijab era "um ato de Satã", porque Eva não usava roupas, ninguém replicou. Na verdade, a única reação foi uma onda de aplausos de uma audiência composta de membros do parlamento de um outro país muçulmano! No Islam, manter o silêncio, quando se deveria protestar, é um pecado. Mas, por que ninguém protesta? Porque a vida é muito cara para o muçulmano. Os muçulmanos supõem que viverão por muito tempo. A ironia é que os países muçulmanos, no geral, têm o mais baixo índice de expectativa de vida na terra! Para resumir, deveria me lembrar e a meus caros irmãos e irmãs que a morte é uma realidade e que nós devemos sempre estar preparados para ela. Por favor, não imaginemos que viveremos por muitos anos, especialmente se formos jovens e saudáveis. Isto não é verdade. Os jovens morrem todos os dias e pelas mais variadas razões. Eu mesmo tive dois amigos que morreram jovens. Um tinha cerca de 24 anos e o outro morreu aos 27, sendo que este último era muito saudável. Eu me formei na turma de 1986 e até agora já soube de dois colegas da minha turma que já morreram. Ninguém tem imunidade contra a morte. Ninguém é muito saudável, ou muito jovem, ou muito rico, ou muito poderoso, ou muito famoso para não morrer. A pergunta que devemos sempre nos fazer não é se vamos morrer, e sim, quais os preparativos que devemos fazer para morrer como bons muçulmanos. Devemos sempre estar prontos, devemos sempre lutar para melhorarmos, até nos tornarmos as melhores pessoas que podemos ser. Devemos nos humilhar em nossas preces. Ler mais o Alcorão e refletir sobre o que lemos, devemos ajudar os outros, fazer mais caridade, libertarmo-nos de nossa avareza e egoismo.
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